
Uma escola pública que alfabetiza em inglês e português. Planejamentos pensados de forma integrada, contando com aulas e atividades que aproximam os estudantes da cultura dos países anglofalantes. Quem passa pela Escola Municipal de Educação Básica Maria Emília de Paula, em Sapiranga, talvez não saiba que ali é oferecido ensino bilíngue português—inglês – o que antes era restrito à rede privada.
Rodeada por jardins e emoldurada por morros, a instituição do Vale do Sinos, conta com 347 alunos e há fila de espera para novos estudantes. Na modalidade bilíngue, o segundo idioma é trabalhado com carga horária dividida com a língua portuguesa.
Segundo a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), “aprender a língua inglesa propicia a criação de novas formas de engajamento e participação dos alunos em um mundo social cada vez mais globalizado e plural.” Apesar de o inglês ser a língua mais falada do mundo, o Brasil apresenta baixa proficiência no idioma: o país ocupa a 75ª posição na edição de 2025 do EF English Proficiency Index, que analisa a fluência em 123 países.
A iniciativa
Nathalia Silva, supervisora pedagógica na Secretaria Municipal de Educação de Sapiranga, explica que a iniciativa surgiu com a proposta de implementação na Educação Infantil. Sem um modelo a ser seguido – a escola é a primeira na rede pública a oferecer ensino bilíngue na cidade e se considera entre as pioneiras do Estado –, buscou ajuda especializada:
— Tudo teve que ser pensado do zero. Para dar conta do desafio, contamos com a assessoria pedagógica da Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH), que foi contratada para ajudar a pensar o currículo.
O processo de implementação começou em 2023 com as turmas de jardim A e B, e avança de forma gradual. Em 2026, o alunos do 3° ano do Fundamental serão incorporados às turmas bilíngues. Desde o início, as aulas já contavam com 50% da carga horária em inglês e 50% em português.
Preparo
Para concretizar a iniciativa, os professores que iniciaram na proposta da instituição – que opera em turno integral, das 7h20min às 16h – fizeram formação de 120 horas em teoria e prática bilíngue com a IENH.
— Todo o referencial é pensado ano a ano, e vai sendo reestruturado conforme as necessidades. O currículo é vivo e está em constante construção — garante Nathalia.
As aulas ocorrem de forma integrada, com as mesmas rotinas e conteúdos nos dois idiomas. Por exemplo: os professores ensinam os fonemas em português e em inglês, com a alfabetização acontecendo de maneira simultânea.
—A língua inglesa não existe isolada, ela perpassa todo o currículo. Eles aprendem matemática, geografia e outros temas contemporâneos através do inglês. Quando eles vão para o recreio, eles são organizados utilizando a língua inglesa, no refeitório os professores falam em inglês. A língua é usada como meio de comunicação — aponta a supervisora pedagógica.
Apoio da comunidade
O diretor da escola, Douglas Camargo, garante que as famílias compreendem a importância do projeto:
— Eles entendem muito bem, tanto que pedem temas de casa, a questão das normas, a parte da complementação do inglês. Os cuidadores nos procuram para saber como vão interagir com as crianças em casa, porque eles chegam com palavras novas.
O projeto mobiliza toda a comunidade escolar. As atividades que são pensadas para o bilíngue e que envolvem questões culturais de países de língua inglesa acabam tomando conta da escola, e envolvem até os alunos que não participam dessa modalidade.
Para Marilene Helena dos Santos, mãe do aluno Pedro Henrique, de 6 anos, a iniciativa faz toda a diferença.
— Ele estava em outra escola, ele não falava, é autista, e essa troca nos trouxe muita apreensão. No início foi bem difícil, mas a cada dia ele foi melhorando muito. Inclusive ele começou a ler pelo inglês — conta Marilene, e complementa: — Acredito que estar nesta escola e com esta proposta foi fundamental para o desenvolvimento dele — afirma a mãe.
Desafios
Segundo professores e direção, os desafios da instituição são muitos — e vão desde questões estruturais à falta de preparo do restante da equipe da escola. Para Paulo Júnior Melo da Luz, professor de inglês, a necessidade de construir o currículo é uma das principais dificuldades, mas as questões sociais não ficam de fora:
— Além de sermos professores, há histórias de vida que são muito diferentes e que a gente precisa acolher dentro da escola. Casos de inclusão, de indisciplina, que são comuns de qualquer instituição, mas que dentro desse contexto, às vezes, se intensificam justamente por eles passarem o dia inteiro na escola.
Uma das principais preocupações para a progressão da iniciativa é a dificuldade em encontrar professores que estejam habilitados a trabalhar com crianças de quatro, cinco anos, o que exige uma série de habilidades para além do domínio do componente.
Benefícios
Carina Santos, professora de língua inglesa e mestranda em psicolinguística na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) destaca os benefícios da alfabetização bilíngue para o desenvolvimento cognitivo das crianças:
- capacidade de organizar e gerenciar informações
- melhor controle inibitório
- melhor gerenciamento da concentração e atenção
- bom desempenho na resolução de diferentes problemas
- maior estímulo do pensamento crítico
- maior flexibilidade cognitiva, além de benefícios mentais a longo prazo
— Há também vantagens culturais quando se fala em alfabetização bilíngue, capazes de levar o indivíduo a um maior repertório e consciência cultural, além de poder levar o indivíduo a vivenciar diversos benefícios socioemocionais, como um maior grau de empatia e capacidade de compreender o outro — aponta.




