
O ano de 2025 foi diferente na Educação Básica – com limitação do uso de aparelhos celulares nas escolas, os alunos foram incentivados a se engajarem mais em atividades fora das telas, como a leitura. Conforme professores ouvidos pela reportagem a lei contribuiu para fortalecer o hábito.
— Contribuiu muito para a motivação deles e adesão a novos interesses, como jogos de tabuleiro, cartas, rodas de interação e outras experiências em grupo. Foi algo que ressignificou as relações, mesmo demandando dos educadores um olhar mais atento às relações e conflitos — afirma a coordenadora do Ensino Fundamental I do Colégio Anchieta, Tatiane Waldow.
Mas, com o fim do ano letivo, recorrer às telas pode ser uma saída fácil para os estudantes, com mais tempo livre para acessar as redes sociais e jogar games. Por isso, especialistas destacam a importância de ver a leitura como forma de lazer, e não apenas como obrigação.
— Precisamos da leitura de fruição. A aproximação da leitura desse lugar do prazer nas férias passa pelo gosto. A família precisa identificar quais os gostos dos filhos e, sempre que possível, ler junto. Isso cria a possibilidade de conversar sobre, cria um ponto de conexão — argumenta Denise Guilherme, do Instituto Vera Cruz e diretora pedagógica da Árvore, plataforma gamificada de aprendizagem e incentivo à leitura.
Segundo Denise, a geração de leitores mudou, e o jeito de formar leitores também precisa ser modificado. Diferentemente do celular, que entrega tudo “mastigado”, a leitura exige esforço, concentração e interpretação. E o jovem precisa se sentir recompensado por aquele esforço.
Uma boa maneira de garantir essa recompensa é estimular que as crianças e adolescentes desfrutem da leitura. E os pais e responsáveis podem contribuir nesse processo.
— Eles estão consumindo informação tempo todo. Eles consomem vídeos de booktokers nas redes sociais, por exemplo. É importante conhecer e respeitar os interesses deles, principalmente dos adolescentes, e estimular que leiam. Seja um livro que baseou uma série de TV que eles gostam, ou mangá. A formação do leitor também passa por isso, não é só ler clássicos — explica.
O papel da escola
Conforme Denise, o papel das escolas também é importante. As instituições precisam garantir um acervo de qualidade nas bibliotecas, pensando em diferentes níveis de complexidade e estratégias. No Colégio Anchieta, em Porto Alegre, que conta com três bibliotecas (uma para cada etapa de ensino), ao longo do ano, são conduzidos projetos para construir e fortalecer o hábito da leitura.
— Refletimos muito sobre como nós, enquanto educadores, oportunizamos espaços de leitura. Então, promovemos saraus literários e projetos de feira literária, em que os autores vêm até a escola e conversam com os estudantes sobre suas trajetórias, por exemplo — conta Tatiane, que é coordenadora da biblioteca infanto-juvenil da escola.
Segundo a professora, foram contabilizados 30,6 mil empréstimos nas bibliotecas do Anchieta ao longo do ano. Ela conta que o engajamento dos estudantes com os livros é constante, inclusive no período de férias. Para Joaquim Mielniczuk, 18 anos, do 3º ano do Ensino Médio no Colégio João XXIII, também na Capital, o recesso escolar costuma ser um bom período para aprofundar as leituras.
— Eu costumo ler bastante, principalmente nas férias, ainda mais do que no ano letivo. Porque não tenho que estudar, não tenho outros afazeres, tenho mais tempo livre, e é um prazer para mim — relata o estudante, que pretende fazer Direito e gosta de ler romances.
Também é o caso de Marina Giongo, 16 anos, aluna do 1º ano do Ensino Médio na mesma instituição. Ela costuma ler mangás, livros de fantasia, comédias e romances. Ela diz que o gosto pela leitura surgiu em casa, por incentivo da família, mas o apoio da escola foi fundamental para construir o hábito:
— Na escola a gente tem os horários de leitura. Esse é um dos momentos em que a gente acaba expandindo as nossas opções de literatura. E também dá esse apoio. Eu tenho muito acesso a leituras em casa, mas vários colegas não têm tanto isso. Então, a escola disponibilizar o espaço da biblioteca e tempo de aula para investir na leitura é muito interessante, realmente me ajudou e ajuda outros colegas — relata.
Conforme a professora de Língua Portuguesa Raquel Leão Luz, do João XXIII, no colégio, ler faz parte da rotina semanal dos estudantes, com momentos de leitura previstos dentro do currículo. A ideia é justamente dar espaço para a criação desse hábito.
— Pelo menos uma vez na semana eles vêm na biblioteca, onde têm esse período de leitura de 50 minutos em silêncio. Eles fazem esse exercício de fazer suas escolhas, descobrir seus gostos individualmente, mas num espaço que é coletivo — afirma.
Periodicamente, os alunos também preenchem um diário de leitura fornecido pela escola, relatando sobre a evolução dos gostos literários e contando suas impressões. Esse processo é desenvolvido ao longo da formação. Além disso, vários projetos são conduzidos ao longo do ano, usando a literatura como instrumento para abordar temáticas relevantes, como diversidade e sustentabilidade.
— A gente busca construir em todas as dimensões possíveis o contato com os livros, e a leitura não só como um incentivo, mas como uma experiência, uma prática de letramento. Essa prática passa pelos momentos de contação de histórias, por essa garantia de um período semanal pra leitura silenciosa, em geral, ou uma roda de conversa sobre os livros que eles estão lendo — explica.
Reforço nas férias
Para que os estudantes não deixem de lado a leitura, todo ano, pouco antes das férias, a escola também promove uma campanha para aumentar o volume de empréstimos na biblioteca.
— Por exemplo, a gente costuma passar nas salas de aula vestido de algum personagem de algum livro, falando que o final do ano está chegando, que está na hora de devolver os livros lidos para poder pegar novos. A gente também faz pacotes surpresas de leitura de férias, em que eles pegam um livro surpresa e só descobrem quando chegam em casa — conta o bibliotecário Miguel Henrique Cury, do Colégio João XXIII.
Neste ano, o tema da ação é “Uma página, um abraço: leia com quem você ama”. A proposta é que cada estudante retire dois exemplares do mesmo livro, para ler nas férias junto de algum familiar ou amigo, incentivando momentos de conexão.


