
A reforma no currículo do Ensino Médio brasileiro teve como um dos focos reforçar a conexão entre a escola e um projeto de vida e carreira para os estudantes. No mundo do trabalho, o surgimento de novas carreiras, profissões, cursos e formas de consumo trouxeram o desafio de levar essas discussões para a sala de aula, muitas vezes em parceria com empresas e empresários.
Para além das feiras de profissões, comuns há anos nas escolas, um recurso muito utilizado atualmente é o desenvolvimento de produtos e aplicativos voltados à resolução de algum problema/questão ambiental ou social.
É com esse intuito que estudantes do 2º ano do Ensino Médio do Colégio Monteiro Lobato, em Porto Alegre, realizam pesquisas acadêmicas ao longo do ano. Aos poucos, os trabalhos se transformam em ideias de ações ou negócios de impacto social e/ou ambiental. Ao final, os quatro melhores projetos fazem pitches – apresentações concisas – para uma banca formada por membros de empresas do Instituto Caldeira, que pergunta e dá sugestões para qualificar as propostas.
A atividade acontece há três anos e é realizada dentro do itinerário formativo (a parte flexível do currículo do Ensino Médio) de Sustentabilidade e Economia.
Em 2025, dois dos projetos apresentados traziam ideias de aplicativos: o Ecobeauty, que auxilia o usuário a escolher produtos de marcas sustentáveis, contribui para uma rotina de cuidados com a pele e ainda orienta sobre o descarte dos cosméticos, e o Natura POA, que concentra informações sobre feiras de orgânicos de Porto Alegre e Região Metropolitana como o valor de cada produto.
Outras duas iniciativas envolviam produtos físicos. O Meu Primeiro Rabisco oferecia um caderno de pintar personalizado com desenhos feitos com o uso de inteligência artificial a partir de fotos da criança a ser presenteada. Já o Kamikatsu é uma máquina de venda reversa na qual usuários poderiam depositar materiais recicláveis e, com isso, receber um montante de dinheiro em troca.

Coordenadora do Ensino Médio do Monteiro Lobato, Kátia Macagnan considera que, hoje, é muito importante que as escolas se reinventem e transformem os espaços onde estão a fim de aproximar o estudante do mundo do trabalho.
— Muitos são os desafios. Os jovens, hoje, são muito inteligentes e muito ávidos por desafios, e a escola precisa trazer esse mundo que, por vezes, não está tão próximo daquele jovem. Se não trazemos para o estudante o desafio de pensar em soluções para os impactos que a sociedade vive, ele terá uma dimensão muito pequena sobre como sua futura profissão pode impactar — observa Kátia.
Investir na escuta ativa desses alunos a partir de uma equipe de psicólogos e propor projetos que engajem as turmas é a estratégia da instituição para que eles, aos poucos, criem ferramentas. A ideia é que os estudantes sejam apoiados na reflexão e em formas de colaborar com o seu entorno.
Gabriela Leal Moi, 17 anos, cursa o 2º ano no Monteiro Lobato e desenvolveu junto com outras colegas a ideia do Ecobeauty.
— A gente teve vários meses para começar a pensar qual seria o nosso projeto de pesquisa e, a partir disso, criar alguma coisa que fosse o mesmo tempo revolucionária e importante para a sociedade, nesse caráter mais econômico e sustentável. Acredito que tenha sido o projeto no Monteiro que mais realmente trouxe essa visão de mundo de trabalho — analisa Gabriela.
Para a adolescente, essa visão se tornou completa porque o trabalho teve várias etapas: pesquisas acadêmicas, de campo e mentoria no Caldeira, para escutar profissionais que atuavam em áreas relacionadas ao projeto.
— A gente teve a ajuda da empresa GetEdu, aqui do Caldeira, que nos ajudou a ter mais uma ideia da nossa persona para o trabalho, e, a partir disso, a gente teve eventos lá no Monteiro para apresentar o nosso projeto e aprimorar as nossas ideias. Tivemos professores e mentores que nos ajudaram a desenvolver o projeto para ele ficar do jeito que está hoje — descreve a estudante.
Para Gabriela, foi desafiador pensar em algo economicamente viável e, ao mesmo tempo, interessante para a população e para o próprio grupo.
Parcerias externas
A Escola Estadual de Ensino Médio Fernando Ferrari, em Campo Bom, tem estruturado ações para aproximar os estudantes do mundo do trabalho por meio de parcerias e da integração dessas atividades ao currículo do Ensino Médio. A escola utiliza componentes como pós-médio, projeto de vida e eletivas para inserir debates sobre carreiras, demandas profissionais e competências exigidas atualmente.
Segundo a diretora Maristela Brentano, o diálogo com o entorno é central para essa abordagem.
— A escola não consegue conversar sobre o mercado de trabalho, sobre as mudanças que estão acontecendo no mundo do mercado de trabalho, sozinha. A gente tem que ter um diálogo fora da escola — afirma a gestora.

A partir dessa estratégia, a escola firmou parceria com a Junior Achievement, que desenvolve projetos ligados a empreendedorismo, habilidades socioemocionais e experiências práticas.
Entre as iniciativas, estão a TechSchool Social, realizada com apoio de empresas, e a criação de uma empresa estudantil. Os alunos também participam de visitas técnicas, mentorias com profissionais e o projeto “Empresário Sombra”, em que acompanham a rotina de trabalhadores em empresas do município. Essas ações são ajustadas ao currículo para garantir que tenham vínculo pedagógico.
— Nada a gente pode fazer dessas parcerias desconectado do currículo da escola — destaca a diretora.
O fortalecimento da relação com empresas locais tem ampliado a presença dessas organizações dentro da escola e gerado novas oportunidades para os estudantes. A diretora relata que esse movimento contribuiu para mudanças no perfil das turmas, com aumento da procura por matrículas. Ela também observa que ouvir profissionais sobre trajetórias e competências tem ajudado a reduzir a evasão.
— Quando o mercado de trabalho vem e conversa com eles, diz quais são as expectativas e que eles precisam estudar, adia a vontade de abandonarem no 2º ou 3º ano — observa Maristela.
As iniciativas integram a rotina do Ensino Médio em tempo integral desde a retomada das atividades presenciais após a pandemia. Para a escola, o contato frequente com profissionais e empresas reforça o currículo e amplia as referências dos estudantes antes da conclusão da etapa.
Mudança gradual
A ampliação do debate sobre mundo do trabalho nas escolas tem ganhado espaço com a implementação do Novo Ensino Médio e a obrigatoriedade da disciplina de projeto de vida. Para Jéssica Santos Machado, consultora de carreiras do PUCRS Carreiras e professora dessa disciplina em uma escola particular de Porto Alegre, esse movimento representa uma mudança gradual no modo como as escolas abordam escolhas profissionais e competências exigidas pelo mercado.
Segundo a profissional, embora ainda exista foco em profissões tradicionais, cresce a necessidade de incluir temas como currículo, uso profissional de redes como LinkedIn, segurança digital e novas ocupações relacionadas à tecnologia.
— Os alunos precisam estar preparados para um mercado que vai cobrar deles saberem ter segurança na internet e usar a tecnologia de forma consciente — alerta Jéssica.
A consultora destaca que a orientação escolar também tem buscado abordar competências socioemocionais, como pensamento crítico e liderança. Ela aponta três caminhos para os professores:
- Atualização com cursos e materiais técnicos
- Diálogo com os próprios estudantes sobre interesses e dúvidas
- Políticas públicas que ofereçam formação específica
Jéssica reforça que a educação para a carreira não precisa começar apenas no Ensino Médio. As primeiras aproximações podem ocorrer desde a Educação Infantil, de forma adequada à idade, com discussões básicas sobre o que é trabalho. Ainda assim, estima que “na prática, se inicia muito ali pelo 9º ano e no Ensino Médio”, quando os alunos estão mais amadurecidos para discutir escolhas.





