
— No início foi difícil, agora as coisas já estão um pouco melhores. Mas nós queremos e precisamos voltar para o nosso espaço. Eu espero que as obras iniciem o quanto antes, para que a gente possa retornar. Não está sendo fácil, nem para nós, nem para eles.
A fala é da diretora do Colégio Estadual Tereza Francescutti, em Canoas, Maola Vargas Raschcowetzki. A escola da Região Metropolitana foi uma das mais atingidas do Estado pela enchente de 2024, com água até o teto, ficando submersa por mais de um mês.
Com a estrutura comprometida, o prédio foi interditado e, desde agosto do ano passado, o colégio divide espaço com a Escola Estadual de Ensino Médio (EEEM) São Francisco de Assis. Assim como a Tereza Francescutti, outras cinco escolas da rede funcionam em locais provisórios e esperam por uma solução. No total, as seis instituições contam com 1,3 mil estudantes.
Os 686 estudantes do “Tereza”, apelido da escola, somaram-se aos 460 que já estudavam no local. As instituições funcionam no mesmo prédio, mas é tudo separado: são duas equipes, duas secretarias, duas cozinhas, intervalos e aulas em horários separados.
Tem sido difícil garantir a oferta das atividades obrigatórias, uma vez que a São Francisco é uma escola de turno integral a partir dos Anos Finais do Ensino Fundamental. Algumas salas foram cedidas à outra instituição, com isso, as aulas acontecem em espaços improvisados dentro da escola e há revezamento das turmas.
— Vamos trabalhando dentro das possibilidades. O laboratório de ciências, por exemplo, que foi atingido pela enchente, está sendo usado pelos professores da área de conhecimento, porque a sala já está limpa e nós temos um laboratório móvel. Mas o ideal é que tivéssemos esses dois espaços. Também precisamos de um espaço para aulas de artes — diz a diretora da EEEM São Francisco de Assis, Alessandra Luiz Lemes.
Boa parte das salas voltadas ao turno integral ficam no térreo, destinadas a atividades pedagógicas culturais e de educação digital. Agora, servem para atender às aulas regulares do Tereza.
— Os sonhos existem, mas existem dentro da possibilidade que se tem — lamenta Alessandra.
As duas diretoras têm realizado um trabalho hercúleo para segurar as pontas. A equipe do Tereza também luta para reconstruir a vida – dos professores e funcionários do colégio, 80% tiveram suas casas atingidas pela enchente, bem como todos os alunos. Mesmo assim, os estudantes estão se adaptando à nova escola.
— Quando a gente estava conseguindo se recuperar da questão da pandemia, veio essa situação da enchente. Ficou bem comprometida a questão da aprendizagem, e a gente percebe as questões emocionais. Os alunos estão muito abalados, os colegas. As aulas de reforço são uma ajuda muito importante para eles — destaca Maola.

Obras pendentes
Um projeto arquitetônico especial para o Colégio Tereza Francescutti foi elaborado em parceria com o Instituto Alana. A iniciativa integra o projeto Escolas Resilientes, conduzido pela Secretaria da Educação do Rio Grande do Sul (Seduc). O prédio antigo será demolido e uma nova escola será construída com três andares e quatro metros de altura, para proteger a estrutura de outros eventos climáticos.
O envio do projeto para licitação será em dezembro, após complementação de elementos técnicos pela Secretaria de Obras Públicas do RS (SOP), de acordo com a Seduc. Não há previsão para início da obra.
Já os 158 alunos matriculados na Escola Estadual de Ensino Fundamental Antônio de Conto, em Encantado, estão sendo atendidos em um prédio da Fundação Alto Taquari de Educação Rural e Cooperativismo (Faterco). O espaço é compartilhado com a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), que usa as instalações à noite. Conforme a diretora, Ilaci Pedersini, as incertezas e a distância da comunidade são os maiores desafios.
— A gente não sabe ao certo o que vai acontecer com a nossa escola. A prefeitura está aguardando que o Estado faça a construção da nossa escola. Nós gostaríamos de retornar para o nosso ninho certo, que é lá no bairro Jacarezinho. Sempre fomos uma escola da comunidade, que interage muito com a comunidade — conta Ilaci.
Está planejada a reconstrução da escola em um novo local, mas a definição depende de negociação com o município, que irá ceder o terreno. A situação é semelhante em Estrela, na Escola Estadual de Ensino Fundamental Moinhos, que tem 52 alunos. Os estudantes estão sendo atendidos na EEEM Vidal de Negreiros. Porém, o bairro em que a escola ficava localizada foi destruído pela enchente.
Será construída nova sede para a instituição em outro local, mas também depende de negociação com o município. O prédio original tinha passado por reforma, finalizada em março de 2024, com investimento de R$ 115,1 mil, segundo a SOP. A intervenção consistiu na substituição e reposição de áreas atingidas pela enchente de setembro de 2023.

Em Roca Sales, os 215 estudantes da Escola Estadual de Educação Básica Padre Fernando seguem sendo atendidos na Capela adjacente, sendo que não há previsão de início da obra para construção do novo prédio. Há reconstrução em andamento em Triunfo, na Escola Estadual de Ensino Fundamental Nestor Vianna de Campos. Com 85 alunos, a instituição funciona, atualmente, no CTG 20 de Setembro, no distrito de Passo Raso.
O prédio original está em obras desde agosto de 2025, com investimento de R$ 218,9 mil e previsão de conclusão para o primeiro semestre de 2026, conforme informações da SOP. As intervenções incluem manutenção nas divisórias, na cobertura e nas instalações elétricas e hidrossanitárias. Além disso, estão sendo realizados serviços de revestimento de pisos, paredes e forros, bem como pintura.
Também há uma obra em execução em Lajeado, na Escola Estadual de Ensino Fundamental Fernandes Vieira, que possui 136 estudantes matriculados. Atualmente, eles estão sendo atendidos na EEEF Moisés Cândido Veloso e na EEEF Irmã Branca. O prédio original está sendo reformado desde maio de 2025, com investimento de R$ 1,5 milhão e previsão de conclusão para o segundo semestre de 2026.
Os serviços incluem a retirada de revestimentos em uma das salas e na circulação do térreo, fechamento de um vão no auditório e substituição de vidros quebrados ou ausentes. Estão sendo realizadas troca de portas no segundo pavimento e nos banheiros, recuperação da cobertura da entrada do colégio, manutenção das instalações elétricas e substituição de pisos em diversas salas e áreas de circulação.
As melhorias contemplam ainda a recuperação de pisos, aplicação de novos rodapés, substituição de revestimentos cerâmicos nos banheiros, pintura, recuperação do muro e reconstrução da calçada da escola, segundo o governo estadual.

Sem prédio desde 2023
A situação é dramática na Escola Padre Fernando, de Roca Sales. Desde outubro de 2023, quando houve a primeira tragédia climática no Vale do Taquari, a escola está alojada no salão paroquial da Capela adjacente, onde são atendidos os mais de 200 alunos. Além de ser um espaço pequeno, o que dificulta as atividades, não há previsão de construção da nova sede.
— Não foi nada fácil retomar as aulas, porque a Duda havia perdido todo o seu material, que ela cuidava com muito amor e carinho. E também porque os alunos estavam acostumados com uma escola ampla, com salas espaçosas, refeitório, pátio para o recreio, quadra de jogos, vários banheiros. E no espaço adaptado para as aulas tudo mudou, salas pequenas com pouca ventilação, refeitório também com pouco espaço, dois banheiros químicos e um banheiro normal de uso coletivo — diz Solange Prade Leal, mãe da Eduarda, 18 anos, do 3º ano do Ensino Médio.
Ela também menciona o trauma psicológico dos alunos, que ainda tem reflexos, e diz que a filha lembra da escola antiga com muito carinho. A família perdeu a casa e aguarda por um novo prédio com melhores condições.
— Acredito que seria melhor se construíssem um prédio novo, em um local longe das enchentes, para que os alunos que ainda têm alguns anos de escola pela frente se sintam acolhidos e tenham melhores condições — afirma.
Esse também é o desejo da gestão da escola, conforme a diretora, Naídes Chiesa Freisleben.
— O plano diretor municipal está sendo elaborado, o documento vai ficar pronto em dezembro. A partir disso, nós teremos acesso ao que foi decidido e será definido o local da escola, tem todo um estudo técnico. Então, a gente fica na expectativa — afirma.
