
Mesmo com os constantes avanços da tecnologia, o ensino de cultura digital e de habilidades ligadas à computação na Educação Básica ainda é um desafio. A adoção da BNCC Computação – complemento à Base Nacional Comum Curricular que estabelece normas para o ensino da computação nas escolas – será um importante instrumento para a formação dos estudantes na área.
Resolução de 2025 do Conselho Nacional de Educação (CNE), órgão vinculado ao Ministério da Educação (MEC), estabeleceu novo prazo para inclusão da educação digital nos currículos: 2026. Desde 2023, a partir da Política Nacional de Educação Digital, as redes deveriam ter seus planos adaptados com competências ligadas à computação – seja de forma transversal ou em disciplina específica, em todas as etapas de ensino.
Com isso muitas instituições vêm adotando práticas alinhadas às novas regras, mas ainda há lacunas. Para a diretora-executiva do Centro de Inovação para a Educação Brasileira (Cieb), Julia Sant'Anna, a tecnologia tem um grande potencial de reduzir desigualdades de aprendizagem, e é fundamental que essas práticas sejam adotadas em todas as escolas.
— As redes privadas no Brasil já estão em um estágio avançado de implementação da computação, de mundo digital, de cultura digital e midiática. Se a gente não alcançar esse processo nas redes públicas, a gente acaba só aumentando a distância entre estudantes das redes públicas e privadas no país — destaca.
No Colégio Anchieta, de Porto Alegre, existe um currículo consolidado nessa área, contemplando questões como inteligência artificial (IA), robótica, jogos digitais e programação.
— Na Educação Infantil, por exemplo, já iniciamos com a linguagem digital, e nos anos iniciais do Ensino Fundamental acrescentamos a questão do pensamento lógico. E isso ocorre em todas as etapas de ensino, até o Ensino Médio, tanto com componentes específicos quanto com eletivos — afirma a orientadora pedagógica na área de tecnologia educacional da escola, Caroline Fonseca.
Soluções em sala de aula
Outro exemplo de boas práticas na área é a Escola Municipal de Ensino Fundamental Jean Piaget, no bairro Rubem Berta, na Capital. A instituição tem uma sala de inovação tecnológica, onde os estudantes participam a cada 15 dias de atividades de contraturno voltadas à educação digital.
O espaço conta com impressora 3D, computadores, chromebooks e kits de robótica, entre outros materiais. A iniciativa vem contribuindo para aproximar os alunos da tecnologia.
— Ano passado mexi pela primeira vez, eu nunca tinha mexido em computador. Não tenho computador em casa, só celular. Mas eu ficava bem curiosa — conta Lavinnia dos Reis de Lima, 11 anos, aluna do 6º ano.
Agora, ela atua como monitora de uma turma de 1º ano do Ensino Fundamental, auxiliando os pequenos no uso de chromebooks e jogos digitais. A aluna apresentou trabalho na MostraPOA 2025 sobre a monitoria, abordando os quatro pilares do pensamento computacional: decomposição, algoritmos, abstração e reconhecimento de padrões.
A educadora por trás da sala de inovação é Fabiana de Oliveira Gomes, professora articuladora de inovação tecnológica da Jean Piaget. Ela criou o projeto “Letcomp”, que promove o letramento em pensamento computacional, e coordena outro focado em educação midiática.
— O papel da escola é fazer essa mediação do conteúdo que é consumido, porque alguém tem que fazer esse papel. E ter esse espaço em que a gente pode dialogar com os alunos sobre um uso consciente da internet, o uso do próprio celular, é muito importante para a gente construir uma cidadania digital — argumenta a professora.
Nas atividades, ela aborda temas como segurança digital de forma lúdica, com metodologias de gamificação, usando plataformas como Escola Games e Arietoy, em que os alunos aprendem jogando. Com ferramentas como o Scratch, os próprios estudantes desenvolvem jogos digitais por meio de programação em blocos. Já os alunos mais velhos utilizam IA para pesquisar e construir textos, por exemplo.
Desafios na implementação
Conforme Julia Sant'Anna, do Cieb, é importante que as redes públicas tenham os novos currículos aprovados pelos respectivos conselhos até o final de 2025. Segundo a especialista, além de elaborar currículos alinhados às novas diretrizes, é preciso investir em formação de professores.
— Computação é uma área nova para a maioria dos docentes, e as formações tradicionais de Ciências e Matemática não preparam para isso. É necessário ensinar computação aos professores e, ao mesmo tempo, ensiná-los a ensinar computação — ressalta o professor da Universidade de Columbia e diretor do Transformative Learning Technologies Lab (TLTL), Paulo Blikstein.
Garantir a infraestrutura mínima necessária, como computadores, internet e energia é essencial. Conforme o Anuário Brasileiro da Educação Básica 2025, elaborado pelo Todos Pela Educação, apenas 44% das escolas públicas brasileiras estão conectadas com parâmetros adequados para uso pedagógico em sala de aula. Por outro lado, 4,6% não têm conexão ou energia elétrica adequada.
— Temos que ter as crianças criando programas de computador, fazendo projetos de robótica, desenhando chatbots, desenvolvendo seus próprios algoritmos. A computação deve ser crítica e produtiva ao mesmo tempo — destaca Blikstein.
- Na Educação Infantil, as crianças devem aprender a identificar e manusear dispositivos eletrônicos
- Nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental, a BNCC prevê que os alunos compreendam o pensamento computacional
- Nos anos finais, a educação digital e midiática deverá ser integrada ao projeto de vida dos estudantes
- Já no Ensino Médio, os estudantes devem aprender a construir soluções mais complexas, explorando o potencial da IA
A Codifica, que desenvolve programas educacionais sobre tecnologia, inovação e pensamento computacional, vem conduzindo treinamentos gratuitos sobre o tema em 27 escolas públicas gaúchas, em Esteio, Eldorado do Sul e Porto Alegre.
— Trabalhamos há seis anos em escolas privadas, ensinando computação para os professores, que replicam isso dentro dos currículos. Esse ano, em parceria com o Instituto Jama, passamos a oferecer para esses municípios um projeto piloto em que a gente trabalha principalmente com escolas municipais de turno integral, com uma formação sobre computação, refletindo sobre os três eixos da BNCC Computação — explica a coordenadora do projeto, Katia Vielitz.
Cenário na educação gaúcha
Na rede estadual do Rio Grande do Sul, a Secretaria da Educação informou que está sendo elaborado um documento anexo ao referencial curricular contemplando a computação. O material será encaminhado para aprovação do Conselho Estadual de Educação ainda neste mês.
A proposta é que o tema seja tratado de forma transversal nas aulas, em diferentes áreas, e não como disciplina obrigatória. A resolução 382/2024, do Conselho Estadual de Educação do RS, já trazia a recomendação de incorporar a computação na educação gaúcha.
Na rede municipal de Porto Alegre, já foi encaminhado para consulta pública um novo currículo escolar do Ensino Fundamental. A consulta segue até o final de outubro, e o documento deve ser analisado pelo Conselho Municipal de Educação ainda este ano.
O documento incorpora, entre outros temas, a computação como conteúdo transversal a ser adotado nas escolas da rede municipal. A previsão é que o novo currículo entre em vigor em 2026, conforme a Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre (Smed).




