
Com a ascensão do conceito de cidadania global, que reconhece que somos cidadãos do mundo, a educação vem passando por transformações. Escolas têm investido em projetos de internacionalização, buscando formar sujeitos preparados para uma vida interconectada, entendendo que nossas ações locais têm impactos globais.
Na Educação Básica, isso se reflete em iniciativas como programas de intercâmbio, dupla diplomação e parcerias com instituições de ensino estrangeiras, entre outras iniciativas.
— Queremos que os estudantes compreendam o mundo como resultado de uma interação de culturas, e que consigam entender como essa interação pode gerar novas expressões culturais. Isso só pode acontecer a partir do diálogo e respeito mútuo — explica a professora Natalia Nuevo, coordenadora dos programas de internacionalização do Colégio Anchieta, de Porto Alegre.
Na instituição, a internacionalização é desdobrada em três frentes – currículo, intercâmbio e atividades práticas, como simulações das Nações Unidas. Conforme a coordenadora, o intercâmbio na escola traz uma série de benefícios para alavancar o desenvolvimento integral dos alunos.
Durante um mês, o estudante do Anchieta estuda em uma instituição em outro país, morando na casa de uma família que participa do programa. Depois, no Brasil, o aluno recebe um estudante estrangeiro em sua casa. Além de desenvolver a língua espanhola, o projeto promove trocas culturais, com imersão em ouro país.
Há parcerias com colégios no México, Chile, Colômbia, Bolívia e Espanha, por meio da Rede Global de Educação da Companhia de Jesus. O currículo conta ainda com as disciplinas de Interculturalidade (ministrada em espanhol) e Cidadania Global (em inglês), ambas obrigatórias no colégio.
Intercâmbio e parcerias
Para além das transformações no currículo, as escolas vêm investindo em parcerias globais com instituições de ensino e entidades no mundo todo, permitindo programas de mobilidade acadêmica. As irmãs gêmeas Helena e Clara Gonçalves Meirelles Fernandes, de 17 anos, estão no 3º ano do Ensino Médio no Colégio Anchieta e fizeram intercâmbio na Espanha em 2024.
— O intercâmbio nos abriu portas para estudar fora, para descobrir que existem outros caminhos para seguir. E te dá uma noção enorme de independência, principalmente por viver numa cidade pequena, a gente conseguia resolver as coisas sozinhas — conta Clara.
Entre setembro e dezembro de 2024, as irmãs viveram em um internato em Villafranca de los Barros, na província de Badajoz, estudando em uma escola internacional. Além de disciplinas básicas, cada uma escolheu uma trilha – Helena estudou Linguagens e Ciências Humanas, e Clara ficou focada em Ciências da Natureza.
— Onde a gente morava tinha mexicanos, irlandeses, pessoas da própria Espanha. Tinha gente do mundo todo. Já tínhamos feito viagens, mas nunca para a Espanha. Foi uma experiência muito boa — diz Helena.
No Colégio La Salle Canoas, o programa de intercâmbio permite que os alunos passem um mês em Londres, hospedados em uma universidade. Na escola também há aulas preparatórias e certificação internacional nos exames Cambridge English (de língua inglesa).
Outras instituições apoiam estudantes que desejem seguir os estudos de Ensino Superior em outro país. No Marista Ipanema, na Capital, há o serviço de College Counseling. O assessor de internacionalização da escola, Guilherme Guerra Meira, fica à disposição dos alunos da escola que desejam estudar fora do país para sanar dúvidas, dar dicas e orientações.
Abrindo portas para fazer faculdade no Exterior
Com 18 anos, o estudante Amir Baja, do 3º ano do Ensino Médio no La Salle Canoas, foi aprovado em sete universidades estrangeiras, sendo quatro nos Estados Unidos (EUA) com bolsa de estudos. A conquista é resultado de sua dedicação com apoio do programa de dupla diplomação.
— Isso me passou uma segurança e uma confiança que eu não imaginava ter tão cedo. Eu fiquei bem feliz, minha família ficou muito feliz. Eu quero fazer Economia, e comecei a fazer o programa de dupla diplomação porque sinto que a língua inglesa é requisito mínimo para grande parte das carreiras — diz o aluno.
Além de fortalecer o idioma, o projeto contribui para abrir portas para estudar no Exterior. Segundo a gerente de educação da rede La Salle Brasil, Elisa Medeiros, a iniciativa promove trocas culturais importantes ao longo da trajetória escolar:
— A internacionalização é importante para uma sociedade globalizada. As relações políticas, econômicas e culturais mantidas nos países impactam diretamente na educação. E o aluno precisa entender que isso tudo extrapola as barreiras nacionais. Cada vez mais, temos que preparar esse estudante para o mundo — explica.
História dos EUA, governo e economia norte-americana, literatura inglesa e criminologia estão entre os componentes curriculares do curso ofertado no La Salle, por meio de parceria com a instituição Academica International Studies (AIS), dos EUA.
— Tem sido muito interessante, adorei conhecer mais sobre assuntos como literatura britânica. Ainda não sei exatamente o que quero cursar na faculdade, mas tenho certeza de que vou aplicar para universidades no Exterior. E me deixa tranquila saber que vou ter esse diferencial no currículo — conta a aluna Elisa König Barbosa, do 2º ano do Ensino Médio no Colégio La Salle Canoas.
A jovem de 16 anos pretende cursar algo ligado à tecnologia. Embora tenha ficado receosa no início, por ter que fazer duas grades curriculares simultaneamente, Elisa conta que tem sido tranquilo conciliar os estudos, e que os conteúdos se complementam.
Como funciona a dupla diplomação
A iniciativa permite que o aluno obtenha um diploma que inclui os currículos brasileiro e estrangeiro. Ao longo do percurso, parte da grade curricular é feita no Brasil, e outra parte é feita no país estrangeiro, paralelamente, na modalidade remota.
Ao fim do curso, eles recebem um certificado de conclusão. No caso dos EUA, o diploma é de high school. Há opções de itinerários de quatro anos (começando no 9º ano do Ensino Fundamental), de três anos (com início no 1º ano do Ensino Médio) ou dois (a partir do 2º ano do Ensino Médio).
— Eles cursam apenas o que falta para complementar, coisas que não temos na grade brasileira. As aulas são todas ministradas online, ao vivo ou de forma assíncrona, em inglês, com professores estrangeiros. Também tem live sessions, em que são convidados especialistas para darem palestras — explica André dos Santos, coordenador de dupla diplomação no La Salle Canoas.
As aulas são acessadas por meio de uma plataforma digital da instituição de ensino. Nela, além dos encontros virtuais, os estudantes podem acessar conteúdos e materiais de apoio, orientações, bem como trocar e-mails e mensagens com os docentes.
— Para ingressar no programa, eles precisam passar por um teste de proficiência em inglês. A partir disso, eles começam a ter aulas no turno inverso — explica Guilherme Meira, do Marista Ipanema, que conta com o programa no mesmo modelo, pela AIS.
Klauss Steffen de Castro, 18 anos, é um dos estudantes do Marista Ipanema que participam da iniciativa. Ele está no 3º ano do Ensino Médio e já teve bons resultados – foi aprovado em sete instituições norte-americanas:
— Uma coisa bem legal é que eu não tenho só aulas com os professores de lá. Eu também tenho aula com estudantes de diferentes lugares do mundo. Tenho colegas que são do Chile, da Argentina, e isso é bem legal. Você consegue interagir com essas pessoas, com professores dos EUA, e dá para formar uma amizade à distância.
Desde pequeno, Klauss sonha em morar no Canadá. Ele pretende construir sua carreira na área de Criminal Justice (investigação policial) e, futuramente ingressar na polícia canadense. Por isso, além das universidades nos EUA, ele pretende se inscrever para instituições no Canadá.
Ao longo do curso, os estudantes são desafiados a preparar essays (ensaios), dissertar sobre assuntos relacionados à legislação norte-americana, fazer provas, exercícios e questionários.




