
A Inteligência Artificial (IA) está transformando não apenas a forma de trabalhar e produzir, mas também de se relacionar, tomar decisões e aprender. Com o avanço da tecnologia, o aprendizado vai além de dominar programas e ferramentas. É preciso entender as implicações humanas, sociais e éticas do uso da IA. Para acompanhar essas mudanças, universidades têm provocado discussões sobre o tema e vêm criando formas de ensinar e de aprender sobre esses avanços e suas implicações.
Esse movimento se reflete no aumento da produção científica sobre o tema. De acordo com a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o Brasil está entre as 20 nações que mais desenvolvem pesquisas em inteligência artificial. Entre 2019 e 2023, mais de 6 mil estudos foram realizados no país, sendo 4,6 mil com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Um desses estudos desenvolvidos em parceria com o CNPq aprofunda a discussão sobre os impactos éticos da inteligência artificial no âmbito jurídico. A proposta é desenvolver modelos de regulamentação para o uso da IA. Esses modelos são testados em ambientes chamados Living Labs Regulatórios — espaços controlados onde soluções e tecnologia são colocadas em prática, simuladas e avaliadas antes de virarem leis ou políticas públicas.
Segundo Wilson Engelmann, coordenador-executivo do Mestrado Profissional em Direito da Empresa e dos Negócios da Unisinos, a iniciativa ajuda a dar mais segurança jurídica diante do avanço da IA e aproxima estudantes e profissionais das mudanças tecnológicas que estão transformando a profissão.
— Não podemos esperar por uma nova legislação cada vez que surge uma novidade na inteligência artificial. Modelos de autorregulação, onde empresas e o poder público possam testar possibilidades para se adaptar a essas mudanças sem intervenções, podem ser uma grande inovação na junção das áreas — conta o professor.
Outro projeto no Ensino Superior que olha para os impactos da inteligência artificial nasceu no curso de Psicologia da Unisinos. Liderado pelo grupo de pesquisa Intervenções Cognitivo-Comportamentais: estudo e pesquisa (ICCep), o trabalho busca identificar os prejuízos emocionais e comportamentais gerados em relações com dependência de algo ou alguém. Segundo a psicóloga e coordenadora do grupo, Ilana Andretta, um dos papéis da educação é pensar nos vínculos criados com as tecnologias.
— Elas precisam ser entendidas como ferramentas, estruturas que vêm nos auxiliar em algumas funções. A preocupação, do ponto de vista psicológico, é a forma da relação. Porque quando a gente estabelece uma relação complexa ou de dependência passa a ter prejuízos emocionais, ambos vinculados às nossas escolhas e às renúncias — explica a professora.
Preparando o futuro
Ultrapassando o campo do debate, as universidades também têm adaptado seus métodos de ensino visando preparar os estudantes para lidar com a inteligência artificial de forma ética, crítica e estratégica. Segundo o professor Wilson Engelmann, os novos tempos exigem que os alunos sejam preparados para interagir com a IA a partir de perguntas cada vez mais precisas.
— Até aqui, queríamos saber qual era a resposta. Agora, vamos ter que mostrar para o estudante que ela é importante, porque é preciso saber se a inteligência artificial está respondendo corretamente. Mas, antes disso, é preciso saber formular o problema — menciona.
Isso exige das instituições de ensino uma nova postura: preparar as pessoas não só para o uso das tecnologias, mas para avaliar seus impactos, antecipar riscos e compreender seus efeitos no contexto profissional e social.
Segundo Ilana, é necessário mediar tecnologias e pensar na inteligência artificial como um instrumento que precisa ser regulamentado de maneira ética e testado para compreender seus efeitos a longo prazo, não só nas questões do mercado, mas também nas pessoas.
— Não precisamos perder o que há de mais importante em relação à inteligência humana, a capacidade de tomada de decisão, de resolução de problemas, de pensamento crítico e científico. A grande preocupação com as IAs é que elas vêm suprindo essas carências — afirma.
Os docentes acreditam que a formação exerce um papel fundamental ao acompanhar os avanços da inteligência artificial e contribuir para o desenvolvimento do mercado de trabalho. Dessa forma, é importante abordar em sala de aula temas que estimulem o pensamento crítico e debatam ciência, educação cívica, ética e justiça socioambiental na era da IA, promovendo tanto as competências técnicas quanto as habilidades sociais dos futuros profissionais.







