
O ano de 2026 chega com força para quem busca a estabilidade no serviço público. No topo da lista de prioridades dos candidatos, destacam-se seleções como a da Câmara dos Deputados, com salários que podem chegar a R$ 29,4 mil, e a do Tribunal de Contas da União (TCU), com cem vagas previstas para auditor federal.
No Rio Grande do Sul, o Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-4) já tem concurso autorizado para técnicos e analistas, enquanto a Polícia Penal RS e o Instituto de Previdência do Estado (IPE Prev) avançam com comissões formadas para a definição das seleções.
O cenário reforça a tendência de um ano de oportunidades para os concurseiros. Com a disputa cada vez mais acirrada, a Inteligência Artificial (IA) deixou de ser uma promessa para se tornar ferramenta na rotina de quem estuda. Mas será que ela pode acelerar a aprovação? O limite entre a otimização e o entendimento superficial é o ponto central da dúvida.
Para a professora Rosa Maria Viccari, do Instituto de Informática da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), IA é capaz de criar uma “fotografia” do nível de conhecimento do aluno, ajudando a potencializar o que ele já sabe e a apoiá-lo nas dificuldades
— Essa é a tecnologia que possibilita feedbacks personalizados. Ela pode sugerir conteúdos, ofertar atividades e testar o desempenho com base em provas anteriores. Isso pode direcionar o estudo, mas o modelo inicial nem sempre se ajusta sozinho — explica.
Como as ferramentas operam e onde falham
Na prática dos cursos preparatórios, a ferramenta já é realidade. De acordo com o CEO e professor do Ceisc, Nidal Ahmad, a IA se revela poderosa para filtrar o que é essencial, considerando inclusive as particularidades de cada banca examinadora.
— Conseguimos mapear os conteúdos com bastante objetividade e assertividade. É absolutamente possível usar a IA para simular o padrão de escrita de bancas como FGV e Cebraspe, inclusive criando enunciados e padrões de resposta — pontua Ahmad.
Ele ressalta que, ao utilizar comandos – os chamados prompts – bem definidos, o candidato ganha um diferencial competitivo no planejamento, gerando cronogramas, mapas mentais e flashcards (cartões de memorização). Mas é justamente no padrão de resposta que mora o perigo.
O professor relata que já presenciou a ferramenta "alienar" — termo usado para quando a tecnologia inventa informações:
— O cuidado é não confiar cegamente. A IA pode inventar detalhes ou errar tecnicamente na tipificação de um enunciado, o que exige revisão rigorosa do professor ou do aluno — adverte.
A professora Rosa Maria acrescenta que a IA generativa trabalha com raciocínio probabilístico e fontes que podem ser limitadas:
— Um dos maiores perigos é parecer sempre confiável, mesmo trabalhando com dados incompletos. Ela tende a produzir melhores resultados em conteúdos sobre os quais existe muita informação e que não sofrem mudanças contínuas — detalha.
A ilusão do aprendizado
Além do risco técnico, há o pedagógico. O professor Eliseo Berni Reategui, da Faculdade de Educação da UFRGS, explica que a aprendizagem não está nas respostas da IA, mas no que o estudante faz com elas.
— Anotar, questionar e relacionar ideias são ações que levam o aluno a refletir e construir suas próprias conclusões. Resumos podem ajudar a lembrar informações no curto prazo, mas grandes provas e concursos exigem preparação de longo prazo, baseada na conexão entre novos conteúdos e conhecimentos já consolidados — defende.
A leitura sucessiva de resumos, segundo ele, pode gerar uma falsa sensação de aprendizado.
Sobre a personalização do estudo com IA, Reategui afirma que é possível alcançar alguns níveis, como a adaptação da complexidade dos textos e da forma de apresentação. Mas, para tarefas mais complexas – como identificar dificuldades, acompanhar o progresso e ajustar percursos de aprendizagem – o uso isolado de ferramentas como o ChatGPT, por exemplo, não é suficiente.
— Ter um tutor disponível a qualquer momento é muito positivo, mas esses sistemas podem levar o estudante a confiar em conteúdos que nem sempre são corretos. Por isso, é fundamental conferir em fontes originais, como livros, leis e jurisprudência — completa.
Tecnologia como suporte, não substituta
O entendimento dos especialistas é unânime: a tecnologia auxilia, mas não substitui o esforço individual e o papel do professor, que garante a estratégia do conhecimento. Ahmad enfatiza que o "maior pecado" do candidato é achar que a tecnologia fará o trabalho pesado sozinha:
— O professor continua sendo insubstituível porque mostra ao aluno como aplicar o conhecimento de forma estratégica. A inteligência artificial é uma ferramenta poderosa, mas não estuda pelo aluno — resume o CEO.
Para quem deseja usar a tecnologia de forma produtiva, Reategui sugere encarar a IA como uma ferramenta ativa de estudo, capaz de apoiar diferentes tipos de atividades.
— A tendência é que a IA esteja cada vez mais presente na vida de quem estuda, porque agiliza o acesso à informação e permite novas estratégias de aprendizagem. O estudante pode usá-la para gerar perguntas, simular exercícios ou testar respostas, desde que entenda seus limites e não substitua o próprio processo de reflexão — conclui.
*com supervisão de Juliana Lisboa


