Quando a estudante Evilyn Alves Aguirre, 17 anos, ingressou no Ensino Médio em tempo integral da Escola Estadual Cruz de Malta, em Charqueadas, a adaptação não foi simples.
— Foi bem difícil. Eu tinha bastante sono — lembra a jovem.
Hoje na 3ª série, a rotina é outra. Além das disciplinas tradicionais, a jovem integra uma das primeiras turmas da rede estadual a receber formação profissional dentro do novo modelo de expansão da educação técnica implantado pelo governo do Estado.
— Agora a gente nem dá bola mais para o integral. É mais a nossa casa aqui mesmo — resume a garota.

A experiência da escola da Região Carbonífera ajuda a ilustrar um movimento que ocorre em centenas de instituições gaúchas desde o início deste ano. Com a ampliação da Educação Profissional e Tecnológica (EPT) para escolas de Ensino Médio em tempo integral, a Secretaria Estadual da Educação (Seduc) pretende aproximar a formação dos estudantes das demandas do mercado de trabalho.
Ainda é cedo para medir resultados em indicadores como empregabilidade ou inserção profissional. Mas os meses iniciais já permitem observar alguns efeitos e obstáculos que o Estado precisará superar para consolidá-la.
Os relatos que chegam das escolas apontam aumento do interesse dos estudantes, maior conexão entre currículo e perspectivas profissionais e um novo sentido para a permanência em turno integral. Ao mesmo tempo, a expansão esbarra em desafios conhecidos da educação profissional: infraestrutura especializada, disponibilidade de professores e parcerias com o setor produtivo.
Expansão da oferta
A ampliação da EPT é uma das apostas da Seduc para os próximos anos. Até 2025, a oferta de cursos técnicos estava concentrada em uma pequena parcela da rede, como na Cruz de Malta, que conta com o técnico em Administração desde 2024. Neste ano, o modelo foi incorporado a 409 das 438 escolas de Ensino Médio em tempo integral.
Segundo o superintendente de Educação Profissional da Seduc, Tomás Collier, o processo foi planejado em etapas para evitar problemas operacionais durante a implantação.
As turmas de 2ª série, que já ingressaram diretamente na formação técnica, receberam cursos de média complexidade, como Administração, Marketing e Logística. Já as de 1ª série trabalham conteúdos introdutórios relacionados ao mundo do trabalho, habilidades socioemocionais e possibilidades de carreira.
— Na 1ª série, eles trabalham de forma um pouco mais geral conceitos e temáticas relacionados ao mundo do trabalho para desenvolver interesse também pelo itinerário técnico a partir da 2ª série — explica Collier.
Como funciona
Na prática, as formações oferecidas na 1ª série são mais preparatórias ao mundo do trabalho, enquanto os da 2ª série oferecem disciplinas específicas:
1ª série
- Introdução ao mundo do trabalho
- Projeto de carreira
- Competências socioemocionais
- Conhecimento sobre a área técnica escolhida
- Ainda sem a maior parte dos componentes técnicos específicos
2ª série
- Início da formação técnica
- Disciplinas profissionalizantes
- Conteúdos específicos da área
- Maior necessidade de laboratórios e professores especializados
O diploma técnico é obtido apenas ao final da trajetória de formação – que conta com três anos. Os conhecimentos específicos do curso são aprofundados no último ano de formação.
A estratégia permitiu que o Estado ganhasse tempo para preparar a estrutura necessária para os cursos mais complexos, que começarão a avançar nos próximos anos. A lista completa das escolas que oferecem cursos profissionalizantes pode ser conferida neste link.

O que mudou
Na escola de Charqueadas, os reflexos já aparecem na rotina dos estudantes. Aluna da 1ª série do Ensino Médio, Bianca Cassali da Silva, 15 anos, conta que uma das experiências mais marcantes foi aprender a observar processos seletivos sob a perspectiva de quem contrata:
— Nisso, a gente conseguiu aplicar a nós mesmos as qualidades que o outro vai querer que a gente tenha, e isso é muito importante — avalia.
Yasmim Silveira de Assis, 17 anos, está na 2ª série e cita atividades práticas realizadas em sala de aula para simular situações reais do ambiente empresarial. Em uma delas, os alunos tinham a missão de montar envelopes:
— Tínhamos que montar quatro envelopes em cinco minutos, entregando qualidade, prazo e atendendo as exigências do cliente. Através disso, aprendemos como as empresas exerciam o processo de fabricação dos produtos — conta.

Os professores do curso de Administração da escola relatam que esse tipo de atividade tem contribuído para aproximar os estudantes de temas que pareciam distantes da realidade escolar. Segundo a professora Gislaine Costa da Silva, parte dos adolescentes ainda não compreende plenamente a importância da formação técnica.
— É um trabalho de formiguinha. Ano a ano, mês a mês vamos trabalhando com eles qual a importância daquelas disciplinas tecnicamente, para a colocação profissional. Muitos deles já querem uma colocação no mercado profissional, então vamos sensibilizando sobre como aquilo é um diferencial para entrar no mundo do trabalho — pontua a docente.
O professor Rogério Pereira dos Santos relata um esforço semelhante.
— Fazemos esse trabalho homeopático de mostrar o quanto esse aprendizado vai ser enriquecedor para eles. Embora seja um técnico integrado ao Ensino Médio, os alunos de 2ª série já acabam tendo uma qualificação como assistentes de logística, por exemplo, e na 3ª série já aprendem as funções de um assistente administrativo. Portanto, saem na frente — resume Santos.
Segundo o docente, é necessário demonstrar continuamente aos estudantes que a formação técnica pode ampliar oportunidades de inserção profissional e diferenciá-los de quem conclui apenas o Ensino Médio regular.
Desafio do tempo integral
Um dos aspectos citados por gestores escolares é a relação entre a formação profissional e o ensino integral. Desde a ampliação do tempo integral, redes de todo o país enfrentam o desafio de convencer estudantes e famílias de que vale a pena permanecer mais tempo na escola.
Na avaliação da vice-diretora da Cruz de Malta, Rosani Rosa Moreira, a educação profissional ajuda a dar concretude a essa permanência. A percepção também aparece nos relatos enviados pelas coordenadorias regionais à Seduc.
— Existe muito interesse na oferta de educação profissional, principalmente pensando nessa ampliação da carga horária do Ensino Médio. Para o jovem, faz muito sentido que parte dessa carga horária ofereça uma formação profissional — afirma Collier.
A estudantes Evilyn conta que pretende cursar faculdade de Medicina, mas diz que o técnico em Administração lhe deu ferramentas que pretende levar para a vida profissional.
Gargalos
Se os primeiros meses mostraram potencial, também evidenciaram desafios. O principal deles é a disponibilidade de professores especializados.
A Seduc iniciou a implementação utilizando principalmente bancos de professores temporários já existentes na rede estadual. Neste ano, realizou chamamentos de novos – até o final de maio, eram mais 332 docentes dando componentes técnicos.
Ao definir os cursos para cada região, a pasta levou em consideração não apenas as necessidades econômicas locais, mas também a disponibilidade de profissionais para ministrar as aulas.
— Fizemos uma oferta que estivesse dentro da capacidade instalada da rede em termos de disponibilidade de professores e infraestrutura — afirma Collier.
O problema tende a se tornar mais complexo nos próximos anos. As atuais turmas de 1ª série passarão para a segunda etapa da formação técnica em 2027, aumentando a demanda por docentes especializados. Por isso, o Estado já discute alternativas para ampliar a oferta e reduzir riscos de descontinuidade causados pela rotatividade de profissionais.
É um trabalho de formiguinha. Ano a ano, mês a mês vamos trabalhando com eles qual a importância daquelas disciplinas tecnicamente, para a colocação profissional.
GISLAINE COSTA DA SILVA
Professora
Adaptações
Outro desafio envolve os espaços físicos. A implantação dos cursos foi organizada levando em consideração a infraestrutura disponível em cada escola. Por esse motivo, os cursos mais complexos foram deixados para uma etapa posterior.
Áreas como Automação Industrial, Eletroeletrônica, Química e Planejamento e Controle da Produção exigem laboratórios especializados, equipamentos de maior porte e adaptações estruturais que vão além da simples aquisição de materiais.
— Você tem equipamentos mais robustos e complexos que precisam não só de espaço, mas também de infraestrutura elétrica para recebê-los — explica Collier.
Conforme o superintendente, um grupo de trabalho reúne atualmente a Seduc e a Secretaria Estadual de Obras Públicas para planejar adequações relacionadas a energia elétrica, acessibilidade e outros requisitos necessários para a expansão.
Enquanto isso, a rede aposta em soluções intermediárias. Uma delas foi a compra de cerca de 5 mil computadores destinados especificamente ao Ensino Médio em tempo integral com formação técnica. Outra possibilidade estudada é utilizar laboratórios de instituições parceiras para atividades práticas.
Aproximação com empresas
Quando a expansão da educação profissional foi anunciada, um dos pilares apresentados pelo governo era a aproximação entre escolas e setor produtivo. Essa conexão continua sendo considerada estratégica, mas ainda está em fase de construção.
De acordo com Collier, a Seduc trabalha na definição dos formatos de parceria e na identificação das regiões e cursos em que elas serão mais necessárias. O objetivo é complementar a oferta pública sem abrir mão do controle de qualidade.
Por enquanto, a maior parte da expansão segue sendo sustentada pela própria estrutura da rede estadual.
A gente quer parceiros qualificados e alinhados com a qualidade da oferta que queremos ter para os alunos.
TOMÁS COLLIER
Superintendente de Educação Profissional da Seduc
Como os cursos são escolhidos
A escolha dos cursos não ocorreu de forma aleatória. Segundo a Seduc, a definição levou em consideração estudos sobre desenvolvimento econômico, análises de mercado de trabalho e prioridades estabelecidas pelo Plano Rio Grande.
O cardápio contempla áreas ligadas à indústria, tecnologia, economia verde e economia criativa, além de formações consideradas transversais. Entre os cursos estão:
- Automação Industrial
- Desenvolvimento de Sistemas
- Informática para Internet
- Meio Ambiente
- Agronegócio
- Agroindústria
- Produção de Moda e Eventos
- Administração
- Marketing
- Logística

— São cursos que têm empregabilidade muito fortalecida porque podem atender diferentes cadeias produtivas — afirma Collier.
A aposta do governo é que essa combinação permita responder tanto às demandas imediatas do mercado quanto às transformações econômicas previstas para os próximos anos.



