
Em um mercado de trabalho transformado pela inteligência artificial (IA), a capacidade de se adaptar e de desenvolver habilidades socioemocionais é tão importante quanto o domínio técnico. Essa é a avaliação de Kelly Cassaro, diretora global de aprendizagem da Generation, organização que atua na formação profissional e inserção de estudantes no mercado em 17 países.
Com trajetória construída na área da educação, a norte-americana iniciou sua carreira como professora por meio do programa Teach for America, integrante da rede internacional Teach for All, que recruta profissionais para lecionar em comunidades vulneráveis. Durante sete anos, atuou em salas de aula e, posteriormente, assumiu cargos de liderança em escolas dos EUA.
Quando entrou na Generation, criada em 2015 pela consultoria McKinsey & Company, aceitou participar de um projeto que duraria dois anos. A partir de um estudo que buscava entender por que milhões de pessoas não conseguiam emprego ao mesmo tempo em que empregadores relatavam escassez de profissionais qualificados, o programa foi estruturado com uma metodologia que explica essas lacunas:
— Provamos que nossa metodologia era bem-sucedida e, por isso, nos tornamos nossa própria organização sem fins lucrativos independente, separados da McKinsey. Queríamos saber se poderíamos ajudar indivíduos que têm acesso limitado à educação a encontrar empregos para iniciar suas carreiras, enquanto também ajudávamos graduados, com mestrado, que não conseguiam encontrar emprego embora fossem altamente instruídos.
Com a Palavra
Atualmente, Kelly lidera as equipes de currículo e instrução da Generation. A metodologia usada combina pesquisa sobre as exigências de cada ocupação, capacitação técnica e comportamental, mentoria e acompanhamento de resultados, com o objetivo de preparar profissionais e aumentar a chance de empregabilidade.
— Para nós, inclusão produtiva é garantir que tenhamos acessibilidade. Como garantir que todos os nossos alunos tenham acesso à tecnologia, à indústria, e que seus pensamentos e necessidades únicos, bem como seus apoios sociais, sejam atendidos? — indaga a especialista.
Confira a entrevista:
Existe uma incompatibilidade entre o que as universidades estão ensinando e o que os empregadores buscam?
Penso que sim, no geral, e sei que existem certas universidades que estão realmente trabalhando para fechar essa lacuna. Uma coisa que considero muito importante notar é que existem muitas universidades onde há programas de treinamento profissional ou o foco de trazer empregadores para realizar projetos interessantes.
E há algumas onde estão proibindo a IA, por exemplo, e não mudando e alterando a maneira como as pessoas estão aprendendo. Então agora temos jovens se formando que não têm nenhuma habilidade em IA.
E, embora, precisemos usar a IA de forma responsável e existam preocupações e desafios com diferentes vieses, como propriedade intelectual, segurança e discriminação, precisamos garantir que essas pessoas sejam expostas e usem essas ferramentas, porque apenas ter conhecimento de IA já não é suficiente para os empregos.
Você precisa ser capaz de saber como usá-la para automatizar diferentes fluxos de trabalho e como aplicar suas habilidades humanas a ela.
Ter acesso a um diploma universitário ou a conhecimentos na área da tecnologia é o suficiente para conectar as pessoas a mais oportunidades de trabalho?
A IA definitivamente tem chances de diminuir a exclusão digital e de torná-la mais ampla. E nossas maiores preocupações são as áreas onde o acesso não é tão grande, seja às ferramentas de IA, ao hardware, aos planos pagos ou, dependendo de onde você está no mundo, você pode obter resultados diferentes, saídas diferentes, com os mesmos recursos tecnológicos.
Portanto, precisamos garantir que estamos defendendo um uso mais igualitário ou a igualdade quando se trata de acesso às ferramentas de IA.
É preciso ter sempre essa mentalidade de aprendizado contínuo, porque teremos que continuar aprendendo, nos requalificando, aprendendo novas habilidades. Os empregos e as habilidades vão continuar se transformando.
KELLY CASSARO
Acho que aqui no Brasil, grande parte das opiniões fechadas sobre a IA vem de um lugar de medo de que essas ferramentas substituam pessoas e “roubem” empregos. Esse pensamento é comum?
Uma coisa que acho muito importante é garantir que identifiquemos nossa mentalidade em relação à IA. Eu digo às pessoas para pensarem em quando ovem as palavras "inteligência artificial”: qual é a primeira coisa que vem à mente?
E algumas pessoas podem dizer que a tecnologia vai sumir logo, ou que não veio para ficar, ou que simplesmente não são ligados em tecnologia e nunca vão conseguir usar, ou que está roubando a criatividade e a propriedade intelectual das pessoas, e por isso é algo odiável. E então, podemos olhar para quais são as outras maneiras de reformular isso.
É verdade que existem desafios, mas a realidade é que as tecnologias avançadas vieram para ficar, então acho que as pessoas precisam dessa aceitação. E se estivermos com uma venda nos olhos, não seremos capazes de fazer parte das conversas sobre quais são as novas regulamentações e o que mais precisamos para que a IA seja implementada de forma responsável.

Dentro dessa conversa sobre a IA substituir empregos, algumas habilidades continuarão sendo majoritariamente humanas. Quais são elas?
Nossas habilidades humanas são mais importantes do que nunca. As pessoas agora conseguem reconhecer os resultados da IA. Elas sabem quando algo foi criado apenas com IA, sem o toque humano, e confiam menos.
A IA não pode resolver problemas por nós. A tecnologia pode fornecer insumos, mas é o que fazemos, a camada humana que aplicamos a ela, que faz toda a diferença. Então, na minha mente, é o nosso julgamento humano. É a nossa resolução contextual de problemas.
Você citou que há dificuldades tanto para recém graduados quanto para mestres. Em que ponto essas oportunidades se tornam difíceis para os diferentes níveis de educação?
Agora o problema é que muita gente está usando IA para se candidatar a empregos e aí todas as candidaturas parecem iguais. Mesmo se elas anexam seus currículos e a descrição do trabalho nas ferramentas.
Quando você recebe o resultado, aparecem todas as palavras-chave que fazem parecer que aquele indivíduo já tem as habilidades e seria ótimo para o cargo. E aí, quando você rola para baixo até a experiência, vê que a última experiência dele não está nem um pouco conectada ao trabalho.
Ando ouvindo algumas pessoas chamarem isso de “paralisia de contratação”, em que os empregadores não têm certeza de como diferenciar os candidatos porque todas as candidaturas a empregos parecem exatamente iguais. Essa é uma das minhas maiores preocupações: como garantimos que as pessoas consigam se destacar, que consigam garantir a demonstração de suas habilidades e seu alinhamento com a vaga?
E quais são algumas das possíveis formas de resolver essa questão?
O que estamos tentando fazer é trazer um pouco de networking de volta para o presencial, tentando dar exposição e acesso aos formandos aos empregadores para fazê-los construir suas redes de contatos para que tenham essas conexões pessoais.
Também estamos analisando quais são as maneiras de trabalhar com os empregadores para ajustar o processo de contratação. Podemos fazer mais tarefas baseadas em desempenho?
Ou como podemos demonstrar uma espécie de portfólio de experiências que possa mostrar ao empregador o quão incríveis são os nossos formandos e quem procura emprego em geral? Acho que se trata de fazer parcerias e mostrar a eles os problemas e tentar mudar e alterar o antigo fluxo de currículo, carta de apresentação, candidatura e entrevista.
Dado este contexto, como as habilidades socioemocionais (soft skills), como de comunicação e de conexão com outras pessoas, se tornam importantes?
Uma parte realmente maravilhosa do meu trabalho é que posso viajar pelo mundo e observar as pessoas trabalhando, conversar com supervisores e chefes de RH, e o que ouço o tempo todo é que as soft skills são o que mais importa. É o que os empregadores sempre disseram, sobre como você consegue lidar com conflitos no trabalho, como você se apresenta, como você se comunica, e não apenas verbalmente.
São todos os tipos diferentes de comunicação, linguagem corporal, comunicação escrita. E acho que agora isso é mais importante do que nunca. É a maneira como você está resolvendo os problemas, a maneira como você está se apresentando. E acho que os jovens estão percebendo isso.
Acho que as habilidades de comunicação dos jovens, por causa do TikTok, e de todas essas outras coisas que existem agora, são, francamente, melhores do que as minhas e melhores do que aquilo com o que crescemos. Porque eles têm muita confiança e conforto na exposição para conseguir se comunicar e compartilhar seus pontos de vista com os outros.








