
Basta olhar pela janela para notar: há mais veículos do que em décadas passadas, a demanda por energia cresceu (até mesmo em carros e ônibus) e o volume de lixo aumenta junto à população. Se os problemas se acentuam e a busca é por cidades mais sustentáveis, parte das soluções nasce na formação de profissionais.
O “apagão” de trabalhadores qualificados na área de Mobilidade motivou a criação, neste ano, de uma graduação em Engenharia de Transporte e Mobilidade. O curso é realizado em parceria pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), do sul do Estado, e pela Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), na unidade de Porto Alegre. Hoje, são 17 alunos matriculados. O processo seletivo para 2026 está aberto.
— Olhar para as capitais é um cenário difícil e olhar para as cidades do Interior é muito mais complicado em termos de qualidade de equipe, de profissionais adequados, com formação de excelência para atacar os problemas de mobilidade — analisa o professor Fábio Saraiva da Rocha, que coordena a graduação na UFPel.
Ele destaca que os profissionais na área precisam ter uma visão sistêmica da cidade. A capacidade de trabalho colaborativo e multidisciplinar e o domínio de dados e tecnologia também são requisitos, assim como um componente além do aspecto técnico.
— Precisamos ter uma engenharia mais humana, ligada à sociologia do trânsito, à educação para o trânsito, por exemplo, e isso nos diferencia das outras engenharias.
A fim de aumentar a qualificação, uma empresa de Porto Alegre organiza seminários e outros eventos para abordar temáticas como segurança, sustentabilidade e tecnologia no trânsito. O engenheiro João Otavio Marques Neto, dono da Sinaleiro Projetos e Eventos, explica que o público-alvo são estudantes, servidores e gestores públicos.
— O que é o meu desejo? Que a gestão do trânsito nas cidades seja exercida por pessoas mais capacitadas. O prefeito de uma cidade não pode entregar o trânsito na mão de alguém que não seja habilitado — argumenta.
Como atrair alunos

Na área de Engenharia de Energia, uma “pegada de cidadania”, o apreço pela sustentabilidade e a motivação para enfrentar as dificuldades inerentes de um curso com disciplinas de matemática e física são citados como requisitos para um bom profissional hoje e no futuro. Quem faz os apontamentos é o professor Enoque Dutra Garcia, coordenador da graduação em Engenharia de Energia na Universidade Federal do Pampa (Unipampa). A instituição oferta o curso desde 2006 e já teve 138 estudantes formados. Na região, segundo o docente, um dos problemas enfrentados é a falta de oportunidades no mercado.
Em relação à formação das novas gerações, ele pontua a necessidade de integração entre teoria e prática, com proposta de casos a serem resolvidos, assim como a possibilidade de o aluno já se direcionar às áreas que prefere ao longo da graduação — isso tudo para que o estudante siga motivado.
— O desafio que temos é fazer com que esses alunos, nessa geração, passem mais de cinco anos na universidade. Por isso, temos um currículo, em que, seguidamente, fazemos algumas atualizações, para ofertar componentes como armazenamento de energia e a disciplina de mobilidade elétrica — acrescenta.
Profissionais da transformação

Até 2033, 99% da população deve ter água potável e 90% da população deve ter coleta e tratamento de esgotos. É o que determina o Marco Legal do Saneamento. Segundo o professor João Francisco Carlexo Horn, coordenador da graduação em Engenharia Ambiental e Sanitária na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), esse objetivo nacional e a privatização de alguns sistemas fizeram aumentar a procura por cursos na área. Na UFSM, a graduação existe desde 2008 e já formou 464 alunos.
Segundo Horn, os profissionais da área precisam ser multidisciplinares, tendo base de conhecimentos da Engenharia, mas também visão voltada ao meio ambiente para encontrar soluções sustentáveis e modernas em cada caso.

— A capacidade de gestão de pessoas também é necessária, além de um propósito: esses são os profissionais que transformarão as cidades de “selvas de pedras” em lugares com características mais naturais — destaca.
— Tem que ter conforto térmico e águas não poluídas, diminuir o escoamento superficial por meio da infiltração, armazenamento. Acho que esse é o maior desafio e o maior incentivo dos alunos que estão entrando no curso: é querer fazer essa mudança e enxergar ela — complementa.



