
A confirmação de um novo tarifaço de 25% imposto pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros, anunciada na noite de quarta-feira (15), coloca em alerta a economia do Rio Grande do Sul, pois a medida afeta segmentos exportadores fundamentais para a economia do Estado. Entidades estimam que nova a sobretaxa pode retomar problemas observados em 2025, como fechamentos de plantas e de postos de trabalho. A medida entra em vigor no dia 22 de julho.
Conforme levantamento da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), cinco dos 10 produtos gaúchos mais exportados para os Estados Unidos podem ser afetados pelo novo tarifaço proposto pelo governo de Donald Trump. São eles transformadores, dois tipos de tabaco, armas e calçados. O cálculo havia sido feito em cima da primeira lista divulgada. A entidade está atualizando o levantamento.
O presidente Lula reagiu ao anúncio norte-americano, classificando a decisão de Washington como um "marco lastimável", rebateu as críticas americanas ao sistema Pix e garantiu que o país acionará a Lei de Reciprocidade contra a barreira comercial, enquanto industriais gaúchos e especialistas defendem pragmatismo nas negociações.
Para Fabrício Pontin, professor de Relações Internacionais da Universidade LaSalle, a volatilidade da atual gestão de Washington exige cautela dos negociadores brasileiros:
— O que aprendemos desde o tarifaço do ano passado com relação à atual diplomacia norte-americana é que não dá para entrar em pânico com posturas mais agressivas, pois esses posicionamentos têm sido bastante voláteis, mudando com frequência. Não podemos esquecer que o tarifaço também tem um efeito no mercado interno norte-americano. Há empresas lá fora que precisam dos produtos brasileiros e correm o risco de ver a inflação crescer. O governo brasileiro não pode se desesperar e nem ter uma reação precipitada — destaca.
Fabrízio Panzini, diretor de Relações Governamentais e Políticas Públicas da Amcham Brasil, ressalta que sobretaxar a indústria brasileira prejudica a competitividade das próprias empresas americanas, já que as economias são altamente complementares:
— Cerca de um terço do comércio bilateral ocorre entre empresas do mesmo grupo econômico. Grande parte das exportações brasileiras para os Estados Unidos é composta por bens intermediários e matérias-primas que abastecem cadeias produtivas e fortalecem a competitividade da própria indústria deles. Sobretaxar essa relação não faz sentido econômico — aponta.
Negociação e exceções
Para mitigar os danos ao RS e ao país, Panzini sugere três passos práticos para a diplomacia comercial brasileira:
- Canal técnico dedicado: criar um grupo específico para negociar a ampliação da lista de exceções (produtos que ficam livres dos 25% de taxa).
- Mesas permanentes: intensificar encontros bilaterais diretos entre negociadores.
- Agenda estruturada de médio prazo: estreitar parcerias em setores estratégicos como tecnologia, minerais críticos e transição energética para diluir tensões tarifárias.
O tarifaço
Este tarifaço é baseado em uma investigação ordenada pelo governo federal norte-americano em julho de 2025 e conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR). A apuração ocorreu no âmbito da chamada Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, para analisar supostas práticas comerciais desleais por parte do Brasil.
Em 1º de junho, o USTR propôs impor uma tarifa geral de 25% sobre diversos produtos brasileiros exportados para os Estados Unidos. A recomendação veio acompanhada de uma longa lista de exceções, que incluía determinados alimentos, insumos agrícolas, aeronaves, produtos farmacêuticos, fertilizantes e minerais.
Entre as principais queixas americanas que motivaram a retaliação estão:
- Barreiras digitais: decisões do judiciário brasileiro que impactaram big techs americanas e alegações de favorecimento estatal ao Pix.
- Mercado de etanol: dificuldades de acesso de produtores dos EUA ao mercado brasileiro.
- Fatores ambientais e governança: falhas na fiscalização do desmatamento ilegal e problemas de combate à corrupção.
O que diz a Fiergs
O Sistema FIERGS lamenta a decisão anunciada nesta quarta-feira (15) pelo governo dos Estados Unidos de impor uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros. A medida amplia as barreiras ao comércio bilateral e traz novos desafios para a indústria gaúcha, especialmente para segmentos com forte presença nas exportações ao mercado norte-americano, como armas e munições, madeira, calçados e tabaco.
Para o presidente do Sistema FIERGS, Claudio Bier, a decisão compromete a competitividade das empresas, reduz a previsibilidade dos negócios e pode gerar impactos sobre investimentos, emprego e renda no Rio Grande do Sul. "É um retrocesso nas relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos e impõe mais um desafio à indústria brasileira e gaúcha. É fundamental que o governo brasileiro mantenha as negociações com as autoridades norte-americanas para buscar a reversão dessa medida e ampliar a lista de produtos contemplados por exceções”, avalia.
Em caso de manutenção das medidas, defende a implantação de medidas compensatórias. “Ao mesmo tempo, é necessário preparar políticas públicas de apoio aos setores mais afetados, nos moldes das iniciativas adotadas no ano passado, com linhas especiais de financiamento e iniciativas para auxiliar as empresas impactadas. O momento exige uma atuação coordenada, técnica e diplomática para preservar a capacidade competitiva da indústria brasileira e minimizar os efeitos sobre a economia e o emprego", ressalta o presidente do Sistema FIERGS.
Histórico
• A escalada das medidas tarifárias adotadas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros teve início em abril de 2025, com o anúncio de tarifas recíprocas de 10% para diversos países.
• Em agosto do mesmo ano, o governo norte-americano elevou a taxa para 50% (10% + sobretaxa de 40%) sobre produtos brasileiros, mantendo uma lista de exceções que contemplava cerca de 700 itens.
• Em fevereiro de 2026, a Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu retirar essas tarifas.
• O governo Donald Trump aplicou, então, uma tarifa temporária de 10% para todos os países. Posteriormente, em junho deste ano, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluiu a investigação conduzida com base na Seção 301 e recomendou a aplicação de uma nova tarifa adicional de 25% exclusivamente para produtos brasileiros, medida agora anunciada pelo governo norte-americano.
• Uma taxação complementar de 12,5% está em análise e pode ser aplicada até março do ano que vem para produtos brasileiros e de outros países.




