
Em coletiva de imprensa realizada na tarde desta quinta-feira (16) no Ministério da Indústria, Desenvolvimento e Comércio, o vice-presidente da República, Geraldo Alckmin, chamou de "injusta e descabida" a imposição de sobretaxa de 25% anunciada pelos Estados Unidos na quarta-feira (15).
— É injusta porque se nós pegarmos os próprios dados dos Estados Unidos nos últimos 15 anos, os Estados Unidos teve conosco superávit na balança comercial. E descabida porque que os argumentos levantados na Seção 301, e aqui vão ser explicitados pelos ministros, partem de uma base totalmente falsa. Não tem menor justificativa.
Entre os argumentos usados pelo governo norte-americano para a aplicação das tarifas estão o Pix, desmatamento, tarifas sobre o etanol, corrupção no Brasil e ações da Suprema Corte contra big techs.
A coletiva de imprensa contou também com falas dos ministros da Fazenda, Dario Duringan, das Relações Exteriores, Mauro Vieira, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, e do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco. Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, também participou do encontro, onde falou principalmente sobre as acusações contra o Pix, defendendo o sistema:
— O Pix é hoje uma referência internacional. Países como Estados Unidos, Europa, China, Índia, Singapura e uma série de outros bancos centrais ou já implementou ou está estudando implementar sistemas de pagamento instantâneo como o Pix, que claramente é o futuro — destacou Galípolo.
De acordo com cálculo anunciado pelo governo na coletiva, 18% das exportações brasileiras para os Estados Unidos serão afetadas com a medida, o que corresponde a US$ 7,4 bilhões. O novo tarifaço entra em vigor no dia 22 de julho.
Auxílio a setores afetados
Segundo Alckmin, o governo prepara um programa para ajudar empresas prejudicadas pelo tarifaço:
— O governo do presidente Lula trabalha para apoiar quem trabalha aqui dentro. Quem ajuda o Brasil a crescer, a nossa economia. O governo terá um programa de apoio aos que aqui estão labutando, trabalhando e que tenham problemas.
O titular do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Márcio Elias Rosa, afirmou que a prioridade do governo é, a partir de agora, "atender e apoiar setores atingidos".
— Esses setores mais atingidos são basicamente o setor de madeira, máquinas, equipamentos elétricos, móveis, mobiliários, produtos cerâmicos, calçados, açúcar. Esses setores poderão contar com a ajuda do governo federal de diferentes formas — disse o ministro, que confirmou que as medidas de auxílio serão tomadas e anunciadas.
Durigan, ministro da Fazenda, reiterou que os setores afetados serão "chamados ao diálogo" e que o governo vai ampliar o Plano Brasil Soberano, que "dá apoio a quem foi injustamente afetado" pelo tarifaço. O titular da Fazenda também criticou a medida dos EUA, que chamou de interferência indevida externa. Também mencionou que a "oposição usa isso como muleta eleitoral":
— Se trata de uma interferência indevida externa. A política econômica de um país é feita para os seus cidadãos, não para atender o secretário de Estado de um outro país, sinalizando com um programa de governo de transição. Essa medida, baseada em motivação falsa, fere o senso mais básico do nosso patriotismo, em especial quando a oposição brasileira usa isso de muleta eleitoral sem considerar os interesses do nosso povo.

Novo tarifaço
O novo tarifaço foi confirmado na noite de quarta-feira (15) e vai atingir uma parcela importante das exportações nacionais. Entre os principais itens afetados estão gasolina, etanol, açúcar e tabaco.
A medida, que passa a valer em 22 de julho, foi definida após uma investigação sobre supostas práticas comerciais desleais, como a existência do Pix. No entendimento do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o sistema de pagamento instantâneo causa prejuízos para empresas norte-americanas que oferecem serviço semelhante.
Entre os 50 produtos brasileiros mais exportados para os Estados Unidos em 2025, uma lista fica de fora da nova cobrança. É o caso do petróleo bruto, café em grão, aeronaves, carne bovina, celulose, sucos de laranja, ferro-gusa e ferro-nióbio.
Efeito no RS
A medida coloca em alerta a economia do Rio Grande do Sul, pois afeta segmentos exportadores fundamentais para a economia do Estado. Entidades estimam que nova a sobretaxa pode retomar problemas observados em 2025, como fechamentos de plantas e de postos de trabalho.
Conforme levantamento da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), cinco dos 10 produtos gaúchos mais exportados para os Estados Unidos podem ser afetados pelo novo tarifaço proposto pelo governo de Donald Trump. São eles transformadores, dois tipos de tabaco, armas e calçados.
O presidente Lula reagiu ao anúncio dos Estados Unidos, classificando a decisão de Washington como um "marco lastimável", rebateu as críticas americanas ao sistema Pix e garantiu que o país acionará a Lei de Reciprocidade contra a barreira comercial, enquanto industriais gaúchos e especialistas defendem pragmatismo nas negociações.
Fabrízio Panzini, diretor de Relações Governamentais e Políticas Públicas da Amcham Brasil, ressalta que sobretaxar a indústria brasileira prejudica a competitividade das próprias empresas americanas, já que as economias são altamente complementares:
— Cerca de um terço do comércio bilateral ocorre entre empresas do mesmo grupo econômico. Grande parte das exportações brasileiras para os Estados Unidos é composta por bens intermediários e matérias-primas que abastecem cadeias produtivas e fortalecem a competitividade da própria indústria deles. Sobretaxar essa relação não faz sentido econômico — aponta.
