
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou na tarde desta quinta-feira (16) que o novo tarifaço dos Estados Unidos a produtos brasileiros tem motivação política.
— As investigações são unilaterais e não têm justificativas. Mantivemos mais de 30 reuniões em nível presidencial, ministerial e técnico. Somente com (Marco) Rubio e (Jamieson) Greer foram 11 contatos — afirmou.
O ministro disse, ainda, que o Brasil negocia com os Estados Unidos desde abril do ano passado, antes do tarifaço original de 10%.
Ele criticou também as declarações de Rubio contra Lula e afirmou que o secretário de Estado norte-americano atacou o presidente brasileiro "de forma grosseira e arrogante":
— Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas durante o curso das negociações.
Vieira realizou pronunciamento após reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e demais ministros.
Novo tarifaço
O novo tarifaço foi confirmado na noite de quarta-feira (15) e vai atingir uma parcela importante das exportações nacionais. Entre os principais itens afetados estão gasolina, etanol, açúcar e tabaco.
A medida, que passa a valer em 22 de julho, foi definida após uma investigação sobre supostas práticas comerciais desleais, como a existência do Pix. No entendimento do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o sistema de pagamento instantâneo causa prejuízos para empresas norte-americanas que oferecem serviço semelhante.
Entre os 50 produtos brasileiros mais exportados para os Estados Unidos em 2025, uma lista fica de fora da nova cobrança. É o caso do petróleo bruto, café em grão, aeronaves, carne bovina, celulose, sucos de laranja, ferro-gusa e ferro-nióbio.
Efeito no RS
A medida coloca em alerta a economia do Rio Grande do Sul, pois afeta segmentos exportadores fundamentais para a economia do Estado. Entidades estimam que nova a sobretaxa pode retomar problemas observados em 2025, como fechamentos de plantas e de postos de trabalho.
Conforme levantamento da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), cinco dos 10 produtos gaúchos mais exportados para os Estados Unidos podem ser afetados pelo novo tarifaço proposto pelo governo de Donald Trump. São eles transformadores, dois tipos de tabaco, armas e calçados.
O presidente Lula reagiu ao anúncio dos Estados Unidos, classificando a decisão de Washington como um "marco lastimável", rebateu as críticas americanas ao sistema Pix e garantiu que o país acionará a Lei de Reciprocidade contra a barreira comercial, enquanto industriais gaúchos e especialistas defendem pragmatismo nas negociações.
Fabrízio Panzini, diretor de Relações Governamentais e Políticas Públicas da Amcham Brasil, ressalta que sobretaxar a indústria brasileira prejudica a competitividade das próprias empresas americanas, já que as economias são altamente complementares:
— Cerca de um terço do comércio bilateral ocorre entre empresas do mesmo grupo econômico. Grande parte das exportações brasileiras para os Estados Unidos é composta por bens intermediários e matérias-primas que abastecem cadeias produtivas e fortalecem a competitividade da própria indústria deles. Sobretaxar essa relação não faz sentido econômico — aponta.



