
A proposta de uma nova retaliação comercial dos Estados Unidos contra o Brasil, sinalizada por investigação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) concluída na segunda-feira (1º), repercutiu mal entre entidades de setores produtivos brasileiros e analistas de mercado. Na proposta atual, o governo norte-americano ameaça impor um tarifaço de 25% sobre produtos do Brasil, alegando práticas e políticas "irrazoáveis" que restringem o comércio norte-americano.
A decisão sobre a possibilidade de nova tarifa deve ser definida até 15 de julho.
Na avaliação de especialistas, a investida do governo Donald Trump repete o ambiente de incertezas que se instaurou à época do primeiro tarifaço, aplicado um ano antes. Em julho de 2025, Trump anunciou uma taxa adicional de 50% a produtos brasileiros, em canetaço que resultou em uma série de impactos, especialmente na indústria.
O impacto no RS
Agora, mesmo com uma lista extensa de exceções, o efeito tende a ser negativo, avalia o assessor de Relações Internacionais da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Renan Hein dos Santos. A proposta atual deixa de fora itens como carne bovina, cafés e suco de laranja, amplamente consumidos nos EUA.
Conforme estudo da Farsul já calculado para as novas tarifas, 74,9% do valor total exportado pelo agronegócio gaúcho aos EUA seria afetado pelas tarifas. Em volume, são 47,9%. Os setores de fumo e de produtos florestais seriam um dos mais afetados.
— Vimos no passado recente o prejuízo que esse tipo de ação tende a causar aqui. (Agora) há uma série de produtos isentos, vários deles muito importantes e que causaram inflação nos EUA lá atrás. Pelo jeito eles aprenderam alguma coisa com a rodada passada, mas temos de analisar produto a produto para ter uma noção real do impacto — diz Santos.
No tarifaço anterior, a Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs) chegou a estimar que o Estado perderia quase R$ 2 bilhões em PIB com as medidas, tamanha a relevância dos Estados Unidos para o comércio exterior gaúcho. A queda nas exportações fabris do RS chegaram a 37% nos últimos cinco meses de 2025. A entidade diz que a nova decisão anunciada pelo governo Trump pode agravar a competitividade, e por isso preocupa a indústria gaúcha.
Segundo a Fiergs, 86,7% das exportações seguem taxadas de alguma forma (13,2% isentos), dos quais, 16% está na Seção 232 e 69% estará taxado em 25%. Em nota, a entidade disse esperar que o governo brasileiro "consiga defender os interesses brasileiros de forma efetiva".
Dentre os produtos isentos, destacam-se carnes bovinas, café, chás, cacau e sucos de frutas, minérios e combustíveis, produtos químicos e farmacêuticos, itens vinculados ao setor aeroespacial e algumas matérias-primas como borracha, madeiras tropicais e celulose.
Rodrigo Velho, vice-presidente de comércio exterior da Federação de Entidades Empresariais do RS (Federasul) lembra que a produção brasileira — e gaúcha —, segue tendo impactos diretos significativos desde o tarifaço anterior. Para o diretor, permanece a preocupação em relação aos setores de calçados, tabaco e máquinas agrícolas, que continuam sendo afetados pelas tarifas aplicadas.
— Não é uma decisão definitiva, mas parece estar dando contornos para a investigação que começou lá atrás. Com as isenções, os Estados Unidos estão olhando para aquilo que são dependentes comercialmente e claramente dificultando a entrada de produtos brasileiros que, para nós, são muito importantes — diz Velho.
Incerteza macroeconômica
Mesmo com uma série de produtos entre os isentos da possível tarifa, a aplicação das taxas tende a gerar instabilidade. A avaliação dos especialistas é de que o mercado tende a precificar o risco antes da efetiva implementação da medida, especialmente quando o relatório americano envolve temas sensíveis como Pix, etanol, propriedade intelectual, desmatamento e acordos tarifários. A análise é do CEO da Asset Bank, Gustavo Assis, que menciona um risco adicional de incerteza sobre fluxo comercial, o câmbio e apetite de investidores estrangeiros.
— Esse tipo de tensão pode tornar o investidor externo mais seletivo, não necessariamente afastando capital do Brasil de forma imediata, mas exigindo mais prêmio para permanecer exposto ao país — avalia Assis.
Para os setores que ficam fora das exceções, o receio é de que as tarifas provoquem perda de competitividade e necessidade de redirecionamento de mercados, algo que já aconteceu no tarifaço anterior. Este efeito, segundo os especialistas, não se limita ao comércio exterior e tende a respingar nas demais questões macroeconômicas, como necessidade de medidas de socorro financeiro por parte do governo.



