
Mesmo em um contexto que ainda desafia parte do mercado imobiliário, o segmento de alto padrão segue aquecido em Porto Alegre. A venda de imóveis de luxo avançou 11% no primeiro quadrimestre de 2026 na Capital ante o mesmo período do ano passado.
O avanço desse ramo ocorre em um contexto em que as vendas gerais apresentam queda. Menos sensibilidade ao juro alto, valorização de terrenos e novos desenhos urbanos ajudam a explicar esse movimento, segundo especialistas.
De janeiro a abril, a Capital registrou a venda de 174 imóveis de luxo — no primeiro quadrimestre de 2025, foram 157. São considerados imóveis de luxo unidades com valor de venda acima de R$ 2 milhões. O levantamento leva em conta apenas apartamentos — incluindo coberturas — e casas em condomínios, novos e usados.
No mesmo recorte de tempo, a venda geral de unidades em Porto Alegre caiu 12%. Os dados são do Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis (Secovi-RS).
Com o aumento dos custos de construção nos últimos anos e o lançamento de imóveis em áreas mais nobres, em alguns casos, unidades que não eram consideradas de alto padrão em um passado recente podem entrar nesse rol de produtos acima dos R$ 2 milhões.
Os dados de vendas do estudo consideram a base de cálculo informada para o valor do imóvel, não o valor pago da guia do ITBI como era antes.
Os motivos para a alta
O vice-presidente de Comercialização do Secovi-RS, Rafael Padoin Nenê, afirma que a elevação nas vendas de imóveis de alto padrão ocorre na esteira de uma conjunção de fatores, como público menos afetado pelo juro alto e novas opções de produtos:
— Historicamente, os imóveis de alto padrão apresentam um comportamento singular, não afetados por questões econômicas e políticas. Esse perfil de compradores apresenta uma maturidade econômica que implica em uma melhor gestão e planejamento de compra. É menos suscetível aos cenários micro e macro. O gatilho de compra também está mais relacionado à experiência, em que novas tecnologias construtivas ou conceitos arquitetônicos motivam a troca de lar mais espontânea e imediata.
Seguindo nessa linha, o coordenador do curso de Negócios Imobiliários da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Alberto Ajzental, destaca o ambiente do mercado imobiliário atual do país. De um lado, famílias com renda menor têm a possibilidade de comprar imóveis via programas do governo. Do outro, os compradores com maior poder aquisitivo seguem não enfrentando problemas no campo do financiamento.
No meio disso, a classe média segue sem espaço para esse tipo de aquisição diante do achatamento da renda e falta de linhas de crédito mais acessíveis:
— A classe mais pobre está sendo ou vem sendo atendida pelo Minha Casa, Minha Vida. Quem tem dinheiro, tem dinheiro. Acima de R$ 2 milhões, R$ 3 milhões, tem dinheiro para comprar. Já a fatia que vai talvez de R$ 450 mil até R$ 1 milhão, R$ 1,5 milhão, que é a classe média, é a que mais está sofrendo e provavelmente fez cair o total de vendas.
Apostas do mercado
Com mercado de alto padrão aquecido, também é natural que parte das empresas aposte nesse segmento com mais intensidade. Marcelo Guedes, vice-presidente da Melnick, destaca esse movimento:
— O que acaba acontecendo é que o mercado também se posiciona naquelas faixas de renda em que as pessoas são menos dependentes do crédito. Portanto, isso faz com que mercados de alto e altíssimo padrão vivam momentos mais aquecidos.
Destacando a operação da empresa, Guedes afirma que esse cenário também desafia as companhias. Isso porque os clientes do alto e altíssimo padrão acabam demandando um rol maior de serviços e diferenciais nos imóveis:
— O imóvel tem ido além do que a gente tratava no passado, que era basicamente localização e planta. As pessoas têm olhado para a experiência de morar e para marcas associadas, por exemplo.
O executivo cita como exemplo de empreendimentos de alto padrão o Arte Country Club, no bairro Boa Vista.
Bairros
Os dados do Secovi-RS apontam que o aquecimento do mercado de imóveis de alto padrão está concentrado em bairros como Rio Branco, Bela Vista, Petrópolis, Jardim Europa e Cristal (veja no mapa abaixo).
O vice-presidente de Comercialização do Secovi-RS afirma que esse movimento está ligado ao fato de esses bairros concentrarem parte dos lançamentos e vendas praticadas neste recorte de tempo.
Além disso, Nenê destaca que incentivos para a área do Centro Histórico e o alinhamento da Orla vêm "fomentando a região e gerando imóveis a partir desta régua de R$ 2 milhões".




