A decisão do governo Donald Trump de enquadrar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas deixou o sistema financeiro brasileiro em alerta. O receio se dá pela possibilidade de que sanções possam ser aplicadas a instituições e tecnologias bancárias do país, em especial o Pix, sob a alegação de que atuem no financiamento dessas organizações criminosas.
A medida autoriza o governo norte-americano a uma ampla fiscalização dos instrumentos financeiros que podem ser utilizados pelas facções. Na prática, a chancela permite aumento de sanções, vigilância sobre operações suspeitas e até eventual bloqueio de recursos.
O efeito real da decisão, no entanto, é incerto, já que não há clareza sobre os próximos passos a serem adotados pelos norte-americanos. Em nota divulgada na sexta-feira (29), o Palácio do Planalto afirmou que medidas unilaterais podem "afetar nosso sistema financeiro e inovações nacionais como o Pix, que incomodam interesses estrangeiros".
Nesta segunda (1º), o ministro da Fazenda, Dario Durigan, voltou a mencionar o assunto. Ele negou que o governo brasileiro esteja causando "terrorismo" na população sobre possíveis impactos dessa designação no Pix brasileiro.
— O que nós vamos fazer é alertar para os riscos que podem aparecer, porque esses riscos existem — disse Durigan, em entrevista à rádio CBN.
Qual o tamanho do Pix?
O temor sobre possíveis sanções tem a ver com a relevância que o meio de pagamento instantâneo representa para o sistema financeiro do Brasil.
Desenvolvido pelo Banco Central e de tecnologia reconhecida internacionalmente, o Pix entrou em funcionamento em novembro de 2020. No ano passado, cinco anos após a estreia, a ferramenta registrou R$ 35,3 trilhões em transferências, um recorde. Ao todo, foram 79,8 bilhões de operações via Pix em 2025.
Mais de 170 milhões de pessoas físicas têm acesso ao meio de pagamento, o que representa 80% da população. Em outubro de 2025, a ferramenta movimentou o total de R$ 3 trilhões, volume que representou o valor de três PIBs mensais, segundo o BC.
O pagamento instantâneo já representa mais de 90% de todas as operações bancárias no país.
Os números da ferramenta vêm superando ano a ano as demais transações somadas de cartões de crédito e débito, boletos, TED, cartão pré-pago e cheques. Com mais da metade da participação (55%), o Pix se consolidou como o principal meio de pagamento brasileiro.
Conforme especialistas, o sistema permitiu a bancarização da população e o surgimento de novos modelos de negócios.

Vantagens e impacto econômico
Rodolpho Tobler, economista do FGV Ibre e do Movimento Brasil Competitivo (MBC), menciona que o Pix gera impactos econômicos de grande escala à medida que entra na vida das pessoas — especialmente pela redução dos custos operacionais. A economia estimada passa de R$ 100 bilhões com a gratuidade das transferências.
— Há economia bem clara com a mudança na forma de pagamento. O Pix basicamente substitui o TED, que implicava em gastos para as empresas. Outro ponto é a tarifa do cartão, onde o Pix também é competitivo — diz Tobler.
Entre as suas vantagens estão a rapidez e a disponibilidade: o Pix permite transações 24 horas por dia, sete dias por semana, incluindo feriados. É uma facilidade em relação a outras modalidades que exigem restrições de horários e quantias.
Além disso, o uso do Pix é totalmente gratuito para pessoas físicas, diferentemente das conhecidas maquininhas de cartão que cobram taxas pelas transações. A gratuidade, portanto, reduz o custo de operação para muitos negócios.
Conforme dados do Banco Central, a maior parte das transações via Pix (46%) refere-se às operações e pagamentos realizados de uma pessoa física para uma pessoa jurídica (empresas). Em seguida, aparecem as operações diretas entre pessoas físicas (40%).
Já em valor, as transações de empresa para empresa lideram com 50% do total movimentado. As operações diretas entre pessoas vêm na sequência (25%).
O Sudeste é a região do país que mais movimenta o Pix (67% no ano passado). Na região Sul, que inclui o Rio Grande do Sul, adesão à ferramenta é de 61%.
Desde 2021, o Pix também funciona como ferramenta de saque e troco. As modalidades permitem retirar dinheiro em espécie direto no comércio, como lojas ou outros estabelecimentos, sem precisar de caixa eletrônico. A versatilidade da ferramenta em vários produtos, diz Tobler, reforça a sua relevância para a economia.
Atrito antigo
O Pix é ponto antigo de atrito nas relações entre Brasil e Estados Unidos. Em 2025, a ferramenta de pagamentos foi citada quando o governo Trump anunciou uma investigação para apurar práticas comerciais brasileira consideradas "desleais".
A publicação do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) insinuava que o sistema favorecia os serviços desenvolvidos pelo governo.
— A gente sabe que o governo Trump tem uma atuação muito forte no que diz respeito à defesa de suas corporações, em especial essas do sistema financeiro, essas empresas de cartão de crédito. O Brasil tem um grande mercado interno consumidor, tem uma classe média de dezenas de milhões de pessoas. Então, é um mercado consumidor muito importante para essas empresas financeiras americanas — disse Ronaldo Carmona, professor de Geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG), em entrevista ao Gaúcha Atualidade, da Gaúcha.




