
O anúncio de uma nova proposta de sobretaxa pelos Estados Unidos gerou forte reação no setor produtivo do Rio Grande do Sul. Em entrevista ao programa Gaúcha Atualidade, da Rádio Gaúcha, nesta quarta-feira (3), o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs), Claudio Bier, classificou as medidas do governo Donald Trump como um ataque direto à competitividade nacional.
— É uma pancada em cada esquina. Cada esquina que tu dobras, tu levas uma pancada — desabafou o dirigente, ao projetar o impacto do novo revés na economia do país.
E complementou:
— Desse jeito, fica completamente impossível nós exportarmos para os Estados Unidos, que é o nosso segundo melhor mercado, ficando atrás apenas da Argentina.
Nesta quarta-feira, o governo norte-americano sugeriu uma tarifa extra de 12,5% sobre produtos do Brasil e de outros 59 países, sob a alegação de supostas falhas no combate ao trabalho forçado.
Prejuízo bilionário e setores afetados no RS
De acordo com estimativas da Fiergs, o "tarifaço" imposto por Washington em 2025 já representava uma perda projetada de aproximadamente R$ 2 bilhões para o PIB gaúcho. Com o novo adicional de 12,5%, o cenário se agrava substancialmente.
O mercado americano é o principal destino de produtos acabados de alto valor agregado do Estado. Entre os setores mais afetados e que operam sob forte sinal de alerta estão:
- Madeira, móveis e estofados
- Metalmecânico e tecnologia: aço, alumínio, autopeças, peças de máquinas agrícolas, caminhões e semicondutores.
- Tradicionais: couro, calçados e a indústria do tabaco (fumo).
Críticas à polarização e apelo ao governo federal
Para o presidente da Fiergs, a condução política do tema tem prejudicado os negócios. Bier criticou o uso do episódio no debate eleitoral brasileiro e a polarização que paralisaria, segundo ele, as tomadas de decisão:
— O governo tem que esquecer um pouquinho a eleição, esquecer os filhos do Bolsonaro, essa polarização toda, e pensar na economia brasileira.
Para Bier, o momento exige que as federações industriais e a Confederação Nacional da Indústria (CNI) atuem de forma técnica e conjunta com o governo federal para tentar uma aproximação diplomática urgente com Washington.
A busca lenta por novos mercados
Questionado sobre alternativas para mitigar o impacto, Bier relatou que a indústria gaúcha já iniciou movimentos de diversificação desde os primeiros anúncios de tarifas — ampliando de forma expressiva as exportações para a Índia, por exemplo. No entanto, Bier ponderou que a substituição de um parceiro comercial do porte dos EUA não ocorre do dia para a noite.
— Procurar outros mercados é uma operação lenta. Exportação não é como uma transação interna em que você convence o cliente rapidamente. Exige construção de confiança, validação do produto e abertura de canais logísticos — concluiu.
Compasso de espera
As novas tarifas ainda constam como recomendações de escritórios de investigação americanos e precisam de confirmação para entrar em vigor (com previsão para os meses de julho ou agosto).
Farsul projeta baque de R$ 144 milhões no Estado
O setor agropecuário gaúcho também acendeu o sinal de alerta. O presidente da Federação da Agricultura do Estado (Farsul), Domingos Velho Lopes, destacou que o Estado está na linha de frente dos prejuízos.
— O Rio Grande do Sul é mais afetado ainda percentualmente do que o Brasil como um todo. Os 25% não são para todos os produtos, mas atingem muito o RS: por volta de 75% das nossas exportações estariam tarifadas.
Com um mercado anual superior a US$ 300 milhões com os americanos, o agro gaúcho projeta um impacto direto de R$ 144 milhões apenas com a primeira taxa de 25%. Os segmentos mais ameaçados são os de produtos florestais, fumo e subprodutos de proteínas, como o couro e o sebo. Para a entidade, a nova taxa de 12,5% anunciada na madrugada é "subjetiva" e pode ser um movimento de Trump para frear o avanço comercial dos BRICS, especialmente da China.
Ásia surge como válvula de escape
A Farsul projeta que a entrada de 400 milhões de chineses na classe média até 2035 deve dobrar a capacidade de compra do país asiático, abrindo espaço para absorver as proteínas, cereais e biocombustíveis do RS.
— Somos a garantia na segurança alimentar mundial — resumiu Lopes.




