Ao caminhar pelas ruas e avenidas de Barcelona, é praticamente instintivo tirar o smartphone do bolso para registrar a fachada de um prédio clássico criado pelo arquiteto catalão Antoni Gaudí, as torres colossais da Sagrada Família ou um edifício moderno cercado por obras históricas.
O que boa parcela dos turistas encantados com a grandiosidade e a beleza da cidade provavelmente não sabe é que parte da tecnologia que ajudou a viabilizar os celulares finos e sem antenas externas aparentes nasceu ali. Foi na região de Barcelona que a Fractus contribuiu para o desenvolvimento de antenas internas usadas em dispositivos móveis.
Esse é apenas um dos exemplos que consolidam a capital catalã como referência internacional em inovação e tecnologia. Mas essa vocação não se limita aos hubs e centros de pesquisa que compõem o ecossistema local. Ela se manifesta nas ruas, nos serviços urbanos e no cotidiano de quem vive na cidade. Exemplos parecidos também são encontrados em Madri.
A reportagem de Zero Hora acompanhou, na última semana, uma missão de empresários do varejo gaúcho, liderada pela Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Rio Grande do Sul (Fecomércio-RS) na Espanha. Em Barcelona e em Madri, o grupo formado por 24 empreendedores visitou hubs de inovação e tecnologia em Barcelona e Madri, além de visitas técnicas em empresas e participação na Shoptalk Europe.
Especialistas apontam que Porto Alegre e o Rio Grande do Sul já contam com bons exemplos dessas duas cidades, mas ainda enfrentam gargalos estruturais para chegar ao mesmo patamar.
Barcelona, uma cidade inteligente
Basta alguns minutos caminhando pela região central de Barcelona para admirar a fluidez da cidade. O tráfego flui de forma relativamente organizada para uma cidade de seu porte, cruzamentos, semáforos inteligentes e ciclovias funcionam, e os métodos de pagamento digitais predominam, mitigando gargalos em transações financeiras simples ou complexas.
Nem todas essas soluções foram criadas diretamente nos hubs de inovação da cidade, mas refletem bem um ambiente que há anos estimula a formação de talentos e a colaboração entre poder público, universidades e empresas.
E isso fica mais explícito quando visitamos iniciativas como o Tech Barcelona e o Distrito 22@ Barcelona, apontados com frequência como símbolos da transformação da capital catalã em uma referência global em inovação urbana.
Área degradada que virou exemplo de transformação urbana
Ao percorrer as ruas do Distrito 22@, no leste de Barcelona, a sensação é de caminhar por uma cidade em transição. Entre edifícios de vidro, escritórios de empresas de tecnologia e espaços de pesquisa, ainda sobrevivem marcas da antiga vocação industrial da região: galpões de tijolos, fachadas mais duras e dutos de vapor que mantêm a memória do período em que a região era conhecida pela concentração de fábricas.
Por exemplo, andando pela Carrer de Roc Boronat, damos de cara com duas chaminés usadas na era anterior por fábricas têxteis. Hoje, construções mais modernas, como a Universidade Pompeu Fabra (UPF) e prédios corporativos, circundam essas estruturas. Ainda nas proximidades, o moderno prédio Media-TIC, que conta com uma fachada inteligente e adaptável ao clima, também marca presença.
Localizado no bairro de Poblenou, no distrito de Sant Martí, o 22@ nasceu no início dos anos 2000 com uma proposta ambiciosa: transformar uma antiga área industrial degradada em um ecossistema de inovação integrado à cidade. Em vez de criar um parque tecnológico isolado, o projeto ocupou um território já existente, integrando empresas, universidades, centros de pesquisa, comércio, moradia e espaços públicos.
O resultado é um dos exemplos mais conhecidos de revitalização urbana baseada em inovação. Por trás dessa transformação visível nas ruas, há um modelo de organização territorial bem definido. O distrito funciona a partir do conceito de "hélice quádrupla", modelo que aproxima governo, academia, empresas e sociedade civil para estimular novos negócios, pesquisa e desenvolvimento tecnológico, como explica Isabel Sabadi, diretora da 22@Network Barcelona.
A executiva destaca que a estratégia e sucesso do distrito sempre estiveram ligados à criação de infraestrutura capaz de atrair talentos e empresas. Segundo ela, investimentos em conectividade, fibra óptica e ambientes favoráveis à pesquisa ajudaram a preparar o território para novos ciclos tecnológicos, incluindo avanços relacionados à inteligência artificial (IA).
— O governo não ofereceu isenções fiscais generalizadas. O atrativo principal foi o investimento em infraestrutura e facilidades para universidades e centros tecnológicos. No início, o governo criou uma empresa pública que trabalhou por 16 anos no desenvolvimento do espaço e na atração de empresas desde o "dia zero" — relata Isabel.
Ou seja, ela destaca que o foco está na manutenção de um ambiente que crie e atraia talentos diante de boa infraestrutura urbana e abrigo de grandes empresas locais e internacionais. Com cada vez mais negócios habitando a área, mas companhias e trabalhadores querem fazer parte desse ambiente.
Caminhando pelo bairro, essa transformação fica clara na paisagem. Antigas estruturas industriais foram preservadas e ganharam novos usos, enquanto prédios modernos passaram a dividir espaço com áreas verdes, restaurantes, universidades e sedes de empresas de tecnologia. A mudança não apagou a história industrial da área, mas sim incorporou essa memória a uma nova economia baseada em conhecimento, tecnologia e impulsionamento econômico.
— O modelo do Distrito 22@ Barcelona não é só um hub de inovação, mas uma iniciativa de revitalização completa de um bairro degradado pelo vazio deixado por antigas indústrias. Uma organização privada, que não escolhe vencedores previamente e incentiva o uso balanceado do território, inclusive para residências. Quando perguntamos sobre a base da atração de empresas e investimentos para o bairro, a resposta foi categórica: infraestrutura de qualidade para o bairro que beneficia a todos — avalia o gerente de Relações Governamentais da Federação do Comércio de Bens e Serviços do Rio Grande do Sul (Fecomércio-RS), Lucas Schifino.
Com a transformação do bairro, parte dos moradores mais antigos manifesta resistência ao processo, apontando que a expansão urbana não teria priorizado de forma suficiente a questão habitacional. Em contrapartida, representantes do poder público e da gestão do distrito afirmam que vêm sendo implementadas iniciativas de habitação social e requalificação urbana como contraponto.
Tech Barcelona: atração e integração
A região do Port Vell, área portuária revitalizada de Barcelona, é outra região que passou por processo de transformação e transição para a nova era de tecnologia e inovação. Revitalizado para os Jogos Olímpicos de 1992, a área conecta o final de Las Ramblas ao mar e abriga a sede do Tech Barcelona, associação privada sem fins lucrativos que impulsiona o ecossistema digital da cidade.
A organização conecta 1,5 mil sócios, entre empreendedores, investidores e corporações. O Tech Barcelona atua como um hub conector, que canaliza necessidades de financiamento, talento e parcerias através de eventos e espaços físicos no centro urbano.
A sede da entidade é o Pier 01, um hub de 12 mil metros quadrados, localizado na região do porto da cidade e que abriga cerca de cem empresas e 1 mil trabalhadores. A comitiva da Fecomércio também visitou o local durante a missão na Espanha.
O Pier 01 foca em deep tech (ciência profunda, na tradução), transformando pesquisas acadêmicas sobre hologramas, 6G e dados quânticos em produtos de mercado. Atua como um conector neutro entre empreendedores, investidores e universidades.
Com essa união e integração entre atores do ecossistema de inovação, a organização promove um convívio entre a inovação e os cidadãos, facilitando o acesso ao talento e à tecnologia.
— Não queremos que essas empresas estejam no distrito financeiro ou na zona industrial. Queremos que estejam no centro para que a inovação conviva com os cidadãos, que aconteça onde os cidadãos vivem — explica o diretor de Comunicação e Relações Públicas da Tech Barcelona, Miguel Gómez Fernández.
O diretor destaca que as tecnologias impulsionadas e aceleradas no local se refletem no dia a dia dos cidadãos de Barcelona, em áreas como trânsito, saúde e movimentações financeiras. Um exemplo prático é o apoio a startups como a Accexible, que utiliza IA para identificar possíveis sinais precoces de demência por meio da análise de notas de voz.
Concentração científica em Madri
Localizado no distrito de Villaverde, o La Nave é o centro de referência do ecossistema de inovação de Madri. Ocupando uma antiga estrutura industrial reabilitada, o local também é a sede do South Summit Madri.
O local, administrado pelo poder público da capital espanhola, funciona como um ponto de encontro entre pesquisadores, empresas e tecnologia, oferecendo programas de aceleração para projetos baseados em ciência.
Amparo Reyes, diretora do La Nave, explica que a organização promove a transferência tecnológica, levando a ciência das universidades para serviços e aplicativos usados pelo cidadão comum. O local é aberto ao público, oferecendo atividades de formação para crianças, aproximando os pequenos da inovação desde cedo, segundo a diretora:
— Temos uma vertente de formação e vinculação com o bairro, para que qualquer cidadão interessado possa participar de nossas atividades. Temos programas para crianças de oito a 12 anos que, ao terminarem o período escolar, participam de atividades e jogos para se familiarizar com a inovação, aprendendo conceitos de design thinking e prototipagem.

Paralelo com o Rio Grande do Sul
Com um dos polos tecnológicos mais relevantes do país, impulsionado por atores e iniciativas como Tecnopuc, Tecnosinos, Instituto Caldeira, Pacto Alegre e South Summit Brazil, o Rio Grande do Sul e Porto Alegre buscam, nos últimos anos, referências internacionais, como a de Barcelona e Madri, para fortalecer seu ecossistema de inovação.
Um dos exemplos é a tentativa de revitalização do 4º Distrito, projeto que guarda algumas semelhanças com a transformação promovida pelo 22@. Apesar de avanços e movimentos que dialogam com experiências espanholas, o Estado ainda enfrenta desafios estruturais para alcançar o mesmo nível de avanço observado nesses ecossistemas.
O superintendente de Inovação e Desenvolvimento da PUCRS e do Tecnopuc, Jorge Audy, afirma que o ecossistema de inovação do Rio Grande do Sul carrega semelhanças e diferenças em relação aos exemplos espanhóis, principalmente de Barcelona.
Nas afinidades, Audy cita que o Estado também tem uma forte orquestração entre os atores da quádrupla hélice, pela formação de talentos de classe mundial no Ensino Superior e pela existência de hubs como Tecnopuc e Caldeira.
Contudo, nas disparidades, o superintendente afirma que o Rio Grande do Sul ainda enfrenta gargalos que o distanciam da realidade espanhola, como o abismo na qualidade da educação básica pública e baixo volume de investimentos em ciência e tecnologia. Nesse segundo ponto, avançamos em relação a nós mesmos nos últimos anos, mas ainda abaixo de outras regiões.
Audy destaca que, para acelerar o desenvolvimento, é fundamental colocar educação em tempo integral como prioridade absoluta e reforçar o ensino de línguas como inglês, espanhol e chinês nas escolas. Ele enfatiza ainda que, embora incentivos fiscais ajudem na atração inicial, o que garante a estabilidade de longo prazo é o talento e a qualidade de vida na cidade.
Além desses dois pontos, o superintendente cita a importância de dar continuidade às políticas de Estado. Citando os responsáveis pelo projeto de Barcelona, Audy afirma que o tempo mínimo para implantar um modelo territorial de transformação urbana, de desenvolvimento de uma cidade, é de no mínimo de 15 a 20 anos, cerca de quatro a cinco ciclos de governo.
— Nós vivemos num Estado "grenalizado", de um nível de conflito muito elevado. Se a gente olhar os últimos 20, 30 anos, observamos ciclos onde, toda vez que muda o governo, tu tens rupturas significativas nesse processo de desenvolvimento de projetos. Até acho que ultimamente parece que isso começou a melhorar, mas precisamos deixar passar um pouco mais de tempo para ter maior clareza.
Esse ponto esteve muito presente nas conversas com representantes das iniciativas visitadas em Barcelona e Madri. Os entrevistados destacam que a construção desses ecossistemas depende de estratégias de longo prazo, capazes de atravessar ciclos políticos e manter a articulação entre poder público, universidades, empresas e empreendedores. Essa continuidade contribuiu para fortalecer essas cidades como polos de tecnologia, empreendedorismo e atração de talentos.
O gerente de Relações Governamentais da Fecomércio-RS, Lucas Schifino, entende que é possível aprender muito sobre os mecanismos de atração de empresas e promoção de investimentos e inovação com o exemplo espanhol.
O economista também reforça que muitas iniciativas conseguem produzir "espaços bonitos, com nomes bonitos e diversos eventos", ajudando a gerar conexões e reduzir assimetrias de informação. No entanto, é preciso reforçar a base para aproveitar melhor esses movimentos, segundo Schifino:
— Fatores como capital humano e infraestrutura são decisivos. Se os alunos da nossa rede pública, que formam a grande maioria dos trabalhadores do Estado, não concluírem a escola com um bom nível de inglês e bons em matemática e raciocínio lógico, não existe "conexão" que faça milagre.
*O repórter viajou a convite da Fecomércio-RS



