
O crescimento acentuado na venda dos veículos eletrificados no Brasil, com alta de 26% em 2025 ante o ano anterior, não tende a causar perda considerável de receita para os tradicionais postos de gasolina no médio prazo. A afirmação é do Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis e Lubrificantes (Sulpetro) e das distribuidoras, sustentada por estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME). Em novembro de 2025, a EPE publicou o Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) com a previsão de que, em 2035, os veículos de tecnologia flex fuel ainda serão predominantes, representando 76% da frota nacional. O flex fuel é o automóvel que roda com gasolina e etanol.
Além da manutenção da hegemonia do flex, movido à combustão, outro detalhe decisivo é destacado pelos analistas do mercado: dos 223,9 mil eletrificados leves vendidos no Brasil em 2025, 36% são totalmente elétricos. Esses saem definitivamente do posto. A parcela majoritária de 64% é de híbridos, atuais líderes na categoria e que ainda consomem uma quantidade de combustível, embora menor.
O diesel que abastece os caminhões, dominantes no transporte de carga e cuja eletrificação é mais lenta, é apontado como uma âncora dos postos e das distribuidoras no médio prazo.
— A transição é uma janela de oportunidade de 10 anos a 15 anos, e não uma ameaça imediata. A combinação brasileira de flex, híbridos e diesel dá tempo para a adaptação. No curto prazo, o efeito sobre o volume vendido é pequeno porque o estoque circulante de veículos se renova devagar e a maioria dos eletrificados ainda abastece — afirma o gerente de inteligência competitiva da Rodoil Distribuidora de Combustíveis, Alex Rodrigo de Oliveira Lopes.
Outro fator destacado pelos analistas é que o forte crescimento na venda dos elétricos se dá sob uma base muito pequena. A observação da frota dimensiona: conforme dados do Detran-RS, o mês de maio de 2026 fechou com 50,9 mil eletrificados em circulação no Rio Grande do Sul, enquanto os veículos a combustão são 7,7 milhões.
Contudo, os postos já estão em transformação desde antes dos eletrificados porque a margem de lucro é pequena no combustível, diz o Sulpetro. Isso seria devido aos custos do produto junto às distribuidoras, ao aumento da eficiência dos veículos flex, a impostos e à fiscalização. Mirando o futuro, a necessidade de diversificar ficou ainda mais premente com a onda dos elétricos e o avanço das montadoras chinesas no Brasil, como BYD e GWM, que conseguiram reduzir o preço do acesso à tecnologia.
— O dono do posto faz lojas para alugar: um açougue, uma farmácia e a loja de conveniência para rentabilizar o ponto. Isso faz o negócio funcionar com margem melhor — comenta o presidente do Sulpetro, Fabrício Severo Braz.
Para Lopes, da RodOil Distribuidora, os postos já ameaçados são os urbanos e dependentes da receita dos combustíveis. Esses, afirma, tendem a escassear e ter a clientela absorvida pelos demais.
— (O futuro é) Se transformar em comércio diversificado e praça de serviços, tratando o combustível como gerador de tráfego e a loja como centro do resultado. Os modelos internacionais de maior sucesso, nos Estados Unidos, já operam assim — diz.
Braz, do Sulpetro, afirma que diversos estabelecimentos estão fazendo parcerias com empresas de carregadores para oferecer abastecimento à frota eletrificada.
— O aparelho e a instalação têm custo alto, geralmente subsidiados por parceiras. É mais um produto na unidade de negócio como atrativo, mas não é o que deve gerar lucro — aponta Braz.
O acúmulo de margem baseado nos eletropostos é visto com cautela porque, conforme dados do setor, entre 70% e 90% dos veículos eletrificados são recarregados em casa e no local de trabalho, durante a noite, quando ficam parados por horas.
Desafios do elétrico
Economista-chefe da consultoria ES Petro e ex-superintendente da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Edson Silva avalia que a transformação do setor é assunto atualíssimo, mas afirma que o Brasil está “distante” de ter uma frota com ênfase no eletrificado. Ele aponta alguns entraves para a longevidade na alta da venda desses carros, como a vida útil da bateria e o valor de mercado na hora da troca.
— Muitos consumidores do carro elétrico abastecem em casa. Hoje o custo compensa, mas e amanhã, com o aumento da demanda? Existe um ambiente de dúvida e, por isso, não vejo no médio prazo um cenário para alterações significativas no mercado de combustíveis — diz Silva.
Conforme o estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a demanda de energia para a eletromobilidade deve saltar de 627 gigawatt-hora (GWh) em 2025 para 7,8 terawatt-hora (TWh) em 2035 — alta de mais de 12 vezes.
— O crescimento da demanda pode aumentar a tarifa da energia elétrica — comenta o coordenador do curso de Engenharia de Energias Renováveis da PUCRS, Alexandre Hugo da Silveira.
Silveira acrescenta que as redes de distribuição de energia da Região Metropolitana de Porto Alegre requerem qualificação para atender a exigência que ainda está por vir da frota eletrificada. Também menciona a instalação de carregadores veiculares em condomínios e prédios. Embora seja permitido, inclusive nas vagas privativas, o investimento necessário e a operação dos equipamentos em ambientes compartilhados têm causado divergências entre moradores.
— É uma questão delicada, vem gerando muita discussão entre condôminos. Alguns contrários alegam até questão de segurança, por risco de incêndio, o que é algo bastante raro — pondera Silveira.
O especialista, contudo, avalia que o avanço da tecnologia tende a desatar os nós e abrir ainda mais caminho para os elétricos, tracionados pela diminuição ou fim do custo com combustível e pela redução da emissão de gases do efeito estufa.
— No futuro próximo, depois do término da vida útil da bateria no veículo, ela terá utilidade para o armazenamento de energia do sistema elétrico. Isso deve vir em regulamentação do setor. Terá um reuso comercial — aponta o professor da PUCRS.
As inovações tecnológicas, principalmente vindas da China, prometem oferecer baterias com menor custo e maior autonomia. Além disso, o eletrificado recebe, em diversos Estados, isenção ou desconto no IPVA. O governo federal lançou programa para que motoristas de aplicativo e taxistas adquiram veículos elétricos, híbridos ou flex em condições de financiamento vantajosas.
— Vejo uma corrida muito grande pelos elétricos e os gargalos tendem a ser superados. O principal deles, hoje, é a infraestrutura de distribuição de energia, que não está preparada para o incremento da demanda — afirma Silveira.
Negócio em transformação
O Posto Shopping, de bandeira Ipiranga, na esquina das avenidas Dr. Nilo Peçanha e João Wallig, em Porto Alegre, é referência na adaptação do modelo de negócio. Além da tradicional pista de abastecimento, tem farmácia, barbearia, lavanderia, loja de conveniência, troca de óleo, lavagem e vagas de estacionamento. Em parceria com uma empresa especializada, foi instalado eletroposto com uma fonte. A carga completa leva cerca de 50 minutos. O valor médio é de R$ 1,89 pelo KWh.
— A ideia é ampliar vagas, porque temos tido procura — diz Carlos André de Souza Mello, gerente do Posto Shopping.
Frota de veículos no RS
A frota de veículos a combustão no Estado é de 7,7 milhões em maio de 2026 e ela também segue crescendo. Segundo dados do Detran-RS, quase 400 mil novos veículos a gasolina, etanol ou diesel passaram a circular no Estado desde 2023.



