
O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) deu sequência nesta quarta-feira (17) ao ciclo de cortes na taxa básica de juros da economia brasileira. A Selic foi reduzida em 0,25 ponto percentual, para 14,25%.
O juro não ficava neste patamar desde maio de 2025. Entre junho de 2025 e março de 2026, a taxa permaneceu no elevado patamar de 15%, o mais alto desde 2006 no país. A partir de então, o Copom iniciou o atual ciclo de cortes.
A taxa básica de juros é a principal ferramenta de controle da inflação no sistema econômico nacional — uma taxa mais alta desestimula o consumo, reduzindo a demanda por produtos e serviços e freando aumento generalizado de preços.
No comunicado que acompanha a decisão desta quarta, o Copom, em relação ao cenário internacional, destacou que "permanece incerto em função da indefinição sobre os termos do acordo para cessar os conflitos armados no Oriente Médio e as consequências dos efeitos já materializados desses conflitos até o momento", apontando ainda que " Tal cenário exige cautela por parte de países emergentes em ambiente marcado por elevação da volatilidade de preços de ativos e commodities".
No anúncio após a reunião anterior, em abril, o Copom já havia destacado as incertezas do cenário macroeconômico internacional, com a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. O conflito gerou o fechamento do Estreito de Ormuz, impactando o abastecimento de petróleo e os preços dos combustíveis em todo o planeta, o que aumentou o risco inflacionário inclusive no Brasil. Contudo, o acordo de paz anunciado no domingo (14) entre Estados Unidos e Irã já aliviou a pressão no preço do petróleo nos últimos dias.
Em complemento, sobre o panorama nacional, o comitê reforçou que "o conjunto dos indicadores mostra aceleração da atividade econômica no primeiro trimestre do ano, com setores mais cíclicos voltando a desempenhar papel significativo, e mercado de trabalho ainda com sinais de resiliência. Nas divulgações mais recentes, a inflação cheia e as medidas subjacentes aceleraram, distanciando-se adicionalmente da meta para a inflação".
Por fim, no comunicado, o Copom afirmou que "julgou apropriado, nesse momento, dar sequência ao ciclo de calibração da política monetária, reduzindo a taxa básica de juros para 14,25%. No cenário atual, caracterizado por forte aumento da incerteza, o Comitê reafirma serenidade e cautela na condução da política monetária. Sem prejuízo de seu objetivo fundamental de assegurar a estabilidade de preços, essa decisão também implica suavização das flutuações do nível de atividade econômica e fomento do pleno emprego". A próxima reunião do Copom ocorre em 4 e 5 de agosto.
Entidades produtivas repercutem
O presidente da Fecomércio-RS, Luiz Carlos Bohn, destaca que a decisão do Copom não trouxe surpresas. "Apesar da inflação permanecer elevada e das expectativas inflacionárias seguirem desancoradas, a perspectiva de encerramento do conflito no Oriente Médio reduz as pressões sobre o cenário prospectivo, tornando o ambiente internacional mais benigno ao diminuir os riscos de novas elevações das taxas de juros no Exterior. Persistem, contudo, a inflação de serviços, as incertezas relacionadas aos efeitos do El Niño sobre a dinâmica dos preços dos alimentos e, especialmente, da energia elétrica, bem como os impactos decorrentes do crônico desequilíbrio fiscal do país", observa, em nota divulgada pela entidade.
A Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs) também destacou, ao analisar a decisão do Copom, a piora das expectativas de inflação, as incertezas que ainda cercam o cenário internacional e doméstico e a resiliência da atividade econômica brasileira.
"A indústria gaúcha enfrenta um cenário desafiador, marcado pelo aumento dos custos decorrentes dos efeitos da guerra no Oriente Médio, pelas preocupações com a possibilidade de um forte El Niño e pelas discussões em curso no Senado sobre a redução da jornada de trabalho, que podem trazer novos custos e desafios para o setor produtivo", destaca o presidente do Sistema Fiergs, Claudio Bier, reforçando que o corte ainda é insuficiente e precisa ser intensificado nas próximas reuniões.
“Enquanto os juros reais continuarem tão elevados, beneficiando diretamente o capital especulativo, o custo do crédito vai seguir inviabilizando os planos de produção e expansão da indústria. Da mesma forma, a medida se mostra ineficaz em aliviar o orçamento das famílias, das empresas e do próprio governo, que seguirão estrangulados pelo serviço da dívida, adiando a retomada do consumo e do investimento e a superação do fantasma da inadimplência”, ressalta também o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban.
Antônio da Luz, economista-chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), também comentou a decisão:
— Foi um corte surpreendente, porque a inflação está subindo forte e as expectativas estão desancorando. Nos Estados Unidos, o Fed (banco central americano) sinalizou com a perspectiva de aumento da taxa de juros até o final do ano.
Fed mantém taxa inalterada nos EUA
Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (Fed) manteve as taxas de juros do país inalteradas na primeira reunião de política monetária presidida por Kevin Warsh. Por outro lado, o comunicado da instituição sugeriu que um aumento poderá ser decidido antes do final deste ano.
O banco central norte-americano decidiu manter as taxas de juros na faixa de 3,50% a 3,75% pela quarta reunião consecutiva. Esta foi a primeira votação unânime do grupo em um ano.
— O gráfico de pontos com expectativas dos diretores do Fed mostrou que metade deles espera ao menos uma alta de juros até o fim de 2026, enquanto a outra metade espera essencialmente a manutenção das taxas no patamar atual. Para 2027, também parece haver uma expectativa relevante de alta de juros em relação ao patamar atual. Em resumo, o comitê, de fato, demonstrou sua perspectiva de que a inflação se manterá em nível acima do desejado por mais tempo, demandando uma política monetária mais restritiva — comenta o economista Camilo Cavalcanti, sócio e gestor de portfólio da agência Oby Capital.


