
Caso a União Europeia mantenha a retirada do Brasil da lista de países autorizados a vender produtos de origem animal ao bloco, o Rio Grande do Sul pode sofrer um impacto de quase US$ 120 milhões, ou cerca de R$ 600 milhões. O número tem por base o faturamento do Estado com a venda destes produtos à União Europeia em 2025.
Segundo o bloco, o Brasil foi excluído por não fornecer garantias quanto à não utilização de antimicrobianos na pecuária. A medida da União Europeia, caso se confirme, vai afetar carnes bovina, de aves, de equinos, ovos, pescado e mel. A decisão da UE entra em vigor em 3 de setembro.
O levantamento de Zero Hora se baseia em dados do Ministério da Agricultura e da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA). Neste recorte, foram considerados carne bovina, aves, equídeos e suínos. Ovos não foram vendidos para a União Europeia no ano passado. As exportações de pescado do Brasil para o bloco estão suspensas desde 2018.
O maior impacto para o RS seria na venda de frangos. Em todo o ano passado, foram vendidas quase 27 mil toneladas para a União Europeia, o que rendeu US$ 102 milhões.
Associação espera reversão
Em termos financeiros, o bloco foi responsável por 8% das vendas internacionais do RS. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) está otimista com a reversão do quadro. Acha que será possível convencer os europeus de que as empresas brasileiras não estão usando antimicrobianos proibidos na promoção de crescimento animal.
No mercado interno, o presidente da ABPA, Ricardo Santin, acredita que não haverá grande impacto:
— O Brasil e o Rio Grande do Sul passaram seis meses inteiros do ano passado sem ter vendas (de aves) e isso não mexeu no mercado interno. A gente consegue redirecionar essas vendas para outras partes do mundo sem prejudicar o equilíbrio no mercado interno e sem também ter que reduzir a produção dos nossos produtores.
O segundo segmento que seria mais impactado no Rio Grande do Sul seria o de carne bovina. O Estado vendeu 2,1 mil toneladas para a União Europeia no ano passado, faturando US$ 13,5 milhões. A União Europeia respondeu por aproximadamente 3% do faturamento das exportações de carne bovina do RS em 2025, e a 2,2% do total de quilos vendidos. O setor enfrenta competição de países como Uruguai e Argentina, que seguem autorizados a vender para a União Europeia.
— Mas esses países não têm volume suficiente para compensar a eventual perda de mercado por parte do Brasil — explica o coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Júlio Barcellos.
Conforme Barcellos, o ritmo de compras de carne bovina pela União Europeia vem crescendo nos últimos anos. Os cortes mais adquiridos pelos europeus são os do traseiro, como contrafilé, coxão, alcatra, filé e picanha, que também remuneram melhor o produtor.
Prática que levou à suspensão é proibida também no Brasil
Para a Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), a iniciativa da União Europeia de retirar o Brasil da lista de países autorizados a vender produtos de origem animal ao bloco tem componente mais político do que técnico. A entidade afirma que o uso de antimicrobianos como estimulador de crescimento e de ganho na produção não é uma prática da agropecuária brasileira, sendo proibida pela legislação e presente em portarias do Ministério da Agricultura e Pecuária.
— O acordo entre o Mercosul e a União Europeia entrou em vigência provisória no dia 1º de maio. Não deu duas semanas e já temos uma questão sanitária relativamente complexa, que não é uma questão tarifária. Tenho convicção de que vamos enfrentar outros cenários como esse porque os governantes lá precisam mostrar serviço para um setor que é muito sensível à competição com a gente — analisa Renan Hein dos Santos, assessor de Relações Internacionais da Farsul.
Em todo o ano passado, o Rio Grande do Sul vendeu também 980 toneladas de carne de cavalo (US$ 4,3 milhões de faturamento) e 209 toneladas de carne suína (US$ 842 mil) à UE.



