Mesmo em um cenário de avanço dos biocombustíveis, crescimento das vendas de eletrificados e consolidação dos modelos flex, quatro em cada 10 veículos da frota em circulação no Rio Grande do Sul ainda são movidos exclusivamente a gasolina. E parte desse público acompanha com atenção e apreensão os planos do governo federal de elevar o percentual de etanol anidro misturado à gasolina.
De um lado, o governo federal destaca os ganhos em autossuficiência e descarbonização. Do outro, proprietários de veículos mais antigos ou importados não convertidos ao sistema flex e parte do setor automotivo temem que concentrações maiores de etanol possam provocar falhas mecânicas e acelerar o desgaste de componentes.
Levantamento do Detran aponta que o Rio Grande do Sul registrava 3,4 milhões de veículos movidos exclusivamente a gasolina em abril deste ano. O grupo representa cerca de 42% do total da frota em circulação no Estado (8,1 milhões). Os dados levam em conta diferentes tipos, como automóveis de passeio, motocicletas, veículos pesados e utilitários. Entre os modelos movidos apenas a gasolina estão desde veículos mais antigos até importados que não adotam tecnologia flex.

Evolução
- Mesmo com patamar elevado dentro do total da frota, os veículos 100% a gasolina vem diminuindo sua participação nos últimos anos, ainda que de forma lenta.
- Por exemplo, em abril de 2016, esse grupo ocupava 54,11% do total de veículos rodando no Estado.
O economista Raphael Galante, da Oikonomia Consultoria Automotiva, afirma que o Rio Grande do Sul possui uma das maiores distribuições de veículos por residência do país. Por ser um Estado onde a maioria dos domicílios já possui um veículo, a renovação da frota não ocorre de forma tão acelerada quanto em regiões onde o mercado ainda está em expansão inicial, segundo o especialista.
Além disso, o fato de o Estado ter um poder aquisitivo um pouco maior faz com que exista um mercado aquecido para veículos importados, movidos exclusivamente a gasolina, segundo Galante.
Impacto ambiental
O possível aumento da mistura de etanol na gasolina, dos atuais 30% para 32%, tem como pano de fundo o conflito no Oriente Médio, que pressiona a produção e o transporte de petróleo no mundo. Ao aumentar o percentual do etanol na gasolina, o governo entende que a medida ajuda o país a caminhar para a autossuficiência do combustível e reduzir o impacto ocasionado pelas oscilações da indústria petroleira. Além disso, essa ação também teria potencial de diminuir o impacto ambiental provocado pela queima de combustíveis fósseis.
“A medida tem potencial de reduzir em cerca de 500 milhões de litros mensais a necessidade de importação de gasolina, volume suficiente para zerar a dependência externa da importação de combustível e colocar o Brasil, pela primeira vez, em condição de autossuficiência”, destaca texto do Ministério de Minas e Energia sobre o tema, publicado no final de abril.
Receio com falhas mecânicas, aumento de consumo e desgaste de peças
No entanto, na outra ponta, a indústria automotiva pondera que seriam necessários mais testes antes da implementação desse novo percentual. Nos últimos dias, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) e outras entidades ligadas ao setor enviaram ao Ministério de Minas e Energia alertas no sentido de que a frota circulante não foi desenvolvida considerando teores mais elevados de biocombustíveis, segundo a Folha de S. Paulo.
Esse temor também permeia donos de veículos abastecidos exclusivamente a gasolina, seja os proprietários de modelos mais antigos ou importados não projetados para a tecnologia flex. Isso porque veículos não adaptados para misturas com maior teor de etanol podem apresentar falhas de funcionamento, aumento de consumo e aceleração na degradação de peças, segundo especialistas.
Bernardo Jacques, instrutor de Educação Profissional do Senai Automotivo Porto Alegre, afirma que, nos veículos movidos exclusivamente a gasolina, principalmente os mais antigos, alguns sintomas, como dificuldade na partida em dias frios, podem ser observados em razão de aumento da mistura:
— O proprietário vai perceber que, em dias mais frios, quando o veículo liga, fica trepidando um pouco até a injeção se adaptar e identificar que aquela mistura é gasolina com etanol. E o consumo de combustível vai aumentar também.
A maior quantidade de etanol também pode acelerar o desgaste de alguns componentes e causar oxidação no sistema de escapamento, caso o veículo percorra trajetos curtos que não permitam a evaporação da água condensada. Isso não ocorre de forma rápida, mas tende a ser acelerado por falta de manutenção preventiva, segundo Jacques. Isso acontece principalmente em sistemas não projetados para etanol.
O especialista também destaca que veículos nacionais e importados que contêm o sistema flex não sofrem interferência no funcionamento mecânico, porque contam com sistema de injeção eletrônica que identifica a mistura e se adaptam. O efeito percebido é apenas um aumento no consumo de combustível.

Efeito ambiental
No entanto, mesmo que parte da frota ainda seja movida apenas a gasolina, o instrutor reforça a importância da mistura do biocombustível para uma transição energética mais sustentável:
— Vai reduzir a quantidade de carbono e a emissão de poluentes. Então é importante ter essa consciência de redução de poluentes, de um combustível "verde".
O Sindicato da Indústria da Reparação de Veículos e Acessórios no Estado (Sindirepa-RS) avalia que o aumento da mistura pode causar "perda de performance e consumo ou até danos técnicos dependendo o projeto que o fabricante estabeleceu".
A entidade alerta usar gasolina de melhor qualidade, não deixar o carro parado por muito tempo com a mistura no tanque e realizar a troca preventiva do filtro de combustível ajudam a mitigar esses efeitos.
Proprietários sentem efeito no dia a dia
Entre donos de veículos movidos apenas a gasolina, esses sintomas são citados com certa frequência, principalmente em dias mais frios. O policial militar Emanuel Fraga, 61 anos, é um desses condutores. Dono de um Suzuki Grand Vitara 2011/2012, ele relata alguns transtornos, como aumento de consumo e intervalos menores entre idas ao mecânico.
— Sinto falhas na partida a frio, perda de potência e aumento considerável no consumo. Pode-se dizer que em média aumentou quase 30% a mais — pontua.
Esse cenário já coloca Fraga em uma posição na qual ele avalia cada vez mais a troca por um modelo com sistema flex.
Transtornos também são observados de forma considerável em motocicletas abastecidas apenas a gasolina, segundo o Sindirepa-RS. O fato de ser um veículo mais compacto, leve e com resposta mais sensível, falhas e engasgos são sentidos com mais clareza, segundo a entidade.
Proprietário de duas motos com sistema de abastecimento exclusivo a gasolina, o engenheiro mecânico Alexandre Ruga, que também é diretor do Sindirepa-RS, sente esses efeitos nos seus veículos. Como usa as motos como lazer, principalmente nos fins de semana, tenta driblar esse transtorno com uso de gasolina premium:
— Sou motociclista por paixão. Uso mais no fim de semana. O meu custo com abastecimento é maior, mas tenho com esse combustível um rendimento melhor. Então eu tenho mais prazer na condução da motocicleta.
O aumento do percentual de etanol na gasolina precisa passar pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE). A reunião para tratar do tema estava programada para o início deste mês, mas ainda não ocorreu. Em nota, o Ministério de Minas e Energia (MME) informou que "o CNPE ainda se reunirá para apreciar a medida proposta e considerará todos os aspectos relevantes para essa decisão". No entanto, não estipulou uma data.



