
Cada vez mais presentes no trânsito dos principais centros urbanos, os carros eletrificados avançam na fatia de mercado de veículos zero-quilômetro vendidos no Rio Grande do Sul. No primeiro trimestre deste ano, quatro dos 20 automóveis mais vendidos no Estado eram dessa categoria — três a mais do que no ano passado. Além disso, um desses modelos figura no top 3 de vendas de automóveis. Os dados são do Sincodiv-RS/Fenabrave, entidade que representa concessionárias e distribuidoras no Estado.
O resultado do primeiro trimestre indica uma evolução sólida em relação ao mesmo período do ano passado. No acumulado de janeiro a março de 2025, apenas um veículo eletrificado — o BYD Dolphin Mini — figurava entre os 20 mais vendidos, ocupando a 18ª posição. Já em 2026, o modelo ganhou a companhia de outros três: BYD Dolphin, BYD Song e GWM Haval H6. Além disso, o Dolphin Mini subiu no ranking, passando da 18ª para a 3ª colocação. Esse levantamento leva em conta apenas automóveis, não colocando na lista comerciais leves e veículos pesados.
A mudança de cenário, com maior participação dos eletrificados no topo da lista, responde a uma conjunção de fatores, segundo especialistas e integrantes do mercado. O presidente do Sincodiv-RS/Fenabrave, Jefferson Fürstenau, afirma que, nos últimos anos, esses modelos já vinham ganhando protagonismo, impulsionados por preços mais competitivos e incentivos, como a isenção do Imposto sobre a Propriedade de Veículos Automotores (IPVA).
No entanto, neste ano, a escalada do conflito do Oriente Médio e a repercussão nos preços dos combustíveis podem ter incentivado esse mercado, segundo o executivo:
— Esse movimento começou no início deste ano, em fevereiro, mesmo antes da disparada do combustível. E, obviamente, isso se confirmou, teve uma corrida por veículos híbridos e elétricos após o anúncio da guerra no Irã, com a previsão de uma alta na gasolina. Então, teve essa movimentação de mercado.
Fürstenau também cita a influência dos motoristas de aplicativo nesse processo, destacando que há uma migração expressiva de profissionais que atuam nesse tipo de plataforma para os carros elétricos em busca de economia.
— O total de venda de veículos de passeio no Rio Grande do Sul nesse primeiro trimestre foi de 21 mil. Desses 21 mil, 5.218 já são veículos eletrificados, ou seja, mais de 20% — reforça Fürstenau.
No topo
- Além de ocupar a terceira colocação em vendas no trimestre, o BYD Dolphin Mini foi o automóvel mais vendido no Estado em fevereiro
- O veículo é uma versão mais compacta e econômica do Dolphin
- No Estado, o preço médio do veículo é R$ 119.990, segundo o Sincodiv-RS/Fenabrave
Mesmo com valor acima dos R$ 100 mil, os veículos elétricos de entrada ainda são competitivos em um contexto em que os veículos populares não estão mais no portfólio das montadoras. Com isso, acabam se tornando mais viáveis por parte do público, segundo especialistas.
Concorrência e preço mais competitivo
O professor Antônio Jorge Martins, coordenador acadêmico de cursos na área automotiva da Fundação Getulio Vargas (FGV), também cita esse efeito do conflito no Oriente Médio como um estímulo para a aceleração da venda de elétricos. Mas destaca o avanço em variedade de marcas e modelos, principalmente de montadoras chinesas, no mercado brasileiro.
Com maior concorrência, existe espaço para preços mais convidativos, que atraem mais clientes para esse tipo de automóvel, segundo o docente.
— As marcas chinesas acabam penetrando cada vez mais em diversos países porque possuem mais tecnologia embarcada em seus veículos, acompanhada de preços mais competitivos. Isso faz com que até as marcas que já estão estabelecidas nos respectivos países comecem a se movimentar de uma forma mais intensa, no sentido de acompanhar a evolução tecnológica e até de competitividade dessas marcas chinesas — diz Martins.
País
- No Brasil, o movimento dos eletrificados entre os 20 mais vendidos foi parecido
- No primeiro trimestre de 2026, esse tipo de automóvel ocupa três posições no top 20
- No mesmo período do ano passado, era apenas um no ranking
Futuro
Nos últimos dias, a guerra no Oriente Médio passou por idas e vindas, com ultimato dos Estados Unidos contra o Irã, acordo de cessar-fogo, sinalização de abertura do Estreito de Ormuz e incertezas sobre a efetividade da suspensão do conflito. O presidente do Sincodiv-RS/Fenabrave destaca que esse ambiente impede uma estimativa mais certeira sobre o mercado de eletrificados no Estado.
— Estamos num momento de mercado e de mundo em que tudo pode mudar. Essas tendências vão ser um reflexo daquilo que vai acontecer lá no Irã. Se nós tivermos a continuidade da guerra, se nós tivermos um Estreito de Ormuz fechado, óbvio que isso vai fazer com que se tenha um movimento maior para os veículos elétricos e eletrificados. Caso isso não ocorra, a tendência é que dê uma estabilizada — comenta Fürstenau.
No longo prazo, o avanço dos veículos 100% elétricos depende de fatores mais estruturais, segundo o professor Antônio Jorge Martins.
— Eu enxergo um fortalecimento dos veículos híbridos daqui para frente. Porque aquelas barreiras para os veículos elétricos continuam existindo no que concerne a um custo maior de reposição de baterias. Isso é um ponto extremamente relevante para quem está adquirindo um carro novo. E você ainda não tem um atendimento expressivo para recarga muito rápida — avalia o especialista da FGV.

