
Há exatos dois meses, o mundo era surpreendido por uma escalada de conflito no Oriente Médio. Em uma ação coordenada, Estados Unidos e Israel entraram em uma nova frente de batalha contra o Irã. Desde aquele 28 de fevereiro, o tráfego no Estreito de Ormuz, um dos corredores mais importantes no escoamento de petróleo e gás natural, ainda não voltou à normalidade, afetando preços e aumentando a incerteza na economia mundial.
No Brasil, ainda que com menos intensidade ante outras nações, a pressão do conflito também é sentida em alguns itens usados diariamente pela população.
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que o impacto prático mais visível ocorre nos preços dos combustíveis. No entanto, também já começa a ser percebido nos alimentos, mesmo que o efeito cheio leve mais tempo.
Principais impactos:
Combustíveis e transportes
Um dos efeitos mais visíveis do novo capítulo do conflito apareceu nas bombas dos postos de combustíveis. Com o fechamento do Estreito de Ormuz, o transporte de parte do petróleo foi interrompido, criando incertezas no setor de energia, que afetou os preços de alguns produtos, principalmente diesel e gasolina. Além de aumentar os preços de importação, a dificuldade logística também cria cenário marcado por especulação e insegurança sobre abastecimento no setor, o que afeta os preços, segundo analistas.
No Brasil, o óleo diesel comum aumentou 19,57% desde o começo da guerra, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), levando em conta os dados mais recentes. No Rio Grande do Sul, a alta foi de 15,93%.
A gasolina comum também registrou elevação, de 7,01%, no período pesquisado no país. No Estado, subiu em média 4,81%. Veja no gráfico:
— O Estreito de Ormuz viabiliza o transporte de 20% do petróleo global. Sem ele, a oferta é diretamente impactada e os preços do Brent (referência mundial para o petróleo) sobem no globo todo e isso abre margem para repasses de preços mais elevados por parte de distribuidoras e postos, mesmo que a Petrobras esteja segurando repasses mais intensos — explica Rodolpho Sartori, economista da Austin Rating.
O especialista destaca que o pico maior nos preços dos combustíveis foi registrado logo no início do conflito. Agora, já apresentam certa estabilidade nas últimas semanas após intervenções do governo para tentar amortecer a alta, como subvenção no preço do diesel importado e desonerações.
— O preço de todos os combustíveis teve queda de 11/04 a 18/04. Em média, a queda foi de 1,5%. Isso quer dizer que o choque “direto na bomba” passou ou está passando de forma até rápida, mas isso não quer dizer que o choque do petróleo como um todo está resolvido — analisa Sartori.
O presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis e Lubrificantes no Rio Grande do Sul (Sulpetro), Fabricio Severo Braz, destaca que a majoração no diesel ocorre em parte pelo fato de o país comprar parte do produto no mercado internacional:
— A gente notou um pico de aumento logo no início da guerra. Isso impactou diretamente e principalmente no diesel, porque o Brasil importa ainda 30% do que é consumido no país. Refinarias e distribuidoras foram impactadas, e isso chegou à ponta, na revenda, nos postos.
No entanto, Braz também avalia que esse choque foi maior logo nas primeiras semanas após o início da tensão militar. Agora, o cenário mostra preços mais estáveis.
O IPCA de março apontou ainda aumento de 6,08% na passagem aérea. Ainda não está claro se esse salto já carrega o peso da guerra. Mas o setor teme avanços em razão do aumento do preço dos combustíveis, incluindo o querosene de aviação. O gerente do IPCA no IBGE, Fernando Gonçalves, observou, em comunicado na época, que “em alguns subitens, especialmente nos combustíveis, já se sente o efeito das incertezas no cenário internacional”.
Alimentos e inflação
Essa pressão também já começou a ser percebida na inflação, mesmo que de forma mais moderada. Em março, o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — indicador oficial de inflação do país — subiu 0,88%, puxado pelos grupos Transportes e Alimentação e bebidas que, juntos, responderam por 76% do IPCA naquele mês.
Como boa parte dos produtos comercializados no país são escoados pelo meio rodoviário, via caminhões, qualquer elevação no preço do diesel acaba respingando nos preços de alimentos consumidos pela população, principalmente os perecíveis, que são mais difíceis de estocar por longos períodos. O IPCA de março, por exemplo, mostrou que os subitens Leite longa vida e tomate tiveram as elevações de preços mais importantes dentro do ramo de alimentação.
O professor do Programa de Pós-graduação profissional em Economia (PPECO) da UFRGS Mauricio Weiss afirma que esse efeito nos alimentos deu uma amostra na inflação de março. No entanto, os dados mais atualizados ainda não mostram de forma completa o efeito da guerra. Isso deve ficar mais claro nos dados de abril e dos meses subsequentes.
— É um efeito indireto, mas importante. A gente não mede o impacto diretamente do diesel na inflação, mas vai afetar o preço dos alimentos, dos transportes e dos bens de consumo em geral — destaca.
Pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), Francisco Pessoa Faria também afirma que ainda é difícil ter uma clareza maior sobre o peso da guerra nos preços dos alimentos, porque os dados mais recentes de inflação ainda não pegam todo o efeito. Além disso, os alimentos já estavam pressionados por outros fatores, como problemas no campo e questões climáticas.
— Já havia outras causas que estavam levando ao aumento do preço dos alimentos. A guerra vai trazer um adicional de aumento.
Câmbio
Na contramão dos efeitos negativos, o câmbio apresentou movimento positivo no Brasil após o início do conflito. Na casa dos R$ 5,20 logo no estouro da guerra, o dólar arrefeceu e baixou dos R$ 5 nas últimas semanas.
O economista da Austin Rating Rodolpho Sartori afirma que a guerra aumenta as incertezas que já existiam sobre o segundo governo Trump, o que ajuda no fortalecimento do real contra o dólar. Além disso, o fato de o Brasil estar bem posicionado no setor energético, tanto pela produção de petróleo quanto pelo protagonismo em alternativas aos combustíveis fósseis, também ajuda nesse sentido.
— A manutenção do câmbio próximo de R$ 5 é bastante positiva. Há uma possibilidade de contrabalanceamento de preços via câmbio. A valorização cambial pode tornar os repasses menos intensos do que seriam em caso de câmbio menos valorizado — complementa Sartori.
Próximos meses
Especialistas entendem que a intensidade da pressão da guerra sobre os produtos no Brasil nos próximos meses depende de como a guerra vai evoluir. Se um acordo não for firmado no curto prazo, os efeitos negativos devem seguir aparecendo na economia como um todo.
O economista da Austin Rating estima que os setores da economia dependentes de diesel e gasolina, como serviços que envolvem frete, ainda devem ser impactados nos próximos meses de forma mais direta. Além disso, outros setores devem ser afetados indiretamente.
— O Brasil, como um país dependente de rodovias e automóveis, tem seu custo de produção muito associado ao custo dos transportes. Assim sendo, os repasses aos produtos finais em varejo ainda devem acontecer. O custo da guerra não ficará restrito aos produtores ou aos setores de transporte/frete — projeta.
Além disso, Sartori destaca possíveis efeitos sobre fertilizantes. Boa parte desses produtos saem da região onde se localiza Ormuz, o que provoca escassez em meio ao conflito. Isso tende a repercutir sobre o setor agrícola e também nos preços dos alimentos.
— Para os próximos meses, esperamos repasses para outros setores da economia, como alimentos, produtos industrializados e serviços, mas que devem ser menos intensos que a alta dos preços dos combustíveis observada nos últimos dois meses. O fato é que ainda haverá correção de preços na economia e chegará ao consumidor via produtos e não apenas combustíveis — complementa o economista.
O pesquisador Francisco Pessoa Faria afirma que, dependendo de quanto tempo a guerra durar e do tamanho do aumento dos custos no setor de petróleo, existe potencial de aumento nos ramos de bens de consumo e de lazer. No entanto, reforça que esse efeito depende dos próximos capítulos da tensão militar e dos efeitos ligados ao conflito.
No âmbito dos combustíveis, o presidente do Sulpetro estima estabilidade nos preços, mas destaca que isso depende de uma resolução para o conflito. Caso a situação não evolua, o cenário é incerto.




