
Desde que Estados Unidos e Israel realizaram uma série de ataques militares ao Irã, no último sábado (28), o mundo assiste com apreensão ao desenvolvimento de mais uma guerra no Oriente Médio. Com a escalada observada nos últimos dias, os efeitos do conflito têm sido cada vez mais sentidos em outros países, inclusive no Brasil.
Nesta sexta-feira (6), o confronto militar entre os países chegou ao sétimo dia. Além dos ataques diretos entre Irã e Israel, o conflito também tem se espalhado por nações como Líbano, Catar, Bahrein e Emirados Árabes Unidos.
Com a expansão da guerra, aspectos logísticos e econômicos no mercado internacional já estão sendo afetados. O conflito, além de também aumentar a volatilidade do câmbio, impacta diretamente o preço de commodities como o petróleo, o que se reflete na oferta de combustíveis.
Além disso, em razão da continuidade dos ataques, o espaço aéreo e os aeroportos de alguns países seguem fechados, gerando ainda mais dificuldades para quem precisa se deslocar pelos países afetados pelo conflito, e também dúvidas em quem já tinha viagens marcadas para a região.
Veja a seguir alguns dos efeitos da guerra no Oriente Médio que já são sentidos no dia a dia dos brasileiros e gaúchos.
Combustíveis
O Irã é o sexto maior produtor de petróleo do mundo. Além disso, mais de 20% de todo o petróleo consumido mundialmente passa pela rota do Estreito de Ormuz, uma via entre o Irã e Omã que liga o Golfo ao Mar Arábico, e que é controlada pelos iranianos. Por isso, o conflito na região gera consequências na venda e distribuição de combustíveis em diversos outros países do planeta.
No Brasil, as distribuidoras, desde meados da semana, já repassavam altas de R$ 0,03 a R$ 0,20 por litro do diesel, justamente em razão do aumento do custo de importação do petróleo. Além disso, a Petrobras estabeleceu cotas de venda do diesel e também da gasolina nas refinarias.
Aqui no Rio Grande do Sul, já são sentidos os primeiros efeitos práticos da guerra em relação aos combustíveis. Conforme a Sulpetro, entidade que representa o comércio varejista de combustíveis no Estado, já foram registrados no Rio Grande do Sul aumentos de R$ 0,30 na gasolina A e R$ 0,62 no diesel repassados aos postos pelas distribuidoras. Esse movimento tende a se refletir nas bombas.
— Percebemos que será inevitável algum tipo de movimentação na ponta da cadeia de combustíveis, a curto prazo — afirma o presidente do Sulpetro, João Carlos Dal’Aqua.
— Sabemos que o repasse não ocorre de forma linear e que o cenário ainda é de muitas incertezas. Mas já recebemos relatos sobre a ocorrência de variações brutas na revenda de combustíveis, especialmente para aqueles que comercializam produtos importados — reforça.
Alimentos e outros itens
A alta do petróleo também impacta no preço de outros itens de consumo, desde itens derivados do próprio petróleo aos alimentos.
— A gente começa a ver a possibilidade de um efeito mais forte na inflação, mas eu diria que os combustíveis, o gás de cozinha, o diesel, a gasolina, esses sobem de preço primeiro. Depois, viriam outros itens, pois os derivados do petróleo chegam à indústria química, contaminando o preço de adubos, fertilizantes, defensivos, chegam à fabricação de plásticos e outras indústrias — destaca André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).
O aumento do custo do petróleo também impacta os valores de frete e distribuição, encarecendo diversos produtos no RS. A empresária Larissa Dotta, proprietária do Tottal Supermercado, em Gravataí, já sente esse efeito na prática:
— Fui fazer compras para o mercado nessa semana e fui surpreendida com o aumento no preço de vários produtos. Aumentos que vão de 5% a mais de 10%, como no queijo, por exemplo, e os fornecedores justificando esses aumentos pelo encarecimento do frete. Infelizmente, alguma parte desse aumento vamos ter que repassar ao consumidor final. A gente segura o máximo que dá.
Investimentos e mercado internacional
A guerra no Oriente Médio também tem repercussões no mercado financeiro internacional. O diretor de pesquisa econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, explica que o momento atual é de crescimento da incerteza em relação ao conflito.
— Para o Brasil e outros emergentes, o risco vem do aumento da incerteza que provoca fuga de recursos (dólares). Porém, vale dizer que o Brasil está melhor posicionado neste momento do que esteve em outros eventos globais que tiveram impactos potenciais semelhantes, ou seja, a economia e mercados brasileiros deverão sentir menos os impactos do que em eventos passados. Por enquanto, ações para baixo, dólar para cima e juro para cima, mas vemos que, numa próxima etapa desta crise, o Brasil pode despontar como alternativa para investimentos internacionais — observa Oliveira.
Em complemento, o diretor da Bossa Invest, Antonio Patrus, analisa o panorama de investimentos à luz do cenário internacional atual:
— Para os investimentos, o cenário passa a exigir mais seletividade. A renda fixa tende a ganhar atratividade quando o ambiente global se torna mais incerto, especialmente em países com juros elevados, como o Brasil. Já a bolsa costuma registrar maior volatilidade, com investidores reavaliando risco e priorizando setores mais resilientes ou ligados a commodities.
Viagens
Outro impacto já sentido desde o início da guerra é a consequência do conflito em relação a viagens internacionais. Nesta última semana, milhares de voos foram cancelados em países do Oriente Médio, que tiveram aeroportos sem operação e mesmo seus espaços aéreos temporariamente fechados.
Ainda no sábado, dia do início dos ataques, o Itamaraty divulgou nota recomendando que os brasileiros ficassem atentos às orientações de segurança das autoridades locais nos países da região do conflito. Já na terça-feira (3), o governo brasileiro emitiu um alerta recomendando que não fossem realizadas viagens a:
- Irã
- Israel
- Catar
- Kuwait
- Emirados Árabes Unidos
- Bahrein
- Jordânia
- Iraque
- Líbano
- Palestina
- Síria
- Arábia Saudita
Os aeroportos destes países já voltaram a funcionar, mas ainda com restrições. O número de voos segue muito menor do que ocorre normalmente, principalmente em hubs acostumados a receber uma grande quantidade de viajantes internacionais, como Dubai e Abu Dhabi. Os desafios logísticos causados pela guerra já afetaram nestes primeiros dias tanto brasileiros que estavam em trânsito no Exterior quanto estrangeiros que tinham viagens de negócios programadas para o Brasil.
— Quando há fechamento de espaço aéreo por conflitos ou instabilidade na região, o impacto na aviação internacional é imediato. Para quem já está em trânsito e teve o voo cancelado, o primeiro passo é entrar em contato com a companhia aérea para tentar reacomodação em outro voo ou rota alternativa. Também é recomendável acompanhar comunicados oficiais dos aeroportos e, em casos mais complexos, procurar a embaixada ou consulado brasileiro para orientação — afirma o advogado especializado em Direito Migratório Vinícius Bicalho.
O conflito ainda não dá sinais de arrefecimento. Por isso, certas restrições logísticas deverão se manter por algumas semanas ou até meses na região.
— Para quem ainda tem viagem marcada para esses países ou conexões na região, o mais prudente é monitorar a situação e verificar com a companhia aérea a possibilidade de remarcação preventiva. Em cenários de conflito, as decisões mudam rapidamente e a prioridade das autoridades sempre será a segurança do espaço aéreo e dos passageiros — complementa Bicalho.
