
A liquidação extrajudicial do Banco Master revela uma das maiores fraudes do sistema financeiro nacional. A liquidação do Master, Will Bank e do Banco Pleno devem gerar um rombo de R$ 51,8 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC). A Polícia Federal detalha uma estrutura para "maquiagem" de balanços fiscais que utilizava fundos de investimento para inflar artificialmente o patrimônio da instituição. O colapso, iniciado em novembro de 2025, resultou na prisão do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, e numa teia de conexões envolvendo políticos, servidores do Banco Central, ministros de Estado e do Supremo Tribunal Federal.
No centro do esquema está a utilização de ativos inexistentes e a triangulação de recursos com gestoras, como a REAG, liquidada pelo Banco Central em janeiro, para simular liquidez e atrair novos depositantes.
A arquitetura criminosa, dita assim pela Polícia Federal, utilizava uma técnica de circularidade financeira para enganar o mercado e os reguladores da seguinte forma:
- Criação de empresas de fachada que emitiam títulos de dívida, as chamadas debêntures.
- Esses papéis, que na prática não possuíam lastro ou garantia de pagamento, eram inseridos no balanço do banco por valores astronômicos, validados por laudos de auditoria muitas vezes questionáveis.
- Essa manobra permitia que o banco registrasse lucros contábeis inexistentes, inflando seu patrimônio para cumprir as exigências de solidez do Banco Central e ocultar uma insolvência real.
- A partir daí, compravam ativos por quantias muito acima do real valor de mercado, "criando" dinheiro.
- Parte voltava para o Master e parte era distribuída para supostos "laranjas", resultando no enriquecimento da família de Vorcaro.
Banco Master
Essa é a tradução para o que o Banco Central apontou como "sobrevalorização de cotas a partir de precificação não comprovada de carteiras de ativos ilíquidos".
No sistema financeiro tradicional, é virtualmente impossível uma empresa conseguir financiamento 60 vezes maior do que seu capital social sem garantias. A partir daí, compravam ativos por quantias muito acima do real valor de mercado, "criando" dinheiro.
CDBs inflados
Para que essa engrenagem de papel não parasse, o banco precisava de uma fonte constante de dinheiro vivo para manter sua liquidez e financiar a operação. Foi aqui que os Certificados de Depósito Bancário (CDBs) ganharam papel de destaque.
- Ao oferecer taxas de rentabilidade agressivas — muitas vezes as maiores das plataformas de investimento —, o Master atraiu uma legião de investidores de varejo.
- O investidor comum, amparado pela percepção de segurança do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), injetava o capital real que o banco não conseguia gerar com seus próprios ativos "podres".
- Esse fluxo de depósitos criava uma espécie de sobrevida financeira: o dinheiro dos novos poupadores era usado para honrar resgates antigos e custear a expansão agressiva do grupo, transformando o que deveria ser um investimento de baixo risco em um combustível para manter uma estrutura de capital artificial.
Banco de Brasília (BRB) e Fundos de Pensão
O Ministério Público investiga o aporte de R$ 16,7 bilhões feito pelo Banco de Brasília (BRB) no Master entre 2024 e 2025. A instituição, ligada ao governo do Distrito Federal, tentou adquirir o Banco Master ano passado diversas vezes, mas foi barrada pelo Banco Central.
A Polícia Federal quer saber se o BRB adquiriu carteiras de crédito do Master mesmo tendo conhecimento das fragilidades do negócio de Daniel Vorcaro.
Antes da liquidação, o Banco Central identificou que o Master possuía apenas R$ 4 milhões em caixa livre, um valor considerado ínfimo para uma instituição que declarava ativos de R$ 80 bilhões.
Enquanto o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) realiza o ressarcimento de correntistas dentro do limite de R$ 250 mil, o mercado aguarda o posicionamento de Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, sobre a rigidez dos mecanismos de auditoria da CVM e a possível revisão das normas de Basiléia.
Os principais personagens
- Daniel Vorcaro: mentor e ex-controlador. Preso pela Operação Compliance Zero, é acusado de corromper agentes públicos para manter a fraude sob o radar.
- Informantes do BC: servidores de carreira suspeitos de vazar dados sigilosos e antecipar passos do regulador.
- Gestores da REAG e BRB: investigados pela facilitação de fluxos financeiros que irrigaram o caixa do Master em momentos críticos.
Perguntas e respostas sobre o FGC
1. O que é o FGC?
O Fundo Garantidor de Crédito (FGC) é uma entidade privada e sem fins lucrativos que funciona como um "seguro" para depositantes e investidores no Brasil, protegendo seus recursos.
2. Quem mantém o Fundo?
O FGC é mantido por contribuições das próprias instituições financeiras, aumentando a confiança no Sistema Financeiro Nacional.
3. Limites de cobertura
O FGC garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ e por instituição ou conglomerado financeiro, com valor máximo de R$ 1 milhão em um período de quatro anos.
- Na hipótese de ocorrer a liquidação de mais de uma instituição financeira associada em um período de até 4 anos, o valor máximo a ser pago pelo FGC para o mesmo CPF ou CNPJ fica limitado a R$ 1 milhão.
Os investidores estrangeiros têm direito à mesma garantia que o FGC oferece aos investidores brasileiros, seguindo recomendações internacionais. Os depósitos devem ser elegíveis para a garantia do FGC.
4. Produtos financeiros garantidos pelo FGC
- Conta corrente
- Poupança
- Conta salário — Depósitos não movimentáveis por cheque
- CDB e RDB — depósitos a prazo
- LCI — Letras de Crédito Imobiliário
- LCD — Letras de Crédito do Desenvolvimento
- LCA — Letras de Crédito do Agronegócio
- LH — Letras Hipotecárias
- LC — Letras de Câmbio
- Operações compromissadas —Títulos emitidos depois de 8 de março de 2012 por empresa ligada
5. Produtos financeiros não garantidos
- Títulos Públicos — Tesouro Direto
- Título de capitalização
- LIG — Letra Imobiliária Garantida
- LI — Letra Imobiliária
- LF — Letra Financeira
- Fundos de Renda Fixa
- Depósitos no Exterior
- Depósitos judiciais
- Debêntures — Títulos de dívida emitidos por empresas
- CRI — Certificados de Recebíveis Imobiliários
- CRA — Certificados de Recebíveis do Agronegócio
6. Garantia Especial
O FGC também oferece uma garantia especial para os Depósitos a Prazo com Garantia Especial (DPGE), que contempla regras específicas.
Cada DPGE é emitido para apenas um titular, identificado pelo CPF/CNPJ, com impossibilidade de resgate antecipado, além de outras regras previstas no Regulamento FGC.
7. Créditos titulados por associações, condomínios ou entidades
Associações, condomínios e entidades sem personalidade jurídica têm garantia de até R$ 250 mil para todos os seus créditos em uma mesma instituição ou conglomerado financeiro.
8. Conta conjunta
Em contas conjuntas, a garantia é limitada a R$ 250 mil ou ao saldo da conta, se menor que o valor mencionado. Esse valor é dividido igualmente entre os titulares, e cada um recebe sua parte separadamente.
9. Como é feito o pagamento?
O FGC faz o pagamento aos clientes lesados diretamente em contas direcionadas por eles. A solicitação é feita via aplicativo e pelo site da instituição.
O processo de pagamento não é automático. É preciso que o FGC faça o chamamento após seguir processos internos.
Cumprida a etapa de solicitação e assinado um termo com o fundo, o FGC processará o pagamento em até dois dias úteis.
Glossário
- Ativos Podres (Toxic Assets): empréstimos ou investimentos com baixíssima probabilidade de serem pagos. O Master tentou repassar R$ 12,2 bilhões desses ativos para o BRB.
- Basileia (Índice de): regra internacional que define quanto de capital próprio um banco deve ter para cada real emprestado. O Master "maquiava" esse índice para parecer mais sólido do que realmente era.
- Certificado de Depósito Bancário (CDB): título de renda fixa onde o cliente "empresta" dinheiro ao banco. Foi a principal ferramenta do Master para captar recursos de pessoas físicas antes da quebra.
- Debêntures: títulos de dívida emitidos por empresas. O esquema usava fundos da REAG para comprar debêntures de empresas ligadas a Daniel Vorcaro, simulando entrada de caixa.
- Lastro: garantia real de um ativo. A fraude consistia em registrar fundos que não tinham lastro (dinheiro ou bens reais) por trás das promessas de pagamento.
- Massa falida: conjunto de bens e direitos que sobram após a quebra. É o que será vendido para tentar pagar os credores que tinham mais de R$ 250 mil investidos.
- Phishing de Dados: técnica de "pesca" de informações. Daniel Vorcaro é acusado de usar dados vazados da Polícia Federal e Procuradoria-Geral da República












