
Começa a ganhar forma uma conexão formada por 280 quilômetros de cabo submarino, rede de fibra ótica e estruturas terrestres de apoio que vai melhorar a qualidade da internet no Estado e favorecer a criação de um novo ecossistema digital dedicado a atrair data centers e negócios envolvendo streaming, inteligência artificial, serviços financeiros e computação em nuvem.
Já foi construída a estação que vai receber uma extensão do cabo submarino Malbec, estrutura já existente com cerca de 2,5 mil quilômetros de comprimento e que liga Argentina ao Rio de Janeiro e a São Paulo. O prolongamento até Balneário Pinhal e Porto Alegre será a primeira conexão direta do Rio Grande do Sul à malha internacional da internet. Isso vai aumentar a capacidade de fluxo de dados, melhorar a estabilidade do serviço e a experiência do usuário final, consolidando o Estado como ponto estratégico de tecnologia no Cone Sul. O início das operações está previsto para 2027.
A iniciativa é realizada pela empresa V.tal em parceria com a Meta, dona do Facebook e do Instagram, em um investimento de valor não revelado por "razões estratégicas". Já foi concluído, em Balneário Pinhal, o chamado Cable Landing Station (CLS) — estação de ancoragem destinada a receber o cabo que chega do alto-mar, e de onde os dados vão seguir para a Capital por meio de rotas de fibra ótica já existentes e que estão sendo modernizadas, conforme o vice-presidente de Engenharia da V.tal, Cícero Olivieri. A cidade litorânea foi escolhida pela localização estratégica a cerca de cem quilômetros da Capital.
— Com a CLS finalizada, a próxima etapa é iniciar os testes de conectividade entre Balneário Pinhal e Porto Alegre, que serão finalizados em março. Depois disso, os próximos passos incluem a continuidade da construção do cabo submarino Malbec e sua posterior instalação — esclarece Olivieri.
Resumo do cronograma:
Concluído
- Estrutura da Cable Landing Station (CLS), em Balneário Pinhal
Em andamento
- Vistorias e testes da CLS
- Modernização das rotas de fibra ótica Litoral-Capital
Próximos passos
- Concluir testes de conectividade entre Porto Alegre e Balneário Pinhal
- Término da construção do cabo submarino
- Lançamento do cabo no mar e início do funcionamento
A ligação garantirá uma rota direta entre o Estado e a malha internacional de internet, formada por mais de 500 cabos espalhados ao redor do globo. Hoje, os gaúchos dependem de ligações terrestres que levam a São Paulo, de onde o sinal segue para outros pontos. Um trajeto mais curto pode reduzir em alguns milissegundos o tempo necessário para um pacote de dados ser enviado a um servidor e retornar ao usuário. Pode parecer pouco, mas é o suficiente para fazer diferença em aplicativos que exigem alto desempenho, como jogos online.
— Como não temos saída direta para a internet, (o sinal) vai para São Paulo e para um hub (ponto de conexão) em Santos para conectar com outros países, ou até Fortaleza para ter saída para Europa e Estados Unidos. Com o Malbec, ficaremos mais próximos desses outros lugares — explica o coordenador do Programa de Pós-Graduação em Computação Aplicada da Unisinos, Rafael Kunst.
Outra vantagem é que, se houver algum problema na interligação com São Paulo, os gaúchos passarão a contar com um percurso alternativo com grande largura de banda. Isso resulta em maior estabilidade e segurança para uso individual e corporativo.
Capacidade de 20 trilhões de bits por segundo
A nova saída gaúcha para a rede global de comunicações terá uma capacidade de 20 Tbps — isso significa 20 terabits por segundo, ou ainda 20 trilhões de bits por segundo. Considerando que um bit corresponde a uma unidade de informação digital, na prática esse potencial de tráfego representa algo como milhões de transferências de dados simultâneas. Equivale, por exemplo, a um milhão de streamings de vídeos com definição de 4k ao mesmo tempo. Uma analogia permite visualizar melhor o potencial dessa infraestrutura: imagine que cada transmissão de um filme em 4k corresponde a um carro. O cabo submarino oferece um milhão de "faixas de trânsito" para esses veículos viajarem.
— É um bom número, principalmente por se tratar de um primeiro cabo. Mas há hubs (conexões) que chegam a 500 terabits por segundo — compara Kunst.
Um dos principais impactos dessa nova infraestrutura será confirmar o Rio Grande do Sul como ponto de atração de empresas de alta tecnologia. Isso inclui data centers (centros que armazenam, processam e distribuem serviços de internet) de grande porte que já contam com projetos encaminhados na Região Metropolitana. Há um empreendimento bilionário da Scala previsto para Eldorado do Sul e uma unidade da Tecto (empresa vinculada à V.tal) que será erguido na Capital a um custo de aproximadamente R$ 200 milhões.
— Em termos logísticos, o projeto cria uma rota internacional de tráfego de dados no Sul e demais países do Cone Sul, diversifica a infraestrutura existente, amplia a resiliência da conectividade no Brasil, além de atrair empresas de conteúdo, provedores de internet, operadoras e data centers, criando um ecossistema digital na região — acrescenta Olivieri.

Nova ligação vai oferecer melhor experiência online
Rafael Kunst afirma que o usuário comum de computador, smartphone ou outro aparelho conectado à internet terá uma percepção mais clara de melhoria na conexão nos casos em que utilizar aplicativos que exigem alto desempenho, com interação em tempo real ou grande volume de dados. Isso deverá ser sentido entre quem disputa jogos online que envolvem o envio e o retorno de dados como games de tiro, luta ou futebol, por exemplo, em plataformas multijogador.
Internautas que usam serviços menos exigentes, como ouvir música, ver vídeos ou navegar por sites, não deverão notar uma mudança de desempenho significativa quando a nova estrutura entrar em operação.
— Em jogos digitais, uma fração de segundo impacta. Nesse caso, o cabeamento próximo faz diferença porque estamos falando também de tempo de resposta, e não somente em taxa de transmissão (de dados). É diferente de um usuário de streaming, em que os próprios serviços têm tecnologias para compensar pequenas variações ou atrasos (na transmissão) — explica Kunst.
Assim, no caso dos gamers, a melhora de desempenho deve resultar em partidas mais fluidas e com menos atraso entre comando e execução.
Balneário Pinhal recebe sondagens de empresas
A nova conexão de internet ainda não começou a operar, mas Balneário Pinhal já recebe sondagens de empresas de tecnologia interessadas na proximidade com o ponto de chegada do novo cabo submarino. Uma delas, ainda em estágio preliminar, teria intenção de implantar um teleporto na cidade litorânea gaúcha. Um teleporto é uma unidade terrestre que funciona, como o nome sugere, da mesma fora que "porto" para redes de telecomunicações, podendo atuar como ponto de conexão para comunicações via satélite, interconectando-as com estruturas em solo e outras instalações como data centers.
— Esse investimento se daria em uma ordem de R$ 100 milhões. Então, estamos começando a vislumbrar outras perspectivas, com a provável chegada de novas empresas — afirma o prefeito de Balneário Pinhal, Cezar Furini.
O prefeito esclarece que a instalação da CLS não deve resultar em aumento de arrecadação direta para a cidade, já que a legislação não prevê royalties ou alguma outra forma de compensação pela passagem do cabo pela área do município. Mas acredita que o impacto indireto da iniciativa deverá seguir atraindo outros investimentos e estimulando a capacitação da mão de obra local em áreas de tecnologia.
— Abriram-se novas portas para a nossa cidade — comemora Furini.

