
Além dos combustíveis — uma grande parte do petróleo consumido no mundo sai do Irã — outras relações comerciais podem ser afetadas como reflexo do conflito bélico instaurado no sábado (28) entre os Estados Unidos e o país do Oriente Médio. A partir dos ataques norte-americanos, o fluxo de importantes produtos no comércio mundial foi interrompido, levando a uma escalada de efeitos que vai da oscilação no preço do petróleo à inflação de alimentos e passa por choque nos investimentos.
Para os especialistas, ainda não se pode estimar com precisão o impacto nos mercados, nem por quanto tempo os efeitos serão sentidos. É preciso aguardar os desdobramentos, diz o economista e pesquisador do Departamento de Economia e Estatística (DEE) da Secretaria de Planejamento, Sérgio Leusin Júnior:
— Vai depender da extensão do conflito e de quanto tempo isso vai levar. É um cenário bastante imprevisível. O Irã é um país com problemas econômicos e tensões internas há bastante tempo, então é um país que está sendo atacado em um momento de fragilidade. Olhando para este cenário, dá para se dizer que não vai ser uma guerra longa, mas ninguém dizia que a guerra da Ucrânia ia durar o tempo que está durando.
Entenda os efeitos do conflito
Combustíveis
O Irã é o sexto maior produtor de petróleo do mundo. Qualquer conflito de ordem militar envolvendo o país implica em aumento nos preços dos barris, o que tende a elevar o valor da gasolina e a inflação geral. Além disso, mais de 20% de todo o petróleo consumido mundialmente passa pela rota do Estreito de Ormuz, uma via entre o Irã e Omã que liga o Golfo ao Mar Arábico, fechada parcialmente desde os ataques.
Isso já ocorre no barril do petróleo tipo Brent, referência internacional, que nesta segunda-feira (2) alcançava mais de 7% de alta nos principais mercados globais. Países integrantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) anunciaram que vão aumentar a oferta de petróleo bruto para conter a crise. No entanto, mesmo com o ajuste, o mercado seguirá sensível.
Na prática, quanto menor o fornecimento e maior a valorização, mais pressionado o comércio de petróleo no mundo.
A alta do preço do petróleo tende a elevar o custo da gasolina e do diesel. No Brasil, com a logística centrada no transporte rodoviário, as variações nos combustíveis tendem a afetar quase todos os mercados, inclusive o de alimentos.
Balança comercial
As trocas comerciais entre o Brasil e o Irã somaram cerca de US$ 3 bilhões em 2025, concentradas, especialmente, no agronegócio. O país foi o quinto principal destino das exportações brasileiras no Oriente Médio, e o 31º entre os demais parceiros comerciais do Brasil no ano passado.
Ainda que a participação seja menor em relação a outros players, alguns produtos têm papel importante na pauta, entre eles o milho, o grão e o farelo de soja, e a ureia, utilizada como fertilizante.
O milho brasileiro representou 67,9% do total exportado ao Irã, segunda a base de dados do Agrostat Brasil. Foram mais de US$ 1,9 bilhão no ano passado, consolidando o país como um dos principais destinos do grão brasileiro.
Na produção embarcada de lá para cá, o Irã é um exportador global relevante de fertilizantes nitrogenados, que são a base da agricultura brasileira. Embora países como Rússia, China e Canadá sejam fornecedores mais importantes neste ramo, qualquer alteração na logística global de fornecimento do produto tem efeitos nos custos de produção e na oferta de insumos. A guerra da Ucrânia, por exemplo, modificou este cenário. Hoje, o Brasil é dependente da importação de 90% dos fertilizantes que consome.
O pesquisador do DEE analisa que, normalmente, os produtos alimentícios e agrícolas costumam ficar fora de sanções. A princípio, portanto, não haveria impacto nesses itens, dado do contexto histórico. No entanto, não é possível prever com exatidão:
— Vivemos períodos um pouco diferentes, então pode haver outras pressões. O Irã agora é membro do Brics, por exemplo, então pode haver tensões cruzadas. Por enquanto, o impacto está mais relacionado ao transporte marítimo do que aos produtos em si — explica Leusin.
No Rio Grande do Sul, os impactos da balança comercial firmada com o Irã também se dão na pauta agropecuária. No entanto, a relação comercial gaúcha com o país é oscilante. Embora houvesse participações importantes no passado, a parcela de negócios entre as nações vem caindo nos últimos. Em 2024, o destino representou apenas 2,2% das exportações gaúchas. Em 2025, não chegou a 1%, segundo o DEE.
Investimentos
O choque das oscilações no petróleo tem reflexos imediatos em bolsas internacionais, o que também afeta os investimentos. Com o aumento da incerteza, aumenta-se o prêmio de risco, e o mercado de ações, por sua própria natureza, tem um desempenho pior, explica o diretor de pesquisa econômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira.
Para o analista, a imprevisibilidade em torno do conflito é o maior fator de risco para o mercado de investimentos neste momento. A reação natural dos investidores é pela busca de ativos com menor risco, como os metais preciosos, em especial o ouro e a platina, e por moedas como o franco suíço e o iene japonês.
— A princípio, ninguém sabe dizer quanto tempo vai durar. Essa incerteza é o que está indo para os preços dos ativos. As metálicas vêm tendo desempenho bom, porque acabam sendo substitutivas nos Bancos Centrais nos momentos em que ocorrem incertezas — explica Oliveira.
A pressão sobre o preço do petróleo deve ter impacto relevante sobre a inflação, especialmente nos Estados Unidos, onde a alta de preços já vem mostrando forte resistência. Conforme o especialista, um choque persistente neste sentido pode dificultar o controle inflacionário e reduzir o espaço para cortes de juros pelo Federal Reserve e por outros bancos centrais.
No caso do Brasil, onde a taxa básica atualmente está em 15%, o efeito no juro também vai depender dos desdobramentos não só geopolíticos, mas também domésticos.
— Num primeiro momento, os bancos centrais em geral vão ter atitudes mais cautelosas. Será que o Brasil vai exportar mais, e com entrada maior de dólares o real vai ganhando valor? Não sabemos. É difícil precificar — diz o analista.





