
A busca por automóveis com mais idade está aquecida no Rio Grande do Sul. No mercado de seminovos e usados, os veículos com 13 anos ou mais representaram quase metade das vendas e mostraram a maior evolução nessa fatia nos últimos anos. Fim dos tradicionais carros populares e diminuição do poder de compra estão entre os principais fatores que explicam essa alta, segundo integrantes do setor e especialistas.
Os dados
- Dos 84.340 veículos seminovos ou usados comercializados em janeiro deste ano, 49,25% tinham 13 anos ou mais, segundo dados da Federação Nacional das Associações dos Revendedores de Veículos Automotores (Fenauto).
- Em janeiro de 2022, esse percentual estava em 44,18%.
- Ou seja, o grupo dos “velhinhos”, como são apelidados pela Fenauto, avançou cinco pontos percentuais nesse intervalo de tempo — maior avanço entre as faixas etárias.
- Os dados levam em conta todos os portes de veículos, mas automóveis e comerciais leves são maioria, com cerca de 80% do total.
Presidente da Associação dos Revendedores de Veículos Automotores do RS (Agenciauto/Fenauto-RS), Rodrigo Dotto, afirma que a subida no preço dos veículos zero-quilômetro está por trás desse movimento:
— É um reflexo direto do aumento expressivo do preço dos carros novos nos últimos anos. O consumidor não necessariamente quer um carro mais antigo, ele está fazendo um ajuste de faixa. Quem antes comprava um veículo de quatro ou cinco anos, hoje, muitas vezes, precisa buscar um modelo mais antigo para manter a parcela dentro do orçamento.
Dotto destaca que os carros evoluíram muito em qualidade e durabilidade. Com isso, um veículo com 14 anos hoje é muito mais confiável do que um que tivesse a mesma idade há duas décadas, segundo o dirigente. Isso também pesa na hora da escolha. Alguns clientes preferem um veículo mais robusto, mesmo que mais antigo, do que um mais novo, mas de porte menor.
O planejador financeiro Edinei Tonel dos Santos, 40 anos, colocou essa relação de custo-benefício na balança na hora de trocar de carro. Ele comprou recentemente um Honda CR-V, de 2012. Busca por veículo com porte maior, completo, que passasse autoridade e ajudasse também no trabalho da esposa, que tem uma loja, baseou a escolha, segundo Santos. Ele entende que não teria isso comprando um carro zero com o mesmo valor que investiu no modelo usado:
— Algumas pessoas falam “você pagou R$ 77 mil, R$ 78 mil em um carro 2012, mas você poderia ter pegado um carro mais novo”. Mas hoje, para meu nicho, nos dois negócios que eu trabalho, é preferível andar com carro 2012 completo que gera mais autoridade do que com um mais novo, que não tem esse porte e diferenciais.
O economista Raphael Galante, da Oikonomia Consultoria Automotiva, afirma que os preços dos veículos dispararam após a pandemia. Como o poder de compra de parte da população não acompanhou esse movimento nos últimos anos, o acesso a automóveis mais novos ficou limitado para alguns clientes:
— É reflexo do aumento constante dos preços dos carros. A minha massa salarial, o meu ganho, não acompanhou esse mesmo ritmo. Então o carro novo que já era difícil, ficou quase impossível. O seminovo de dois ou três anos, que era o factível, começou a ficar difícil.
Vendas gerais
Usados
- Em janeiro, foram comercializados 84.340 veículos usados no Rio Grande do Sul.
- Ante o mesmo mês do ano passado, o setor apresentou queda de 7,5%.
- Segundo o presidente da Agenciauto/Fenauto-RS, a queda é explicada em parte pela base elevada de comparação de janeiro do ano passado, que ainda contava com bom movimento dos meses anteriores e expectativa por melhora no crédito no país, que antecipou algumas compras.
- Apesar do mês de janeiro mais fraco, Dotto projeta um ano bom para vendas, diante de crédito mais acessível.
Novos
- No ramo de zero-quilômetro, foram comercializados 12.816.
- O dado mostra recuo maior, de 13,73% em relação a janeiro de 2025.
- A retração se deve à base de comparação. Janeiro de 2025 teve números mais robustos porque o mercado estava em recuperação, após a enchente histórica que atingiu o RS em 2024, segundo o presidente do Sincodiv-RS/Fenabrave. Além disso, ele vê desaceleração da economia neste começo de 2026.
- Mesmo assim, para a sequência deste ano, o dirigente também estima mercado ainda aquecido.
Impacto nos zero
Nos últimos anos, o Brasil deixou de ter os tradicionais veículos populares no portfólio das principais montadoras. Crescente avanço tecnológico, fim de alguns incentivos, exigências de segurança e responsabilidade ambiental e mudanças de estratégia da indústria deram fim a essa linha de entrada com preço mais acessível. Hoje, o mais comum é encontrar automóveis novos com valores que partem de R$ 70 mil.
Jefferson Fürstenau, presidente do Sincodiv-RS/Fenabrave, entidade que representa concessionárias e distribuidoras, afirma que o fim dessas opções de entrada com preço mais baixo mudou a dinâmica de vendas. Os carros mais antigos, mas que ainda contam com bons atrativos, acabam competindo com os veículos de entrada atuais.
— Esse cliente está buscando um SUV com segurança num preço abaixo de um veículo de entrada. Principalmente no Rio Grande do Sul, o nível de exigência do consumidor aumentou muito, e hoje você tem a necessidade de ter alguns equipamentos no automóvel que no passado você não tinha, até por isso que foi extinto o carro popular — destaca Fürstenau.
O presidente do Sincodiv-RS destaca que esses veículos usados com mais idade competem no mercado com os veículos zero de entrada, com valores que variam entre R$ 70 mil e R$ 90 mil. Não entram em disputa na faixa dos R$ 150 mil, onde estão os SUVs, segmento mais demandado no momento, segundo o dirigente.
Dicas na hora de comprar um usado
- Dê preferência a lojas com CNPJ consolidado e histórico no mercado. Estabelecimentos associados às entidades de setor seguem padrões mais rigorosos e oferecem maior segurança ao consumidor.
- Leve em conta histórico e transparência.
- Escolha o modelo de acordo com sua necessidade real. Avalie se vai usar mais no ambiente urbano ou rodoviário, tamanho da família, consumo e custo de manutenção.
- Leve em conta o custo total, não apenas o preço de compra. Coloque na ponta do lápis itens como seguro, manutenção, consumo e valor de revenda.
- Ano do veículo não é tudo. Um carro um pouco mais antigo, mas bem conservado e com manutenção em dia pode ser melhor negócio do que um mais novo malcuidado.
- Simule o financiamento antes de fechar o negócio. Com o crédito mais competitivo, muitas vezes é possível melhorar o padrão do veículo mantendo uma parcela adequada ao orçamento.
Fonte: Agenciauto/Fenauto-RS




