
Destacado mundialmente como peça-chave da transição energética a partir da produção de combustíveis renováveis, o Brasil tem para esta virada o que se chama de “a faca e o queijo na mão”. Fértil para o cultivo das mais diversas matérias-primas, o país vê avançar a sua capacidade industrial voltada ao setor energético. Isso tudo amparado por pesquisa científica de alto nível que desenvolve cultivares e atesta a eficiência do que é produzido.
Chefe adjunto de pesquisa e desenvolvimento na Embrapa Agroenergia, Bruno Laviola analisa o contexto produtivo do Brasil e as vantagens competitivas frente a outros países. Para o engenheiro agrônomo e pesquisador, há um novo momento enérgico em curso, especialmente pelo potencial de iniciativas gaúchas. O Estado vem ampliando investimentos na produção de combustíveis feitos de grãos e cereais, dando um largo passo na fabricação sustentável brasileira.
— O mercado de biocombustíveis no Rio Grande do Sul vai começar a se desenvolver ainda mais em função dos investimentos privados que estão ocorrendo — projeta.
Confira na entrevista a seguir:
O Brasil se revela como grande protagonista da produção de biocombustíveis. Qual o nosso lugar hoje neste mercado?
O Brasil é um país que já trabalha uma transição energética há muito tempo. Podemos colocar que desde o programa Pro-Álcool, criado na década de 1970, o país já vem investindo em transição energética e biocombustíveis. Ao longo do tempo, implementamos o Programa de Nacional de Biodiesel e recentemente foi aprovada a Lei Combustíveis do Futuro, que também regulamenta o uso de outros biocombustíveis, como o SAF e o diesel renovável.
Com isso, o Brasil vai trabalhando para que, muito em breve, seja o maior produtor mundial e consumidor de biocombustíveis como estratégia para contribuir na descarbonização da economia.
Isso nos coloca em posição diferente em relação a outros países.
Sim. Embora, por exemplo, os Estados Unidos sejam o maior produtor mundial de etanol, grande parte da produção de lá é feita a partir do grão de milho. Aqui no Brasil temos a cana-de-açúcar, uma área plantada em torno de 8 a 9 milhões de hectares, e com um potencial que se você considerar a produção de etanol por hectare, é de três a quatro vezes maior que a do etanol de milho nos Estados Unidos.
Além disso, aproveitando a área de safrinha (de segunda safra), o Brasil também vem crescendo na produção de etanol de milho. Então, tudo vem caminhando para que o país realmente seja um dos maiores produtores mundiais. Em pouco tempo será o maior produtor mundial de etanol, de biodiesel, de biodiesel renovável, muito em função da nossa agricultura.
Temos aqui condições de produzir alimentos e de produzir energia, sem que um venha a competir com o outro. Isso coloca o Brasil numa posição diferenciada.
A Lei do Combustível do Futuro foi sancionada em 2024, prometendo incentivar investimentos no setor privado até 2030. O que foi possível avançar desde então?
No ano passado, já tivemos aumento na mistura de etanol na gasolina e, de acordo com o programa, pode chegar a até 35%. Saiu dos 27,5% e chegou a 30%, aumentando a contribuição desse biocombustível na descarbonização do transporte. Além disso, no biodiesel, anualmente vem se aumentando 1% à mistura, podendo chegar a 20% até 2030, mas a lei permite que possa chegar a até 25%. Além disso, a partir de 2027, já se começam a ter metas de atendimento com o marco legal para os novos biocombustíveis, como o SAF e o diesel renovável. E temos observado empresas que já estão trabalhando para atender parte dessa demanda, como a Petrobras, por exemplo.
Esses aumentos de percentuais são suficientes para justificar investimentos na indústria e na produção agrícola?
Sem dúvida nenhuma. O aumento nas misturas previstas em lei é importante para gerar previsibilidade. Qualquer indústria que vá investir em determinado mercado precisa de previsibilidade em relação a quem vai consumir aquele produto. Então, a lei, quando demonstra que nesse ano vai ser biodiesel 16%, no outro ano 17%, 18%, 19%, isso sinaliza para o mercado um aumento de consumo, que reflete em maior investimento.
Então, de modo geral, a Lei Combustível do Futuro vai contribuir para que empresas invistam mais no setor.
E é interessante a gente frisar o caso do etanol de milho no Mato Grosso, onde você tinha uma grande quantidade de matéria-prima disponível, e que boa parte era exportada. Cada porto estava a 2 mil quilômetros de distância, por exemplo, de Sorriso (MT), que é uma região que produz bastante milho, e que começou a instalar usinas de etanol para agregar valor à matéria-prima. Isso gera emprego, renda, mais impostos, mais arrecadação e resulta em maior investimento no Estado como um todo. Investir em biocombustível hoje no Brasil se reflete em mais alimentos e mais desenvolvimento.
Além do biodiesel e do etanol, há espaço para o Brasil se destacar na produção de SAF, o combustível sustentável de aviação?
Sim. Principalmente pela sua capacidade de produzir matérias-primas. Por exemplo, hoje temos em torno 50 milhões de hectares de soja que estão cultivados na primeira safra. Como um país tropical, se você tem a primeira safra, você tem condições de produzir na segunda. Então, quer dizer, se tem 50 milhões de primeira safra, você tem mais 50 milhões de hectares que podem ser investidos em estratégias de segunda safra.
Hoje, o Brasil utiliza pouco mais de 50% da área de segunda safra. Dá para aproveitar ainda mais essa área, que no Sul é conhecida como safra de inverno.
O Brasil é um dos poucos países que tem como aumentar a produção de biomassa para atender às novas demandas dos biocombustíveis sem a necessidade de expandir para novas áreas.
O mundo inteiro vem se movimentando em relação ao SAF, principalmente considerando as metas de carbono zero na aviação até 2050. Mas o padrão de um biocombustível que se abastece no Brasil para fazer um voo para a Europa e depois da Europa para cá precisa ser o mesmo. Então, no caso de SAF, você precisa trabalhar um movimento global para poder garantir a descarbonização, considerando que o avião abastece em cada país de forma diferente.
O processo de produção de SAF em si não tem grandes complexidades. Mas ainda há gargalos técnicos que refletem no custo de produção. É importante que se possa ter um SAF a custos competitivos. Esse talvez seja um dos grandes motivos para explicar por que ele ainda não está sendo usado em grande escala.
Depois da cana-de-açúcar, que ajudou a empacotar o Pro-Álcool, os grãos trazem novas possibilidades para a produção de etanol. Trata-se de um novo momento energético?
Significa um novo momento para o etanol no Brasil como um todo. Eu me lembro que em torno de 2016, 2017, o Brasil praticamente não produzia quantidades relevantes de etanol a partir de grãos. Se não me engano, ano passado chegou a 25% de toda a produção de etanol vindo dessa origem. Ou seja, em 10 anos já está produzindo um quarto de toda a produção de etanol no Brasil com o mercado de grãos e tudo isso baseado principalmente em uma oportunidade logística da produção do milho na região central do Brasil.
Mais recentemente, começam a entrar outras matérias-primas, como, por exemplo, o sorgo e o trigo no Rio Grande do Sul. O Rio Grande do Sul já tem usinas se movimentando para aproveitar o trigo que não é usado na alimentação para que ele possa ser utilizado, junto com outros cereais de inverno, como o triticale, na produção de etanol. É um setor que vem crescendo muito rápido. É provável que esse ano a gente já feche com 30% da participação, ou mais. E em 10 anos chegue em 50% da produção de etanol vinda de grãos.
O RS está entre os maiores produtores nacionais de biocombustíveis e avança com anúncios de investimentos bilionários na área. O que representam estes movimentos para a produção gaúcha e nacional?
O Rio Grande do Sul tem um papel muito relevante na produção de biodiesel. Grande parte da produção brasileira é vinda do Rio Grande do Sul, principalmente baseada na cultura da soja. Mas agora o Estado começa a ter uma oportunidade também de se destacar na produção de etanol de grãos cultivados na segunda safra, como é o caso do trigo e outros cereais de inverno. A tendência é que nos próximos anos venha a crescer a produção de etanol baseado nesses e outros grãos que possam ser cultivados no Rio Grande do Sul ou mesmo em Estados que permeiam, no qual a logística de transporte possa compensar o produto final.
A pesquisa da Embrapa permitiu desenvolver cultivares que sustentassem maior produção de biocombustíveis. Onde ainda é possível avançar?
O Brasil, ao longo dos anos, fez um grande trabalho de tropicalização das culturas. É o caso da soja, que era mais adaptada ao clima subtropical, como o Rio Grande do Sul, e veio para a região centro-oeste. O caminho inverso para outras culturas também é possível, aumentando a diversidade de matérias-primas que podem ser utilizadas na produção como um todo. Hoje, no caso da soja, você tem cultivares muito específicos para a produção no Rio Grande do Sul. Assim como trigo, milho e outros grãos que podem ser melhor adaptados às condições do Estado.
As oportunidades são enormes.
A Embrapa, nas suas 43 unidades de pesquisa, tem contribuições diversas que vão impactar na cadeia de produção de biocombustíveis, tanto na parte de matérias-primas, quanto nos processos e no aproveitamento dos coprodutos gerados. E tudo depende, claro, do investimento do mercado. Por exemplo, a produção de etanol de grãos veio por uma decisão inicial do mercado, quando algumas empresas viram oportunidade de produção. O mercado de biocombustíveis no Rio Grande do Sul vai começar a se desenvolver ainda mais em função dos investimentos privados que estão ocorrendo hoje.
O RS tem a maior produção de arroz do país, mas tem lidado com quedas no preço do cereal. Destinar a produção para fabricação de biocombustível pode ser uma alternativa?
Tecnicamente, é possível produzir etanol a partir do arroz com muita eficiência. Não há nenhum problema técnico em relação a isso. O que tem de se avaliar sempre é que o arroz é base alimentar no Brasil, embora esteja em certo grau diminuindo o consumo. Agora, se o país tiver uma produção excedente, no qual ele atende a demanda para alimentação, pode ser utilizado na produção de etanol. É uma questão muito mais estratégica, de política pública, do que técnica.
Toda diversificação que possa gerar agregação de valor no Brasil é importante, porque ao se criar uma indústria, você está gerando empregos, postos que vão se retroalimentar e que serão reinvestidos no Estado.
São diversas vantagens comparadas, por exemplo, ao consumo in natura ou da exportação in natura. É o caso da soja, que 65% da produção brasileira é exportada em grãos sem que haja processamento no Brasil. O que é ruim, porque você não gera emprego, não gera renda, não gera um monte de coisas. Então, acho que pode ser interessante, embora os preços variem muito ano a ano. As commodities têm ciclos de preço e o cuidado que se tem que ter é justamente na questão de não colocar em risco o desabastecimento do arroz para alimentação. Desde que esse risco esteja mitigado, tecnicamente pode ser uma forma de diversificar a renda e complementar, por exemplo, uma indústria que está usando outros cereais.
Enquanto potências econômicas como os Estados Unidos agem contra a energia limpa, o Brasil cresce no setor. É um momento de oportunidade?
Quando se fala em biocombustíveis, talvez não seja uma solução tecnológica para todos os países, mas para o Brasil, considerando as nossas características, com certeza é. E o Brasil tem que aproveitar esses diferenciais competitivos. Às vezes observamos certa retração, por exemplo, da Europa, em relação aos biocombustíveis, e OK, na Europa você não tem mais área para plantar, lá você não tem safrinha, porque por praticamente seis meses o solo está coberto de gelo. No Brasil, a condição é totalmente diferente. O setor produz biocombustível, energia elétrica, farelo que vai desencadear em maior produção de proteína animal e outras fontes como o próprio óleo, no caso do milho, que também é extraído. O país tem que aproveitar as suas oportunidades.
Outra matéria-prima muito importante que vem crescendo rapidamente no Rio Grande do Sul é a canola, como alternativa de produção tanto de biodiesel quanto de saca na safra de inverno. Uma cultura que, por muito tempo, era de 30, 40 mil hectares. E neste ano de 2026, pelo que eu estive conversando com a Associação Brasileira de Produtores de Canola, a perspectiva é que chegue a 400 mil hectares. É uma cultura com condições de chegar a mais de um milhão de hectares muito rapidamente. Somos privilegiados no Brasil porque em muitos países eles tem que tomar uma decisão sobre uma cultura ou outra, e, no Brasil, tem espaço para todas.





