
Em um cenário internacional cercado de incertezas, o ouro é um dos ativos que mais se valorizou nos últimos meses. No ano passado, a cotação do metal fechou com alta de 60%.
Nesta arrancada de 2026, o ativo segue com valorização expressiva, apresentou oscilações nos últimos dias, mas permanece aquecido.
- Na última sexta-feira (6), por volta das 18h, o metal estava cotado a US$ 4,9 mil por onça (31,1 gramas), segundo informações da Bolsa de Nova York, que levam em conta a venda para abril.
- Isso representa uma alta de quase 2%.
- Em 12 meses, o metal acumula alta na casa dos 70%.
Uma das reservas de valores mais antigas do mundo, o ouro costuma ser uma boa opção para proteger o dinheiro e atravessar momentos turbulentos com menos potencial de dano. No entanto, não costuma ser um ativo de aumento de renda, de retorno rápido ou de especulação.
Mas por que o ouro valorizou tanto nos últimos meses? Investir nesse metal é para poucos ou também pode entrar na carteira de investidores com menor reserva?
Zero Hora ouviu especialistas para esclarecer essas e outras dúvidas sobre o tema.
Valorização
A alta do ouro tem como pano de fundo um mundo cercado por tensões, batalhas comerciais e embaraços, principalmente pela segunda gestão do presidente americano Donald Trump. Rodolpho Sartori, economista da Austin Rating, afirma que a valorização do metal é explicada em maior parte pela busca de proteção frente às incertezas globais e geopolíticas.
No campo econômico, a política tarifária de Trump e as dúvidas sobre a nova gestão do Federal Reserve (Fed) — banco central americano — alimentam os ruídos. Já do ponto de vista geopolítico, a tensão dos EUA com países e grupos como Venezuela, Groenlândia e União Europeia, afeta o dólar de forma negativa, segundo Sartori.
— A valorização recente do ouro decorre de um movimento dos agentes em busca de proteção e redução de incertezas. Há um fundo estrutural de aumento da desconfiança em relação ao dólar e busca por outros ativos de reserva desde a crise de 2008, mas um processo tão abrupto quanto o atual decorre principalmente dos fatores conjunturais ligados à gestão Trump.

Ativo de proteção
Ou seja, diante da incerteza e da desconfiança, os agentes do mercado acabam usando o ouro como uma aplicação mais segura. Isso porque é um ativo menos suscetível a esses conflitos e com maior preservação ao longo dos anos, mesmo que com retorno não tão expressivo ante outras moedas e produtos.
Otávio Araújo, consultor sênior da Zero Markets Brasil, destaca que cortes de juro pelo FED e outros bancos centrais em 2025 elevaram a atratividade do ouro. Com rendimentos menores em títulos públicos, o metal se torna proteção viável para carteiras, especialmente para pequenos investidores. Aliado a isso, conflitos geopolíticos e econômicos catapultaram ainda mais a cotação do ouro:
— Diversas autoridades monetárias, especialmente em economias emergentes e países que querem reduzir a exposição ao dólar, ampliaram de forma agressiva suas reservas em ouro, criando uma demanda estrutural adicional. A geopolítica instável e a busca por porto seguro são pontos que sem dúvida ajudaram nessa valorização. Historicamente, em momentos como esses, o ouro se torna o ativo mais seguro.
Tendência para as próximas semanas
Neste início de 2026, o ouro segue negociado em valores elevados. Segundo o consultor sênior da Zero Markets Brasil, isso mostra que boa parte dessa demanda é estrutural, e não apenas tática. No entanto, Araújo afirma que, no curtíssimo prazo, o ouro segue sensível principalmente a três variáveis: expectativa de juro, intensidade dos conflitos geopolíticos e apetite por risco em bolsas e crédito.
Destaca ainda que as projeções apontam potencial de alta adicional em 2026, mas com volatilidade bem maior do que a registrada em anos de estabilidade na cotação do metal.
— Para as próximas semanas, a leitura predominante é de viés ligeiramente positivo, porém com espaço para correções rápidas a cada dado de inflação ou comunicado de banco central que sinalize juro mais alto por mais tempo — destaca Araújo.
Danilo Moreno, analista da Investo, também afirma que, após uma valorização tão forte, "é natural que o ouro passe por períodos de correção e maior volatilidade no curto prazo".
— Ainda assim, os fatores estruturais que sustentam sua demanda seguem presentes, o que mantém o metal relevante em patamares elevados, sobretudo como instrumento de proteção e diversificação.
Como investir neste mercado

No imaginário popular, investir em ouro é algo voltado para grandes investidores, com reservas milionárias e bilionárias. Em parte, isso não deixa de ser verdade, principalmente quando falamos em grandes volumes e carteiras mais recheadas.
O economista da Austin reforça que, no geral, é uma aplicação para grandes investidores e de Bancos Centrais para a formação de reservas internacionais. No entanto, pequenos investidores podem ter acesso a ativos que acompanham o valor do metal.
Um desses produtos são os populares ETFs, os exchange traded funds ou fundos de índice, no bom português. São fundos de investimento negociados em bolsa, que costumam acompanhar ou replicar a rentabilidade de um determinado ativo. Em alguns casos, o aporte mínimo fica na casa da centena de reais.
— O ouro é, sim, uma ferramenta acessível hoje em dia. Ele pode acessar via fundos de investimentos, ETFs ou certificados da Bolsa Brasileira. E é possível se posicionar com valores fracionados da onça, sem ter a necessidade de comprar as barras de ouro físicas — explica o consultor sênior da Zero Markets Brasil.
Nesse caso, o investidor não compra o ouro propriamente dito, mas investe em cotas de um fundo, e tem retorno de acordo com o valor investido e o preço do ouro no período.
A partir de quanto vale a pena?
O consultor sênior da Zero Markets Brasil avalia que o valor mínimo que vale a pena depende mais da estrutura de custos do que de "um número mágico em reais ou dólares". O especialista reforça que o ouro, nos casos de aportes menores, serve como diversificador de carteira, que protege o dinheiro contra inflação e crises. Não deve ser usado como uma renda principal ou para objetivos de curto prazo, como a aposentadoria, segundo Araújo.
— O investidor deve levar em consideração que, se as tarifas fixas forem altas em relação ao aporte, o peso dos custos pode comer boa parte do potencial de proteção oferecido pelo ouro — complementa o consultor.
Fatia da carteira de investimento
Pensando que o ouro é um ativo de proteção, especialistas alertam que esse aporte não deve ser visto como uma forma rápida de maximizar retornos e elevar patrimônio no curto prazo.
— Em geral, o ouro ocupa uma parcela complementar da carteira, normalmente entre 5% e 10% do patrimônio, com foco em diversificação e proteção. ETFs facilitam esse ajuste ao longo do tempo — esclarece Danilo Moreno, analista da Investo.
Como forma de parâmetro, o consultor sênior da Zero Markets Brasil afirma que, para os investidores que estão começando a adquirir o metal, com carteiras muito conservadoras, se costuma indicar entre 0% e 3% de alocação. Esse aporte ocorre apenas como seguro complementar e sempre após ter uma reserva de emergência.
Já no caso de perfis moderados, a alocação deve ser entre 3% e 7%, considerando o ouro como "proteção contra choques de mercado, inflação surpresa e eventos geopolíticos extremos". Nos mais agressivos, a parcela pode ser de 10%, "desde que o restante da carteira esteja bem distribuído entre ações, crédito, renda fixa e outras commodities", explica Araújo.

Quais são os riscos
Como fator inerente a qualquer investimento, a aplicação em ouro tem vantagens, mas também apresenta riscos — mesmo que menores ante outros ativos. No caso do metal, a volatilidade é um dos possíveis reveses mais citados entre analistas.
Existe o risco da volatilidade alta, que pode ser percebida dentro do mesmo dia, com quedas de em torno de 3% a 5%. O investidor também corre o risco de entrar num momento de pico e pegar a correção do valor e tomar prejuízo ao longo do tempo.
Além disso, Araújo também inclui na balança de riscos a exposição ao dólar, que amplifica as oscilações do mercado, além de custos adicionais do ouro físico, como a custódia. Por isso, o ouro não deve ser tratado como um "dinheiro garantido", de acordo com o especialista.
— A gente tem que entender que o ouro é um ativo que não gera renda, como dividendos ou aluguéis, nem juro. O seu preço é basicamente determinado pela oferta e demanda. Então, quando você tem um ambiente de juro elevado, em que você tem um custo muito elevado por não receber juro ou dividendos, pode ter uma demanda mais baixa por ouro — complementa o analista da Investo.





