Foi-se o tempo em que famílias gaúchas contratavam babás apenas por afinidade pessoal ou de maneira informal. O mercado atual das cuidadoras infantis é pautado por admissões registradas em carteira, apresenta salários em elevação e alta demanda por profissionais especializadas, mas exige, em contrapartida, uma formação cada vez mais qualificada — desde curso de primeiros socorros até noções de pedagogia e psicologia. Como resultado, o salário pago às trabalhadoras mais qualificadas pode chegar a R$ 5 mil em cidades como Porto Alegre, sem contar eventuais horas extras.
O uso do gênero feminino para se referir às babás não é casual. Conforme os dados de contratações e demissões dos últimos dois anos no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), 95% da força de trabalho é de mulheres que têm, em média, 36 anos de idade.
As profissionais mais procuradas são aquelas como maior grau de experiência e especialização que, geralmente, são selecionadas por meio de agências focadas em atender famílias. Nessa fatia do mercado, a procura por babás vem aumentando de 10% a 20% ao ano, conforme empresas do setor consultadas por Zero Hora.
— Percebemos um crescimento constante da demanda por babás, principalmente para a faixa de zero a três anos. Muitos pais têm evitado deixá-las em creches para reduzir risco de contágio de doenças, viroses, até por orientação de pediatras — afirma Bianca Branco, proprietária de uma agência de recursos humanos que atua na área do cuidados de crianças na Capital.
Instrutora de babás e proprietária de uma empresa de recrutamento, Bianca Guazzelli Aldworth afirma que parte dos pais também está optando por manter as crianças em casa em vez de recorrer a uma creche também por razões financeiras.
— Às vezes, acaba pagando quase a mesma coisa para uma babá do que para manter em uma escolinha. Se forem duas crianças, pode acabar até ficando mais barato, porque teria de pagar duas mensalidades — observa a instrutora e empresária.

Bianca Aldworth também tem percebido, mais recentemente, a migração de profissionais, como professoras e auxiliares de escolas infantis, para atuar como babás:
— Em vez de cuidar de 15, 20 crianças, passam a cuidar de uma ou duas, e o salário vem melhorando. Já estão pedindo algo entre R$ 2,5 mil e R$ 3 mil. Acaba compensando.
Os dados do Caged indicam, no geral, um crescimento do salário médio das babás de R$ 1.575 para R$ 1.678 entre 2024 e o ano passado no Rio Grande do Sul. Mas, quando se faz um recorte entre as trabalhadoras com o novo perfil almejado pelas famílias — principalmente aquelas com renda per capita mais elevada — o patamar salarial dá um salto significativo que vai aumentando conforme o tempo de trabalho prévio, o volume de recomendações e a quantidade de cursos realizados.
Preparação envolve até curso de etiqueta

É graças a essa valorização que Silvia Regina da Silva Paixão Teixeira, 43 anos, superou um passado de dificuldades e hoje se diz realizada por poder economizar dinheiro para pagar a futura universidade da filha, de 12 anos, e "comprar o que quiser" em uma loja.
Natural de Passo Fundo, fazia faxinas quando engravidou pela primeira vez. A primogênita morreu em seus braços com apenas um mês de vida, enquanto era amamentada, por uma complicação cardíaca não diagnosticada. Apenas dois meses depois, o marido, um policial militar, foi morto em serviço. Traumatizada, decidiu se mudar para Porto Alegre a fim de recomeçar a vida. Passou a trabalhar como babá na casa de uma família conhecida de seu pai.
— Depois de perder minha primeira filha, eu prometi pra mim mesma que jamais voltaria a perder uma criança nas minhas mãos. Comecei a fazer cursos. De primeiros socorros, de técnica em enfermagem. Hoje, também faço trabalho voluntário como socorrista. Fiz mais de 30 cursos para me aprimorar como babá — conta Silvia.
A cuidadora diz que entra em contato frequentemente com agências e procura saber quais novas especializações estão sendo mais demandadas pelas famílias gaúchas.
— A família com que comecei a trabalhar bancou meu primeiro curso, que foi de etiqueta. Depois, fui me especializando cada vez mais. Hoje, tenho formação para trabalhar com criança autista, com síndrome de Down, fiz curso de curta duração de psicologia e vou começar um de pedagogia com duração de seis meses. Também estudei introdução alimentar, cuidado neonatal, entre vários outros — complementa Silvia.
Devido ao currículo caprichado, jamais fica sem trabalho:
— Hoje, as agências pedem muitos cursos por exigência das famílias, o que exige que a gente esteja sempre se atualizando. Se trabalhasse direto, como quando cobri férias de uma colega, poderia tirar até R$ 8 mil, R$ 9 mil por mês.
Bianca Aldworth e Bianca Branco confirmam que profissionais com formações como curso técnico de enfermagem podem receber entre R$ 4 mil e R$ 5 mil — ou até acima disso, conforme o grau de experiência, as indicações e eventuais horas extras.
A babá Renata da Silva Mendes, 38 anos, começou a trabalhar aos 16 já com registro em carteira. Ao longo das últimas décadas, também testemunhou a evolução da atividade e a valorização das profissionais mais tarimbadas.
— Hoje existe uma seleção mais rigorosa, porque há uma responsabilidade enorme em cuidar de uma criança, e vivemos tempos perigosos. Por isso, os pais estão mais exigentes — analisa Renata.
Além de um curso específico de babá, ela acumula formações como introdução alimentar e primeiros socorros, para não perder espaço no universo atual do cuidado com as crianças.
O que diz a lei
A atividade das babás se enquadra na categoria de trabalho doméstico, que apresenta as seguintes garantias:
- Registro do contrato de trabalho a partir do primeiro dia da prestação de serviços, incluindo o período de experiência
- Salário não inferior ao mínimo nacional
- Jornada de até 44 horas, podendo ser prorrogada de acordo com a lei
- Descanso semanal remunerado
- Intervalo para refeição e descanso
- Férias, acrescidas de um terço do salário normal
- 13º salário
- Vale-Transporte
- Depósito mensal do FGTS e da indenização compensatória
- Aviso prévio nas demissões sem justa causa
- Pagamento das verbas rescisórias no prazo de 10 dias após a rescisão
- Estabilidade para as gestantes desde a confirmação da gravidez até cinco meses após o parto
Fonte: Ministério do Trabalho e Emprego
*Colaborou Beatriz Coan


