
Impactada tanto por aspectos macroeconômicos nacionais quanto por fatores externos, a atividade industrial gaúcha apresentou retração de 1,3% ao longo de 2025. O resultado se refere à variação do Índice de Desempenho Industrial do Rio Grande do Sul (IDI-RS) no último ano, verificado em estudo realizado pela Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs).
Conforme a Fiergs, o IDI-RS funciona como um termômetro de múltiplos aspectos das operações de indústrias gaúchas. O indicador é construído a partir da influência conjunta de algumas variáveis obtidas na pesquisa "Indicadores Industriais do RS", também conduzida pela Fiergs. Entre as variáveis consideradas na pesquisa estão:
- faturamento
- compras
- horas trabalhadas
- massa salarial
- utilização da capacidade instalada
- emprego
Para o resultado de 2025, a entidade destaca que contribuíram principalmente para a retração registrada uma queda de 3,5% no faturamento real das empresas e uma redução de 1,8% nas compras industriais. Ainda conforme o levantamento, também impactaram o resultado as quedas nas horas trabalhadas na produção (-1,6%) e na utilização da capacidade instalada (-1,5 ponto percentual).
Para o presidente da Fiergs, Claudio Bier, a alta da taxa Selic é um dos fatores macroeconômicos que contribuíram para a retração verificada na indústria gaúcha em 2025.
— O cenário é complexo para a atividade industrial gaúcha. A indústria segue asfixiada pelo juro elevado, que reduz as condições para investimento, e a incerteza geral com relação às contas públicas. Por isso, sem perspectiva de mudanças na economia brasileira, a perspectiva de curto prazo para o setor permanece sendo de baixo dinamismo — destaca Bier.
Já o fator externo que causou maior impacto à atividade industrial gaúcha em 2025 foi o tarifaço imposto por Donald Trump. Mesmo que a medida tenha sido flexibilizada posteriormente para alguns produtos, o Rio Grande do Sul continuou como um dos Estados mais atingidos pela imposição. Somente em setembro, mês seguinte à entrada em vigor da medida, as exportações gaúchas para os Estados Unidos caíram 51,1% em relação ao mesmo mês no ano anterior.
No acumulado de 2025, as exportações do RS para os EUA caíram 10,9%. Nos últimos cinco meses do ano passado, a queda foi de 37% em relação ao mesmo período de 2024.
— As tarifas impostas à indústria gaúcha ainda não foram retiradas. Nossa expectativa é que a reunião prevista para março entre os presidentes Lula e Trump resulte em avanços — complementa o presidente da Fiergs.
Variação setorial
Enquanto a média de toda a atividade industrial gaúcha apresentou retração de 1,3% em 2025, o balanço setorial apresenta resultado heterogêneos. Dos 15 segmentos industriais analisados na pesquisa, nove apresentaram queda, sendo as maiores reduções observadas em veículos automotores (-11,3%) e couros e calçados (-6,6%).
Conforme a coordenadora de projetos do Sindicato da Indústria de Calçados do Estado do Rio Grande do Sul (Sicergs), Fabiane Sudekum, o tarifaço dos EUA foi o principal fator de influência na queda registrada nas atividades do setor em 2025.
— Nos primeiros sete meses de 2025, o setor calçadista havia aberto 1,6 mil postos de trabalho no Estado. Então, nos sete primeiros meses foi bom. Com o impacto do tarifaço, o setor acabou fechando o ano com 4,4 mil postos a menos, uma redução de 5,6% em relação ao 2024 — ressalta Fabiane.
Por outro lado, alguns setores produtivos gaúchos apresentaram crescimento de atividades em 2025. Os principais destaques foram tabaco (10,4%) e máquinas e equipamentos (10,1%).
O tabaco também foi um dos produtos fortemente atingidos pelo tarifaço norte-americano. Contudo, como aponta Valmor Thesing, presidente do Sinditabaco-RS, o crescimento registrado pelo setor em 2025 também se explica pelo histórico recente de atividades.
— Apresentamos sim um resultado significativo, mas é fundamental lembrarmos que, no ano anterior, nossa produção foi muito afetada por questões climáticas, foi aquele ano da enchente. Então, o ano de 2025, na verdade, foi uma retomada à nossa normalidade. Esse crescimento maior foi registrado porque a base de comparação de 2024 era baixa — afirma Thesing, acrescentando também que ainda aguarda uma resolução sobre as tarifas de importação dos Estados Unidos.
— Quando o tarifaço entrou em vigor, já estávamos com boa parte da safra do período negociada, então o impacto foi menor, mas mesmo assim nossas exportações para os Estados Unidos caíram pouco mais de 20% no ano passado. Por isso, também esperamos que esse próximo encontro entre o presidente Lula e o presidente Trump possa apresentar uma solução para o tarifaço, porque se a medida seguir valendo, o impacto será muito maior para nós neste ano — complementa o presidente do Sinditabaco-RS.
Números de dezembro
Em dezembro de 2025, a atividade industrial gaúcha apresentou retração de 2,5% em relação a novembro. De acordo com a Fiergs, este foi o pior resultado para o mês desde 2008, sendo que o índice também atingiu o menor patamar desde a catástrofe climática de maio de 2024.
Na comparação com dezembro de 2024, a atividade industrial gaúcha no último mês de 2025 registrou queda de 7,5%. Segundo o presidente da Fiergs, o avanço do debate sobre o fim da escala 6x1 também pode contribuir para gerar um ambiente de incertezas na indústria e afetar as atividades em 2026.
— O avanço do debate sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil tem gerado apreensão no setor produtivo, por aumentar a incerteza regulatória e potencialmente elevar custos, o que pode afetar decisões de investimento e a atividade industrial em 2026 e nos próximos anos. Esse ambiente de maior incerteza já se reflete na percepção dos empresários, pois, no quarto trimestre de 2025, a insegurança jurídica atingiu o maior percentual de apontamentos como um dos principais problemas enfrentados pela indústria desde o início da série histórica da sondagem industrial da Fiergs — comenta Claudio Bier.

