
Reunidos nesta segunda-feira (12) em Brasília, os presidentes do Banco Central (BC), Gabriel Galípolo, e do Tribunal de Contas da União (TCU), Vital do Rêgo, tentam reduzir a crise institucional em torno do Banco Master. Liquidado após indícios de fraude e da ausência de recursos para garantir aportes dos clientes, o banco de Daniel Vorcaro está no centro de uma disputa que perpassa a investigação de irregularidades e chega à cúpula do Congresso e do Supremo Tribunal Federal (STF).
Após a reunião de uma hora, Vital do Rêgo disse que a Corte terá acesso aos documentos do BC que embasaram a liquidação do Master. A inspeção do TCU deve durar menos de um mês e teria recebido aval da autoridade monetária.
— Fizemos uma reunião com objetivos claros, de dizimar qualquer tipo de dúvida sobre nossa competência. Tivemos do BC as portas inteiramente abertas para o poder fiscalizatório — afirmou, segundo o jornal O Globo.
O presidente do TCU ainda salientou que não seria de competência da Corte reverter a liquidação e afastou o risco de medidas cautelares contra o Banco Central.
Nos bastidores, o entendimento é de que há três interesses majoritários em jogo:
- O mercado financeiro desejaria ver o Master definitivamente fora do circuito, não só por causa dos rendimentos irreais que a instituição oferecia, mas sobretudo na expectativa de herdar seus clientes.
- A cúpula político-judicial de Brasília, com expoentes no Congresso e nos tribunais superiores, estaria disposta a sepultar o assunto o mais breve possível, temendo uma delação premiada de Vorcaro ou a revelação de sua prodigiosa teia de contatos.
- Já o próprio Vorcaro teria como objetivo primordial escapar da prisão e diminuir o valor a ressarcir aos correntistas, se possível, recebendo uma indenização pela liquidação do Master.
O início do escândalo
O caso do Master chegou às manchetes em setembro de 2025, quando o Banco Central negou a autorização para o Banco de Brasília (BRB) adquirir a companhia. O negócio foi considerado polêmico desde o anúncio da intenção de compra, pelo valor de R$ 2 bilhões.
Em novembro, novos desdobramentos transformaram o negócio em escândalo: o BC decretou a liquidação do Master no dia 18.
Na noite anterior, Vorcaro foi preso pela Polícia Federal (PF) ao chegar a um hangar do aeroporto de Guarulhos. Segundo a PF, ele estava se preparando para embarcar em um jato particular e fugir para Malta, um paraíso fiscal da Europa — seus advogados dizem que ele iria para os Emirados Árabes negociar a venda do banco.
Vorcaro já vinha sendo investigado há pelo menos seis anos. Ele chegou a ter a prisão decretada por um juiz federal em 2019, mas o despacho nunca foi cumprido e o processo corre até hoje em sigilo. Desta vez, o banqueiro passou 12 dias preso e foi solto com uso de tornozeleira eletrônica.

Crise política
O que até então parecia um imbróglio jurídico-financeiro ganhou contornos de crise política. Praticamente desconhecido pela população em geral, o conglomerado liderado pelo Master tinha uma fatia pequena do mercado: 0,57% do ativo total e 0,55% das captações do sistema financeiro nacional, o equivalente a R$ 86,4 bilhões. Seu maior trunfo, porém, eram as relações que nutriu durante muitos anos com deputados, senadores, dirigentes partidários e ministros de tribunais superiores.
Quando Vorcaro foi apontado como o responsável por um esquema fraudulento que alcançaria R$ 12 bilhões, Brasília tremeu. E logo uma sequência de iniciativas, consideradas pelo mercado financeiro estranhas à condução do processo, começaram a tomar corpo nos gabinetes do poder.
O sigilo de Dias Toffoli

A primeira suspeita de interferência na investigação surgiu quando o ministro do STF Dias Toffoli invocou o caso para si. Os advogados de Vorcaro haviam pedido que o processo corresse no STF por supostamente envolver o deputado federal João Carlos Bacelar (PL-BA), que goza de foro privilegiado. No final de semana anterior à decisão, Toffoli havia viajado a Lima, no Peru, para assistir à final da Copa Libertadores, na companhia de um dos advogados do banqueiro.
O ministro colocou a investigação sob sigilo e chegou a ordenar, na véspera do Natal, uma acareação entre Vorcaro e o diretor de fiscalização do BC. O mercado financeiro reagiu ante a prática incomum de colocar frente a frente, ambos sob igual condição de suspeita, a autoridade responsável pela apuração dos desvios e o principal acusado de chefiar as fraudes.
Pressionado, Toffoli desistiu da participação do BC na acareação, realizada apenas entre representantes do Master e do BRB. Neste final de semana, a Folha de S. Paulo revelou que duas empresas ligadas a irmãos do ministro foram sócias de um fundo de investimentos vinculado ao Master.
A suposta pressão de Moraes

Outra polêmica envolvendo o caso do banco e o STF surgiu em dezembro, após o jornal O Globo revelar a existência de um contrato entre o Master e a esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes.
Dias depois, a colunista Malu Gaspar, também de O Globo, publicou que Alexandre Moraes teria procurado Galípolo para tratar de interesses envolvendo o Master. Tanto o ministro quanto o presidente do BC se manifestaram, afirmando que a reunião foi realizada para discutir as consequências da aplicação da lei Magnitsky, nos Estados Unidos, que impôs sanções econômicas contra Moraes e sua esposa.
O ministro também afirmou que o escritório da esposa jamais atuou na operação de aquisição do Master pelo BRB perante o BC. Ainda assim, parlamentares protocolaram uma queixa-crime junto à Procuradoria-Geral da República (PGR), um pedido de impeachment e um convite para Moraes comparecer a uma comissão do Senado.
Inspeção do TCU

Na primeira semana de 2026, uma nova investida contra o BC reacendeu o temor de interferências indevidas. O ministro do TCU Jhonatan de Jesus ordenou uma inspeção na autoridade financeira em busca de eventuais irregularidades na liquidação do Master.
Ex-deputado, Jhonatan chegou à Corte pelas mãos do centrão e sob as bênçãos do ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL). Médico e filiado ao Republicanos, o ministro teve o nome aprovado com o voto de 72 dos 81 senadores, numa indicação relatada pelo próprio pai, o senador Mecias de Jesus, líder do Republicanos.
Responsável pela fiscalização de autarquias federais, como o Banco Central, o TCU entrou no caso Master após pedido do Ministério Público de Contas. Ao assumir o processo, em dezembro, Jhonatan pediu explicações ao BC após considerar a liquidação "extrema" e "precipitada".
O Banco Central recorreu da decisão, justificando que tal medida só poderia ser determinada pelo plenário do tribunal, e não por decisão individual de um ministro. Sob pressão, Jhonatan alegou que a inspeção havia sido recomendada pela área técnica do tribunal e que submeterá o pedido de inspeção ao plenário. Os ministros vão se debruçar sobre o tema ainda neste mês de janeiro.
"A dimensão pública assumida pelo caso, com contornos desproporcionais para providência instrutória corriqueira nesta Corte, recomenda que a controvérsia seja submetida ao crivo do Plenário, instância natural para estabilizar institucionalmente a matéria", escreveu Jhonatan no despacho em que suspendeu a inspeção.
O receio no mercado financeiro era de que o ministro suspendesse a liquidação. Tal medida colocaria sob desconfiança a autoridade do Banco Central, além de descredibilizar a investigação da Polícia Federal. Ao liquidar o banco, a autoridade monetária disse que a decisão foi baseada em "grave crise de liquidez" e "graves violações" às normas do Sistema Financeiro Nacional.
Influenciadores
Enquanto Jhonatan lançava suspeita sobre as ações do Banco Central, influenciadores passaram a fazer publicações nas redes sociais, defendendo o Master e atacando a autarquia. Conforme contratos revelados pela imprensa, eles teriam sido contratados por agências de comunicação, recebendo até R$ 2 milhões pelos posts.
A ofensiva midiática, associada à postura hostil de Toffoli e Jhonatan, gerou ainda mais desconfiança de um movimento articulado de Vorcaro para reaver o banco. Em nota, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e outras 10 entidades do setor defenderam a independência do BC e sua atuação no caso Master.





