
O norte-americano Lars Peter Hansen, 73 anos, professor da prestigiada faculdade de economia da Universidade de Chicago, uma das principais instituições expoentes do liberalismo econômico no planeta, tem se dedicado à construção de um modelo para demonstrar que, muitas vezes, não é vantajoso economicamente desmatar uma área de floresta para implantar atividade agrícola. Seu trabalho tem como base a análise da produtividade de áreas na floresta amazônica.
— A Amazônia tem um grande potencial de absorção do carbono, o necessário para reverter essa tendência na floresta já é claro, e isso vai nos dar tempo para pensar em outras ações e iniciativas para enfrentar a crise do clima — comenta o economista.
LPH foi laureado com o Prêmio Nobel de Economia em 2013, por uma pesquisa pioneira para identificar incertezas e tendências no comportamento de ativos nos mercados financeiros, trabalho especialmente relevante após a crise econômica de 2008. O estudo foi desenvolvido ao lado dos economistas Eugene Fama e Robert Shiller.
Nesta entrevista exclusiva a Zero Hora, Hansen explica como começou a pesquisar o desmatamento no Brasil e sua preocupação com a crise climática. Ele também comenta sua pesquisa premiada, a política tarifária de Donald Trump e temas relacionados. Confira a seguir.
Quando e por que o senhor começou a concentrar parte da sua pesquisa no desmatamento da floresta amazônica?
Já faz alguns anos. Fui apresentado a este assunto por incentivo de um colega colaborador, o economista José Alexandre Scheinkman, que nasceu no Brasil. Sheinkman é um economista brilhante, atualmente é professor da Universidade de Columbia e também atuou como integrante do conselho consultivo da COP30. Ele já pesquisava relações financeiras na região, me chamou para participar de algumas pesquisas, e foi um grande prazer poder participar.
O senhor poderia explicar um pouco esse estudo?
O que fazemos é tentar construir um modelo dinâmico espacial. Buscamos informações sobre a produtividade de diferentes áreas de terra em diversas localidades da Amazônia brasileira, e pesquisamos os parâmetros e efeitos do desmatamento e do reflorestamento nessas áreas. Se considerarmos qualquer área específica de terra, ela pode ser usada para produção pecuária e agrícola, ou para cultivo de árvores que absorvam carbono.
Então, nós realizamos medições da produtividade e lucratividade para ambas as atividades: quanto se obtém com o uso da terra para pecuária e produções agrícolas que emitem carbono à atmosfera, e qual seria o seu valor se fosse utilizada como potencial forma de absorção de carbono. Nesse cálculo, entra um ponto fundamental na análise, que é o chamado custo externo das emissões de carbono, o quanto de prejuízo geram, em contraponto ao lucro que a atividade pecuarista ou agrícola do local gera.
Já os locais que atuam com reflorestamentos e produções sustentáveis, têm os lucros dessas atividades e não geram o prejuízo externo das emissões — pelo contrário, ajudam na sua absorção.
E o que buscamos é equacionar essa relação, demonstrando que, pela baixa produtividade da atividade agropecuária em diversos pontos da Amazônia, em áreas desmatadas e com o solo desgastado, com os incentivos adequados, passa a valer mais a pena para os produtores investirem em reflorestamento e outras práticas sustentáveis.
Há diversas regiões da Amazônia que hoje já emitem mais carbono do que absorvem. Como o senhor analisa essa questão?
Primeiro, vejo com grande preocupação. Depois, como uma oportunidade perdida, para o Brasil e para o mundo.
É uma oportunidade perdida do ponto de vista financeiro, e também da perspectiva ambiental, pois solucionar este problema das emissões oriundas da Amazônia é um bom caminho para combater a crise climática global.
Iniciativas sustentáveis de absorção dos gases de efeito estufa ajudam a desacelerar e reverter o aquecimento global, mitigando os efeitos que as mudanças climáticas já causam no planeta. A Amazônia tem um grande potencial de absorção do carbono, o necessário para reverter essa tendência na floresta já é claro, e isso vai nos dar tempo para pensar em outras ações e iniciativas para enfrentar a crise do clima.
Combater a crise climática está entre as necessidades mais urgentes da humanidade?
Sem dúvidas, é uma das questões mais importantes a se considerar nos tempos atuais. Já conseguimos observar os efeitos da mudança do clima no planeta, e quando projetamos o futuro, as tendências atuais não são positivas para o meio ambiente.
Por outro lado, há também outras questões urgentes e que deveriam despertar grande preocupação. A instabilidade da ordem internacional, que continua gerando guerras, a crescente polarização e radicalização política, também têm causado perigosos efeitos econômicos e sociais, que podem aumentar a médio e longo prazo se continuarem assim.
Em relação à crise do clima, é um desafio que se apresenta, e que sabemos o que precisamos fazer neste momento para enfrentá-la, e precisamos nos concentrar nisso.
O senhor mencionou a realização da COP30 no Brasil. Como avalia a eficácia real deste tipo de conferência no enfrentamento à crise climática?
Acredito que são relevantes, muitas delas geraram contribuições importantes, um dos casos mais emblemáticos foi a COP21, de onde saiu o Acordo de Paris. Ao mesmo tempo, essas conferências têm um efeito até certo ponto limitado, pois suas conclusões dependem da adoção dos países, que têm suas próprias agendas.
No caso da COP30, no Brasil, o professor Scheinkman esteve envolvido desde a concepção do evento, e com um grupo de economistas notáveis, formulou uma série de propostas de políticas públicas e de financiamento para tentar frear o avanço dessa crise, mas suas implementações dependem dos objetivos de cada país.
Uma das principais dificuldades no combate à crise do clima é convencer as grandes potências poluidoras a compensar financeiramente suas emissões, ajudando os países com menos recursos?
Sim, absolutamente, esse é um desafio muito importante. Em nossa pesquisa, por exemplo, nós buscamos equacionar quanto de incentivos financeiros os produtores de algumas regiões da Amazônia precisariam para trocar sua atividade agropecuária por reflorestamento, e um desafio é convencer outros países e até empresas do setor privado a investirem nessa solução, pelo benefício geral ao planeta.
Por isso, precisamos também construir caminhos pragmáticos para que esse apoio ocorra na prática. Nas COPs, também observamos esse desafio, de fazer com que os países com mais recursos, que também são os que mais emitem, engajem com mais força nos financiamentos climáticos.
Você também mencionou o Acordo de Paris, que no final de 2025 completou 10 anos. O quanto é frustrante vermos que os principais objetivos traçados não foram nem de perto alcançados?
É, sim, frustrante. Ao mesmo tempo, uma década depois, podemos ver que o acordo foi um pouco ingênuo em alguns aspectos, mais um desejo do que algo realmente viável e alcançável. É um pouco do que falávamos sobre o efeito prático das COPs, é difícil ter uma coordenação global de ações para enfrentar algo como a mudança do clima, pois a crise climática tem impactos heterogêneos nos países, e às vezes até em diferentes regiões de um mesmo país, que também têm estágios distintos de desenvolvimento e de capacidade de investimentos.
Então, por um lado, é frustrante ver a falta de progresso. Por outro lado, houve uma certa ingenuidade em alguns objetivos que foram traçados, e principalmente na falta da construção de mecanismos práticos para atingi-los.
Falando sobre outros assuntos da economia internacional, em 2025 vimos o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, praticar uma agressiva política tarifária de importação. Como o senhor analisa essa medida?
Então, a formulação dessas políticas vindas dos Estados Unidos tem duas características: por um lado são arbitrárias, e por outro são inconsistentes, frágeis.
Foi uma estratégia de negociação. Trump impõe uma medida para iniciar uma negociação sobre algo, em uma posição que já lhe favoreça, para então chegar a um denominador comum.
Mas acho que não foi uma política muito bem planejada, pareceu meio de improviso, e acabou gerando mais incertezas do que resultados práticos, tanto no mercado externo quanto no interno.
Como efeito prático, acabamos nos desgastando com aliados históricos, como o Canadá, por exemplo. Dentro dos Estados Unidos mesmo, a medida, de forma geral, acabou gerando aumentando da inflação, muitos produtos que foram taxados o país era dependente da importação pois não tem capacidade de produzir, e os preços das taxações acabaram sendo repassados diretamente aos consumidores.
Até aqui, se mostrou uma política incoerente, frágil, confusa, deveria, no mínimo, ter sido melhor planejada, com uma análise comercial e setorial mais apurada, para ter um pouco mais de efetividade.
Como o senhor enxerga hoje a pesquisa que lhe rendeu o Prêmio Nobel, há cerca de 12 anos?
Quando estudamos a valoração de ativos financeiros de uma perspectiva mais acadêmica, há uma contribuição distinta, que melhora a compreensão de como os preços são formados, sendo também possível fazer uma projeção de sua evolução, principalmente em períodos mais longos. Esse entendimento era especialmente relevante na época, pois vivíamos os efeitos da crise econômica de 2008.
Com a pesquisa, abrimos uma porta para se pensar de forma mais construtiva e aprimorar o entendimento de como o mercado de ativos financeiros funciona. O mercado de ativos é dinâmico, muitas incertezas interferem e geram impacto, e de certa maneira você está analisando um objeto que está sempre em movimento, por isso mensurar essa trajetória é tão desafiador.
Após o reconhecimento do Prêmio Nobel, continuamos pesquisando o tema para tentar entender essas incertezas a partir de perspectivas mais gerais e elaborar maneiras pelas quais podemos confrontá-las. Pegamos os desafios empíricos do mercado para analisar como podemos compreender as incertezas em termos mais amplos.
Como o senhor avalia a posição do Brasil na economia global?
O Brasil é um player muito importante na economia internacional, é o principal expoente da sua região e normalmente está entre as 10, 15 maiores economias do planeta.
É bom ver o país novamente em uma trajetória que parece apontar para crescimento e maior prosperidade para a população.
É um país que pode despontar como uma importante liderança internacional em temas como a transição energética e o enfrentamento da crise do meio ambiente, e a realização da COP30 é um exemplo disso. Externamente, acho que ainda se olha para o Brasil como um país que continua tendo grande potencial econômico, e que com a estabilidade política adequada, poderá ser ainda mais protagonista na arena internacional.

