
Na movimentada Rua Sepé, no centro de Capão da Canoa, no Litoral Norte, um estabelecimento expõe na fachada: “Da fronteira para o Litoral”. Trata-se de uma filial da Ladies & Lords, loja de roupas infantis fundada em Santana do Livramento, na Fronteira Oeste. Renato Moreira, proprietário do comércio, expandiu o negócio para a praia no ano passado na esteira da alta temporada e de mudanças familiares.
— Janeiro e fevereiro, infelizmente, em Livramento, cai muito a venda. Então, nos mudamos para cá para tentar uma outra oportunidade de crescimento, de poder comercializar nossos produtos. Lá cai 70% e aqui aumenta os mesmos 70% — conta.
Moreira é um dos tantos exemplos de pessoas que têm a vida alterada pela “economia do verão” no Estado. Com a chegada da estação, marcada por temperaturas escaldantes e férias, parte da atividade econômica migra tradicionalmente dos principais centros urbanos para regiões banhadas por água salgada ou doce e opções de lazer e entretenimento.
Com famílias pegando a estrada, a intenção de consumo vai na mala, favorecendo principalmente os municípios localizados no Litoral Norte. Com isso, negócios locais e que mudam a sua operação aproveitam para aumentar rendimentos, o que também influencia no desenvolvimento local.
Na temporada passada (2024/2025), o turismo de verão movimentou R$ 5,8 bilhões no Rio Grande do Sul, segundo dados da Secretaria de Turismo do Estado. Esse montante é pouco mais do que o dobro do registrado na estação entre os anos de 2019 e 2020, antes da pandemia.
Já a temporada 2025/2026 começou com movimentação estimada em R$ 1,7 bilhão em dezembro, anotando um crescimento de 3,9% ante o último mês de 2024. Com esse desempenho, a pasta estima superar o patamar do verão anterior. Os valores são calculados a partir de notas fiscais emitidas por prestadores de serviços turísticos como hotéis, pousadas, restaurantes e empresas de transporte.
O secretário de Turismo, Ronaldo Santini, destaca o aquecimento das áreas litorâneas nesta época do ano, mas cita o trabalho da pasta em busca da expansão:
— Temos apostado e trabalhado para que a temporada de verão possa ser amplificada em todas as regiões do Estado, não somente na faixa de areia, no Litoral, sul e norte, mas também para os destinos de praias de água doce, para os destinos de natureza, que agora passam a ser também objetos de desejo e que são responsáveis por boa parte, inclusive, da entrada do turismo internacional no Estado.
Os setores mais impactados pelo verão:
- A Secretaria de Turismo aponta o ramo de alojamento e alimentação como o segmento com crescimento consistente e aumento de participação de 86,7% para 92,4%. A área concentra R$ 4,8 bilhões da movimentação total do turismo de verão.
- Já o grupo de serviços turísticos (aluguel de bens móveis, artes e recreação, agências e operadoras, eventos) é o segmento com maior dinamismo entre as atividades turísticas. Esse setor teve crescimento de 38,2% na temporada 2024/2025. Além disso, apresentou expansão de 48% no saldo de empregos ligados ao turismo no Litoral Norte nos meses de outubro e novembro de 2025, época de preparação para a alta temporada.
- Segundo o governo, o verão concentra 38,4% da arrecadação anual de ICMS das atividades características do turismo.
Litoral Norte

Uma das áreas mais impulsionadas pelo turismo de verão é a do Litoral Norte. Com boa parte dos veranistas pegando a estrada com destino a cidades como Tramandaí, Torres e Capão da Canoa, essa região registra avanço econômico no período.
Levantamento da Secretaria de Turismo aponta que Litoral Norte é a segunda região do Estado com maior participação do turismo em termos de composição de valor agregado, levando em conta o ano inteiro, não apenas o verão. A primeira colocação fica com a Região das Hortênsias.
O boom populacional registrado nos municípios que integram essa faixa litorânea aquece a economia circular, com o turismo fomentando negócios locais, abrindo espaço para novos empreendimentos e garantindo plus no sustento de famílias que usam a alta temporada para reforçar o caixa para enfrentar o ano.
— Tem várias economias que se transferem para o Litoral, especialmente na operação gastronômica. Muitos bares, restaurantes e lancherias partem de cidades do Interior para as praias. Outras economias, principalmente no ramo de serviços, também acabam indo, como profissionais de elétrica, reforma, melhoria de estruturas internas e móveis. Muita gente cresce junto na esteira das altas temporadas — destaca o secretário de Turismo.
A presidente do Sindicato de Hotéis, Bares e Restaurantes do Litoral Norte, Ivone Ferraz, salienta que, em todo o Litoral Norte, a alta temporada coloca cerca de 8 mil postos de trabalho no setor, o que impacta ramos como restaurantes, hotéis, agências de viagens, serviços de passeios, postos de combustíveis e materiais de construção:
— E isso é devido ao turista, que provoca essa economia de fora para dentro. Nós recebemos aqui uma média diária de 500 mil, 600 mil pessoas nos nossos municípios diariamente. Aí tu imagina cada turista deixando R$ 400, R$ 500 por dia de economia nos municípios. Isso gera um impacto muito grande.
Especialistas também apontam que municípios mais populosos, como Torres, Capão da Canoa e Tramandaí, registraram crescimento do movimento nos últimos anos mesmo em épocas de baixa temporada.
— Com a pandemia, muitas pessoas vieram para cá em busca de uma qualidade de vida maior durante a baixa temporada. O ar é puro, a cidade funciona, tem oferta de mercadoria e serviço para que as pessoas possam viver com tranquilidade. O preço, inclusive na alta temporada, não é abusivo. É igual e às vezes inferior até aos da Região Metropolitana. Então, as pessoas vêm para cá — analisa o prefeito de Imbé Ique Vedovato, que até sexta-feira (23) presidia a Associação dos Municípios do Litoral Norte (Amlinorte).
Esse ambiente observado nos últimos anos tem contribuído para maior movimento na baixa temporada ante um passado recente, segundo especialistas.
Impactos no comércio e serviços
Citado no início da reportagem, o proprietário da loja de artigos de vestuário infantil Ladies & Lords afirma que a mudança de emprego da esposa dele para Osório, em setembro do ano passado, fez com que parte da família se instalasse no Litoral Norte. Foi aí que ele viu a oportunidade de abrir uma filial para aquecer o faturamento em um período de baixa demanda na matriz, em Santana do Livramento.
De dezembro a fevereiro, Renato Moreira se muda para o Litoral, deixando a loja do outro lado do Estado nas mãos de um familiar. Para o verão, foram abertas duas unidades em Capão. O objetivo é manter ao menos uma em atividade fora da temporada de veraneio.
— Caímos de paraquedas no litoral gaúcho. Nós trouxemos um pouco da loja pra poder conhecer aquilo que a gente ouvia falar, que o litoral gaúcho era um local próspero para negócios — comenta o empreendedor.
Mesmo com o crescimento das cidades litorâneas fora da temporada, o verão ainda é o responsável por alavancar os comércios locais. Dono de uma rede de supermercados com unidade na praia de Capão Novo, o empresário Cesion Pereira diz que o faturamento do Super da Praia, localizado na tradicional Avenida Paraguassú, aumenta em até 60% entre dezembro e janeiro. Nesse verão, foram contratados 40 novos colaboradores para reforçar a equipe, aumentando o quadro de 70 para 110 funcionários.
— A gente fica muito em função da questão do clima e da temperatura. Se dá um fim de semana bom, as pessoas vêm. Se tem alguma programação, como um feriado e o Planeta Atlântida, têm mais gente — conta Pereira.
Tradição o ano todo
A economia aquecida pela alta temporada também é capaz de consolidar negócios por décadas. É o caso do tradicional Crepe da Barra, uma das mais famosas lanchonetes de Imbé. O empreendimento foi criado em 1991 pelo casal Nadia Simone Santos de Melo e Marco Aurélio de Melo.
— Não tinha muitas opções de comida em Imbé, a praia era bem pequena. A gente começou também bem pequenininho. Com os anos fomos aumentando e hoje chegou nessa grande clientela — conta Nadia.
Segundo a empreendedora, a creperia chegou a receber mil pessoas por dia entre o final de dezembro e o início de janeiro. A fama e o aumento da população após a pandemia permitiram que Crepe da Barra abrisse também fora da temporada, mas apenas nos finais de semana.
— Se tu não conseguires distribuir bem durante o ano o que entra durante o verão tu vais acabar ficando no vermelho. Para trabalhar só com o público local, são muitos comércios para poucas pessoas, então tem que saber dividir bem — complementa.

Boom populacional no verão
- Em Capão da Canoa, a prefeitura estima que a população passa dos tradicionais 110 mil, com base em carteiras do SUS cadastradas no município, para em média 450 mil durante a alta temporada
- Já em Torres, a população passa de cerca de 47 mil, segundo dados do IBGE, para em torno de 200 mil nos meses de veraneio, conforme estimativa da prefeitura
Efeito localizado e competição
Apesar de o turismo de verão ser um importante ativo para o Estado, essa ativação é mais localizada. Do ponto de vista do comércio e dos serviços, o aquecimento da economia é mais limitado a localidades com atrações para veranistas, com destaque para o Litoral Norte, analisa a economista-chefe da Federação do Comércio de Bens e Serviços do Rio Grande do Sul (Fecomércio-RS), Patrícia Palermo.
Levando em conta o Estado como um todo, o primeiro trimestre não costuma ter uma dinâmica econômica muito forte. O comércio, por exemplo, tem, em geral, um período fraco.
— Os meses de janeiro e fevereiro são notadamente marcados por vendas inferiores à média do ano. Acaba a renda extra do final do ano, existem muitas demissões líquidas em dezembro em virtude das vagas temporárias. Também tem uma forte concentração de despesas obrigatórias, como pagamento de impostos nesses meses de início de ano, faturas de cartão de crédito que vêm muito altas em virtude das compras de Black Friday e de Natal. Com isso, o saldo do limite do cartão de crédito fica reduzido e o consumo acaba se voltando para serviços — explica Patrícia.
O turismo de verão gaúcho também disputa espaço com outros destinos nessa época do ano, segundo o professor Gustavo Inácio de Moraes, da Escola de Negócios da PUCRS e doutor em economia aplicada:
— Tem atração para essas regiões litorâneas. O consumo se desloca, vamos dizer, assim. Deixa de estar concentrado num setor industrial, no setor de serviços nas metrópoles e passa para o turismo, em hospedagem e alimentação. Porém, tem uma concorrência cada vez maior. Hoje é muito fácil me deslocar para o Uruguai, para o norte de Santa Catarina ou eventualmente para o Paraná. Isso é um desafio.





