
Nunca antes na história do Rio Grande do Sul um número tão alto de gaúchos havia terminado o ano inadimplente quanto em 2025. A conclusão veio a partir do estudo chamado Mapa da Inadimplência, realizado pela Serasa desde 2016.
Conforme o estudo, ao final de 2025, em dezembro, 4.027.712 gaúchos estavam inadimplentes. O número equivale a 45,36% da população adulta de todo o Rio Grande do Sul e é o maior para o encerramento de um ano no Estado desde o início da série histórica da pesquisa.
Em dezembro de 2023, eram 3.513.406 os gaúchos inadimplentes, 38,73% da população adulta do Estado. Já em 2024, o dado teve leve crescimento, com 3.554.019 gaúchos inadimplentes ao final do ano, ou 40,14% dos adultos no Rio Grande do Sul (veja outros dados mais abaixo).
Ao longo de 2025, outubro foi o mês em que foi registrado o pico histórico da inadimplência no Estado, com 45,51% da população adulta tendo alguma dívida em atraso.
Somando o valor total das contas vencidas, chega-se ao montante de R$ 29 bilhões, distribuídos em 16,7 milhões de dívidas. O ticket médio por inadimplente foi de R$ 7.210,26, e o ticket médio por dívida era de R$ 1.730,86 no período.
— Embora o estado ocupe a 20ª posição no ranking nacional de representatividade, abaixo da média brasileira de 49,77%, o volume financeiro e o perfil das dívidas chamam a atenção. O valor médio das dívidas por inadimplente no RS é significativamente superior à média nacional, que fechou o ano em R$ 6.382,00 — analisa a educadora financeira e professora do curso de ciências contábeis da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Wendy Haddad Carraro.
Inadimplente, conforme a definição levada em consideração pela Serasa, é a pessoa que tem dívidas em atraso, ou seja, que não conseguiu pagar o valor devido no prazo estipulado. O conceito é diferente do endividado, que se refere a quem tem contas a pagar, como parcelas de cartão de crédito, financiamentos ou empréstimos, mas sem ter atrasado pagamentos.

Razões para o cenário atual
Segundo destaca a professora, a inadimplência elevada no Rio Grande do Sul é influenciada por uma combinação de fatores locais e nacionais. Contribuem para o quadro ocorrências como a enchente que devastou o Rio Grande do Sul em 2024 e também as características de consumo da população e o cenário macroeconômico brasileiro.
— Os efeitos da enchente ainda estão presentes e não podem ser ignorados. Muitas famílias perderam renda, patrimônio, estoques ou tiveram gastos emergenciais elevados, o que comprometeu reservas financeiras e aumentou o uso de crédito em condições pouco favoráveis. Em vários casos, a recomposição da renda foi parcial ou mais lenta do que o aumento das despesas. Já havia um endividamento prévio, que já era alto antes da enchente e foi agravado posteriormente — explica a pesquisadora.
De acordo com o levantamento da Serasa, para os inadimplentes gaúchos, os principais credores são:
- Instituições de bancos e cartões: 25,78%
- Serviços: 14,45%
- Utilitários e contas de consumo: 13,17%
— A alta concentração em bancos e cartões sugere um peso grande do juro na inadimplência gaúcha — aponta Wendy Haddad Carraro.
Nesse contexto, entra em cena também o panorama macroeconômico brasileiro. Ao mesmo tempo em que a taxa de juro se manteve em patamar elevado ao longo de todo 2025, o crescimento da renda real das famílias não ocorreu da mesma forma, o que amplia a pressão sobre os orçamentos mais apertados.
— A inflação, de certa forma, se manteve estável nesse ano, com exceção de alguns itens, então o que afetou principalmente a população foi a taxa de juro, que se manteve elevada. Uma Selic a 15% é, sim, um patamar alto, e isso impacta significativamente no planejamento e pagamento das dívidas, ainda mais a médio e longo prazo. A taxa de juro, estando alta, ainda encarece renegociações, dificultando ainda mais a saída do endividamento — complementa Lisiane Fonseca da Silva, economista e professora da Universidade Feevale.

Para sair do vermelho
A pedido da reportagem, a professora Wendy Haddad Carraro montou uma cartilha de dicas para quem está inadimplente e tenta se organizar para ajustar as contas pessoais. Confira:
1. Prioridade para bancos e cartões de crédito
Essas dívidas concentram a maior fatia da inadimplência, cerca de 26,15% no Brasil e 25,78% no Rio Grande do Sul. Como envolvem juro elevado, devem ser as primeiras a entrar em processos de renegociação ou quitação.
2. Atenção redobrada às contas de consumo
Água, luz, gás e telefone representam a segunda maior causa de inadimplência no país (22,12%). Manter essas contas em dia evita a suspensão de serviços essenciais e custos adicionais.
3. Monitoramento das dívidas com financeiras
As financeiras respondem por cerca de 18,74% do endividamento gaúcho. Parcelamentos longos exigem acompanhamento constante para não comprometer o orçamento mensal.
4. Mapeamento completo das finanças pessoais
É fundamental listar todas as receitas, despesas e dívidas, incluindo pequenos gastos, que somados impactam significativamente o orçamento.
5. Priorização das despesas essenciais
Moradia, alimentação, saúde e transporte devem vir antes de compras parceladas ou gastos que podem ser adiados.
6. Combate às dívidas mais caras
Cartão de crédito e cheque especial devem ser o foco principal, pois o juro acelera o crescimento da dívida.
7. Renegociação com planejamento
Antes de fechar acordos, é importante avaliar taxas, prazos e o peso real da parcela no orçamento, evitando soluções que apenas postergam o problema.
8. Criação de margem para imprevistos
Mesmo economias pequenas ajudam a evitar novos atrasos e trazem maior estabilidade financeira no dia a dia.
9. Busca por informação e orientação financeira
Procurar conhecimento é parte do processo de reorganização. Há conteúdos gratuitos e acessíveis, como os materiais e cursos online oferecidos pelo projeto Edufinanceiraufrgs, divulgados pelo Instagram.
Também é recomendado buscar apoio em iniciativas públicas e institucionais, como a Defensoria Pública, os Procons e projetos universitários de educação financeira.
— De forma geral, sair da inadimplência exige menos decisões imediatas e mais consistência ao longo do tempo. Organização, informação e escolhas realistas têm impacto muito maior do que soluções rápidas que apenas postergam o problema — reforça a professora.
Mais dados sobre a inadimplência no RS e no BR
No RS:
Inadimplência por gênero:
- Masculino: 50,1%
- Feminino: 49,9%
Inadimplência por idade:
- Até 25 anos: 10,6%
- Entre 26 e 40 anos: 32%
- Entre 41 e 60 anos: 34,4%
- Acima de 60 anos: 23%
Cidades com o maior número de inadimplentes em dezembro de 2025:
- Porto Alegre: 577.626
- Caxias do Sul: 164.475
- Canoas: 163.062
- Pelotas: 120.773
- Santa Maria: 109.834
No Brasil:
Em todo o território nacional, o número de inadimplentes em dezembro de 2025 era de 81.248.016, equivalente a 49,77% da população adulta brasileira.
Inadimplência por gênero:
- Masculino: 49,6%
- Feminino: 50,4%
Inadimplência por idade:
- Até 25 anos: 11%
- Entre 26 e 40 anos: 33,4%
- Entre 41 e 60 anos: 35,6%
- Acima de 60 anos: 20%
Capitais com o maior número de inadimplentes em dezembro de 2025:
- São Paulo: 5,5 milhões
- Rio de Janeiro: 2,9 milhões
- Brasília: 1,4 milhão
- Fortaleza: 1,3 milhão
- Salvador: 1,2 milhão




