
A economista Izete Pengo Bagolin, 56 anos, enfrentou inúmeras dificuldades desde a infância para conseguir estudar, mas as superou com determinação e construiu uma trajetória acadêmica e profissional notável. De família humilde, de pequenos agricultores que moravam em São Pedro do Sul, na região central do Estado, Izete começou os estudos em uma escola que funcionava em uma pequena casa de madeira, que só tinha uma professora e somente uma turma, com alunos entre primeira e quinta série. Anos mais tarde, já cursando doutorado na UFRGS, chegou a fazer uma etapa de doutorado sanduíche na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, uma das mais prestigiosas do mundo.
Antes, Izete concluiu a graduação em Economia na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e um mestrado em Economia Rural na UFRGS. Depois de passar pela Inglaterra e concluir o doutorado também na UFRGS, ainda teve uma bolsa de professora visitante na Universidade de Marquette, nos Estados Unidos, e foi bolsista de pós-doutorado na Universidade de Lisboa.
No final de 2025, Izete recebeu o prêmio de Economista do Ano concedido pelo Conselho Regional de Economia do Rio Grande do Sul (Corecon-RS). No início de 2026, a pesquisadora completa 20 anos como docente da Faculdade de Economia da PUCRS, onde também é uma das coordenadoras do PUCRS Data Social, um laboratório de pesquisa focado em desigualdade, pobreza e mercado de trabalho, temas nos quais se especializou ao longo da carreira acadêmica.
Nesta entrevista, a economista conta mais detalhes de sua trajetória e formação e comenta aspectos da sociedade brasileira relacionados aos temas de suas pesquisas. Confira:
Como foi a tua infância e juventude e as dificuldades que tu enfrentaste para estudar?
Venho de uma família bem humilde, sou filha de pequenos agricultores, semianalfabetos, e que colocaram eu e meus irmãos para trabalhar desde pequenininhos na lavoura. Onde eu nasci, em um distrito de São Pedro do Sul, tinha uma única escolinha municipal, então da primeira à quinta série, eu estudei nessa escolinha. Essa escola era uma casinha de madeira, só tinha uma professora, que dava aula para cerca de 15 crianças, de diferentes idades, e a professora não tinha nem se formado no Ensino Médio, ela praticamente alfabetizava as crianças e ensinava mais algumas coisas.
Concluí o quinto ano com 11 anos, e aí fiquei três anos sem estudar, até os 14 anos, quando convenci minha família a ir para um colégio de freiras em Santa Maria. Eu gostava muito de estudar e queria continuar estudando, mas meu pai não queria que eu continuasse, queria que eu voltasse para trabalhar na lavoura, mas ser freira ele aceitava, porque ele achava que eu estaria bem encaminhada e também porque lá na região era muito forte a crença que dizia que se a família tivesse alguém que fosse freira ou padre, todos iriam para o céu.
Com 15 anos eu já trabalhava no colégio para pagar os estudos, porque meus pais não tinham condições. E aí quando avisei meu pai que eu não queria ser freira, queria ir para a faculdade, ele praticamente rompeu relações, e só voltou a falar comigo depois que eu passei no vestibular.
Quando tu começaste a vislumbrar a possibilidade de fazer um vestibular e entrar na faculdade? E como foi o período de graduação e estudos posteriores?
Era um desejo que eu já guardava de forma secreta há alguns anos, desde quando fui para Santa Maria estudar. Eu tinha primos mais velhos que serviram como referências. Meu primo trabalhava em um banco, e a partir disso eu comecei a querer isso pra mim também, trabalhar em um banco. Foi isso também que me chamou a atenção para estudar Economia. Fiz o vestibular, passei na Universidade Federal de Santa Maria, e trabalhei em diversos empregos para me manter durante a graduação, enquanto dividia um quarto com uma amiga em uma espécie de república estudantil.
No último estágio que eu fiz, entrei mais em contato com a pesquisa, e então decidi que esse poderia ser um caminho a seguir. Após o fim da graduação, acabei conseguindo uma vaga no mestrado da UFRGS em Economia Rural, que não era exatamente a área que eu queria, mas foi como consegui entrar. Depois, já consegui fazer o doutorado na minha área, novamente na UFRGS, sob orientação do professor Flávio Comim. Também por orientação do professor Flávio, apliquei para o doutorado sanduíche em Cambridge, onde fiquei um ano e meio e depois voltei ao Brasil, para concluir o doutorado.
Que sentimento essa trajetória te traz?
Sem dúvidas uma sensação de orgulho, de satisfação de ter conseguido chegar lá, e também de certa incredulidade, às vezes. Mas eu demorei a me acostumar com isso, e enquanto estava lá na Inglaterra, também sofri muito. Tinha muita ansiedade e sofri muito com uma síndrome de impostor, me achava meio fraude, me comparava com os outros e achava que aquilo era muito distante da minha realidade, que a qualquer hora alguém iria me "descobrir", que eu não seria capaz de estar ali.
Certa vez, em um evento de uma ONG internacional, conheci uma mulher desta ONG com quem conversei, contei minha história, e ela ficou super impressionada, disse que eu deveria escrever um livro contando a minha trajetória. A partir daí começou a cair um pouco mais a minha ficha, de perceber o quanto era improvável minha história mesmo, uma trajetória incomum, e que me orgulha muito.
O quanto a tua trajetória pessoal influenciou na escolha dos teus temas de pesquisa, e qual é a importância de pesquisar assuntos relacionados a pobreza e desigualdade social em um país como o Brasil?
Bom, a minha experiência pessoal foi um grande motivador para eu escolher esse tema para pesquisar mais profundamente, sem dúvidas, e ter tido essa experiência ajuda a ter um olhar não exclusivamente acadêmico sobre essa questão também.
Falando do Brasil, pesquisar esse tema é importante em diferentes aspectos. O primeiro é ajudar a conscientizar a população em relação à realidade do país.
No Brasil ainda há muita miséria e desigualdade, mas muitas pessoas ficam presas em suas bolhas e desconhecem essa realidade.
Um segundo aspecto de importância se refere à produção de conhecimento técnico sobre esses assuntos, à produção de indicadores, dados que apontam defasagens sociais, e a partir disso contribuir para embasar a formulação de políticas públicas que possam ser mais eficientes no combate a essas questões, em âmbito municipal, estadual ou federal. Políticas públicas que ajudem as pessoas a saírem da condição de pobreza, que rompam esse ciclo que muitas vezes é multigeracional, e que ainda afeta muita gente no nosso país.
Como tu avalias o Bolsa Família enquanto política pública destinada a apoiar famílias em situação de pobreza?
Eu enxergo o Bolsa Família como um programa muito necessário, neste nosso país com alta desigualdade, baixo nível de escolaridade, baixa igualdade de oportunidades e de acesso a serviços básicos. O programa tem críticos, mas pensar que fazer uma transferência de renda nessa quantidade para uma família altamente necessitada, que não está em condições de comprar nem o básico para sobreviver, e que por isso vão deixar de trabalhar, ou supostamente fazer mais filhos para receber o benefício, é não compreender a complexidade da pobreza. Quem acha isso deveria fazer o exercício de viver com o valor correspondente ao que a pessoa recebe do Bolsa Família. É insuficiente para ter uma vida digna. Além de ter condicionantes, como manter os filhos na escola, e outros, é um valor de apoio, para que as pessoas não sejam privadas das necessidades mais básicas.
O programa é uma iniciativa necessária, mas também está longe de ser uma solução única suficiente para a superação da pobreza.
Programas de transferência de renda, em geral, são um começo de um processo de superação de pobreza, que devem funcionar dentro de um conjunto de outros estímulos.
O Bolsa Família realmente é um sucesso em termos de mitigação das consequências da pobreza, mas precisa estar associado com estratégias possíveis de saída desta condição. Se a pessoa fica no Bolsa Família por um longo período de tempo, anos, décadas, é porque alguma coisa falhou no processo como um todo. O ideal é criar as condições para que os beneficiários estudem, para depois se tornarem autônomos.
Tu és um exemplo de alguém que mudou a própria trajetória através da educação. Como enxergas o efeito de políticas públicas de acesso ao Ensino Superior que foram implementadas no Brasil nas últimas décadas?
O Brasil é um bom exemplo de algumas políticas públicas e educacionais que funcionaram e funcionam muito bem. Há programas de bolsas para pós-graduação, mestrado, doutorado, bolsas de iniciação científica, que fazem grande diferença no acesso a essas qualificações que para muitos são muito difíceis de conseguir. As políticas de cotas também funcionam muito bem como uma estratégia de redução de desigualdades.
Essas políticas têm realmente contribuído para isso, para melhorar a inclusão, a equidade no acesso ao Ensino Superior. Mas são importantes também os investimentos na educação básica. Não se pode tentar corrigir problemas de desigualdades na educação apenas com políticas voltadas ao Ensino Superior e pós-graduação, sem voltar a investir também na educação básica. A qualificação nessa etapa anterior ao Ensino Superior ajuda todos os alunos a chegarem melhor preparados na fase seguinte, e também ajuda a diminuir os índices de evasão nas universidades, que prevalecem mais sobre os alunos de grupos socialmente mais vulneráveis.
Te graduaste em 1994 e já atuas na PUCRS há 20 anos como professora e pesquisadora da pobreza e da desigualdade no Brasil. Como tu avalias a evolução dessas condições no país nesse período?
A pobreza mais severa, mais profunda, a pobreza extrema, os níveis de carência mais drásticos, reduziram, mas sem ter reduzido de forma significativa a desigualdade no país, e sem ter reduzido de forma significativa a vulnerabilidade à pobreza. Ainda há uma parcela significativa da população vulnerável, entrando e saindo da pobreza, em oscilação ligada aos aspectos macroeconômicos, oscilações conjunturais do mercado, então tem muita gente que está ali no limite da chamada pobreza monetária.
Se a gente analisa a pobreza monetária, as pessoas entram e saem com maior variação, mas quando a gente olha para uma perspectiva de pobreza multidimensional, em que não se leva só em consideração a renda, mas também acesso a serviços, acesso a energia elétrica, água tratada, saúde, isso também melhorou no Brasil nesse período das últimas décadas.
Claro que ainda há problemas, e outras áreas que poderiam ter avançado mais para um país com o nível de renda e o estágio de desenvolvimento econômico que a gente está. Mesmo a educação. Já deveríamos ter menores níveis de analfabetismo, por exemplo. Então, de forma geral, muitas coisas avançaram, mas o avanço poderia ter sido mais abrangente.
E de que forma tu analisas a pobreza e a desigualdade no Rio Grande do Sul, dentro do contexto nacional?
No Brasil, o Estado do Rio Grande do Sul não está entre os piores em termos de desigualdade, mas também é um Estado desigual, com grande diferença de renda e acessos entre os extremos sociais da população. O Estado já esteve entre os melhores em termos de níveis educacionais, mas nós perdemos posições e a oportunidade de, por meio da qualidade da educação, reduzir as desigualdades sociais em geral.
Somos um Estado com uma parcela significativa da população ainda em situação de pobreza, em trabalhos precários, em atividades informais, em situações em que para garantir o sustento da família as pessoas precisam trabalhar um número excessivo de horas. Isso é uma forte característica de um Estado com desigualdade, com desigual capacidade de acesso às oportunidades de boa qualificação e empregos de boa remuneração.
Como os níveis de pobreza no Brasil se relacionam com marcadores de raça e gênero?
Os grupos mais vulneráveis à pobreza multidimensional e à incidência da pobreza monetária no Brasil ainda são significativamente os pretos e pardos. Dentro desse grupo, o maior percentual de pessoas pobres são mulheres negras, e a maior severidade — ou seja, os que têm maiores níveis de pobreza — são os homens negros.
Também há outras dimensões a se analisar, quando olhamos para os grupos com maior abandono escolar, os homens negros são os mais atingidos, e quando falamos em renda no mercado de trabalho, as mulheres negras são as que recebem menos. Essa intersecção é histórica no Brasil. Em alguns aspectos essas desigualdades também diminuíram nas últimas décadas, mas ainda é uma situação muito alarmante.
Em 2023, o Prêmio Nobel de Economia foi concedido a Claudia Goldin, que pesquisa muito a desigualdade de renda no mercado de trabalho entre gêneros. Como tu vês esse cenário no Brasil?
Na maioria dos países em desenvolvimento, como os outros países latino-americanos, ou mesmo Índia, África do Sul, acontece algo curioso, porque, em boa parte deles, de forma geral, as mulheres estudam mais, têm uma média de anos de escolaridade superior aos homens e, ainda assim, um salário em torno de 30% inferior ao dos homens.
Se você pegar a média do salário das mulheres sem ou com Ensino Superior no Brasil, vai ser inferior à média do salário dos homens. Com pós-graduação a mesma coisa. E se pegar a média de escolaridade, as mulheres estudam mais, mas mesmo assim recebem menos, e tem menos oportunidades de progressão de carreira, o que também se reflete no salário.
O Brasil ainda é um país com essa desigualdade, e a disparidade de renda entre homens e mulheres se dá em diferentes aspectos, como na discriminação direta em trabalhos na mesma área, e também muitas vezes nos papéis que esperam das mulheres na sociedade, tendo que cuidar mais da casa e da família, por exemplo.
Além disso, historicamente, os homens também tiveram primeiro maior acesso ao Ensino Superior, e também muitos dos cursos mais prestigiados, como Direito, Medicina, Engenharia, eram considerados mais “masculinos”, enquanto Enfermagem, Serviço Social, eram mais “femininos”. Essa desigualdade ainda está presente. A sociedade não evoluiu para deixar essa situação mais igualitária, mas o reconhecimento do trabalho da professora Goldin foi fundamental para o reconhecimento dessas diferenças e para fazer esse debate avançar.


