
Em meio ao calor de fornos e caldeiras, ao suor de trabalhadores obstinados e ao barulho de marteladas e cortes de serra em metal, sob o olhar visionário de um empreendedor alemão, se forjou no Rio Grande do Sul uma das multinacionais brasileiras mais bem-sucedidas em todos os tempos: a Gerdau. Atualmente entre as maiores siderúrgicas do mundo, a empresa completa 125 anos de fundação em 2026.
A história da Gerdau começou oficialmente em 1901, quando o empreendedor alemão João Gerdau adquiriu a fábrica de pregos Ponta de Paris, que fora fundada em 1891 e posta à venda em 1900 após falir. Johannes Heinrich Kaspar Gerdau chegou em 1869 ao Brasil — onde acabou virando "João" — e se estabeleceu inicialmente com um pequeno comércio no Morro Pelado, em Agudo, na região central do Rio Grande do Sul. Morou ainda em Cachoeira do Sul antes de se mudar com a esposa, Alvine Maria, e os três filhos, Hugo, Walter e Bertha, para Porto Alegre.
Após comprar a fábrica de pregos, João logo passou o comando da firma a Hugo, filho mais velho, na época com 25 anos — em 1903, a razão social da empresa foi mudada para João Gerdau & Filho. Enquanto o pai continuou cuidando de projetos imobiliários e outros negócios no Interior, o filho se tornou o principal administrador da fábrica, papel que manteria pelas décadas seguintes.
João Gerdau faleceu em 1917, em Porto Alegre. A esta altura, a razão social da empresa já tinha sido trocada para Hugo Gerdau. Hugo administrou a companhia até falecer, em 1946.
— O negócio foi impulsionado por novas gerações da família, por seus colaboradores e por todas as pessoas que fazem parte dessa história. Desde o início, a empresa estimulou o espírito empreendedor em sua jornada, uma chama que permanece vívida até hoje em sua cultura — destaca André Gerdau Johannpeter, membro da quinta geração da família com atividades na Gerdau e atual presidente do Conselho de Administração da empresa.

A fundação da Gerdau em 1901 se encaixa no contexto da primeira onda mais forte de industrialização que passou pelo Rio Grande do Sul. Entre as últimas décadas do século 19 e as primeiras do século 20, também foram fundadas outras empresas que marcaram a história industrial do Estado, como Neugebauer (1891), Wallig (1904) e AJ Renner (1912).
— A trajetória da Gerdau se confunde com a própria história da industrialização do Rio Grande do Sul. É um exemplo muito claro de como o empresariado gaúcho soube transformar iniciativa, trabalho e visão de longo prazo em um projeto industrial sólido e duradouro. O crescimento da Gerdau, de uma pequena fábrica de pregos até se tornar a maior empresa brasileira produtora de aço, reflete exatamente essa capacidade de inovar, investir e pensar o futuro — afirma Claudio Bier, presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (Fiergs).
A história da Gerdau também exemplifica outro aspecto fundamental para o desenvolvimento inicial da industrialização no Rio Grande do Sul: a influência dos imigrantes, principalmente alemães.
— O Rio Grande do Sul passava por um processo de diversificação da sua economia, deixando de ser quase que fundamentalmente agrário para começar também a desenvolver uma indústria incipiente. Neste contexto, os imigrantes europeus, notadamente os alemães, foram essenciais, trazendo para o Estado uma experiência e um know-how industrial, e de comércio exterior, que aqui antes não havia, o que ajuda a explicar o sucesso desses empreendimentos — explica o economista Pedro Fonseca Dutra, professor da UFRGS e pesquisador do desenvolvimento econômico gaúcho e brasileiro no século 20.
Ingresso na indústria siderúrgica
Após a morte de Hugo Gerdau em 1946, o genro dele, Curt Johannpeter, casado com sua filha Helda, assumiu o controle da empresa. Esta nova sucessão familiar — os descendentes das famílias Gerdau e Johannpeter ficaram no controle executivo da empresa até 2018 e hoje estão no Conselho de Administração — também se provaria fundamental para a continuidade do sucesso da Gerdau pelas décadas seguintes.
Curt também era alemão, tendo nascido em 1899 na cidade de Bielefeld. Em uma viagem a trabalho pelo Brasil, conheceu Helda, com quem se casou em 1930, ingressando posteriormente nos negócios da família da esposa.
Já sob o comando de Curt, no final da década de 1940, a Gerdau deu um passo decisivo em sua história. Em 1948, a empresa adquiriu a Siderúrgica Riograndense S.A., ingressando definitivamente no setor que a projetaria globalmente.
— A fábrica de pregos era uma das mais tradicionais e prósperas da região, mas o acesso ao arame, matéria-prima para a produção dos pregos, foi dificultado pelas restrições de comércio geradas pela Segunda Guerra Mundial. A liderança da Gerdau na época entendeu, então, que, para manter a empresa sólida, era preciso buscar outras fontes de fornecimento de insumos. Foi assim que a companhia tomou uma decisão inovadora e entrou no setor do aço com a aquisição da Usina Riograndense, em Sapucaia do Sul. Até hoje, os pregos continuam sendo produzidos nesta unidade — ressalta André Gerdau.

A partir da compra da siderúrgica, começou a produção do famoso aço Gerdau, que consagraria definitivamente a empresa e a marca. Além desta diversificação de negócios, a companhia também passou a suprir sua própria demanda por matéria-prima para a produção dos pregos, que aumentaram em procura e preço a partir da Segunda Guerra Mundial, valorizando as atividades da empresa.
Nos anos seguintes, se valendo de processos inovadores para a época — como a produção do aço a partir do modelo de "minimills", com a fundição de sucata ferrosa — a Gerdau continuou seu processo de crescimento, com a abertura de novas unidades no Estado. Logo, os limites territoriais do Rio Grande do Sul ficaram pequenos para os negócios da empresa, que começava a consolidação do que se transformaria em um verdadeiro império.
Expansão nacional e internacional
No final dos anos 1960, já estabelecida como siderúrgica, a Gerdau começou novos movimentos decisivos em seu processo de expansão. Foi nesta década que a empresa passou a ter presença física em outros Estados.
O primeiro passo nesse sentido foi dado em 1967, quando a companhia adquiriu a fábrica de pregos e arames São Judas Tadeu, em São Paulo. Em 1971, a empresa seria transformada na Comercial Gerdau, funcionando como ponto de distribuição de produtos da Gerdau no Brasil.
Em 1969, a Gerdau inaugurou a conhecida siderurgia Açonorte em Recife, Pernambuco. A partir daquele momento, a companhia passou a produzir aço também fora do Rio Grande do Sul.
Em 1971, a empresa adquiriu outra siderúrgica, a Cosigua, no Rio de Janeiro, e continuaria neste processo pelos anos seguintes. Entre outras aquisições, ainda englobaria ao grupo a usina Barão de Cocais, em Minas Gerais, no ano de 1988 — em 2009, a Gerdau passou a produzir minério de ferro em terras mineiras.
— Entre o final da década de 1960 e início da década de 1970 ocorreu o período que ficou conhecido como "milagre econômico brasileiro". Foi uma fase de forte industrialização no Brasil, de crescimento do PIB, e que favoreceu esse movimento de expansão nacional da Gerdau — aponta o professor Pedro Fonseca Dutra.
Já na década seguinte a Gerdau começa a superar as fronteiras nacionais. O início da expansão internacional da empresa se dá em 1980, com a compra da Siderúrgica Laisa, no Uruguai.
Também no início desta década, em 1983, a empresa tem mais uma renovação em sua liderança. Com a morte de Curt Johannpeter em abril daquele ano, uma nova geração da família tomou a frente da empresa: os irmãos Germano Gerdau Johannpeter, Klaus Gerdau Johannpeter, Jorge Gerdau Johannpeter (que foi empossado presidente) e Frederico Gerdau Johannpeter, filhos de Curt e Helda.
Os quatro irmãos chegaram à liderança da empresa com a missão principal de dar sequência à expansão internacional. A partir daí, nas décadas seguintes, a Gerdau compraria unidades produtivas no Canadá (1989), na Argentina (1997), nos Estados Unidos (2001), no Peru (2006) e no México (2007). No meio deste caminho, em 1992, também inaugurou a Siderúrgica Piratini, em Charqueadas.
— Não tenho dúvidas de que a nossa capacidade empreendedora, visão de longo prazo e vocação para inovar contribuíram para que a Gerdau se tornasse uma das principais multinacionais brasileiras, com operações hoje em diversos países nas Américas, e uma referência de internacionalização bem-sucedida no setor industrial nacional. Colhemos os frutos dessa jornada de internacionalização até hoje, uma vez que a diversificação geográfica nos permite operar com mais solidez financeira e flexibilidade produtiva diante diferentes cenários macroeconômicos — reforça André Gerdau.
Atualmente, a Gerdau é a maior produtora de aço do Brasil, com unidades de produção em diversos Estados brasileiros e mais de 70 pontos comerciais pelo país, estando presente também em sete países nas Américas. A empresa possui 29 plantas produtoras de aço, sendo 13 unidades somente na América do Norte. Ao todo, a companhia conta com cerca de 30 mil colaboradores em todas as suas operações, nacionais e internacionais.
O aço da Gerdau, hoje, se transforma em vigas, prédios e pontes que reforçam estruturas Brasil e mundo afora. E toda essa história começou com a visão de um empreendedor alemão, que, ao adquirir uma falida fábrica de pregos em Porto Alegre, no início do século, daria início a uma companhia que aos 125 anos se mostra cada vez mais inoxidável.




