
Em balanço divulgado na sexta-feira da última semana (28), os Correios anunciaram prejuízo de R$ 6 bilhões, valor acumulado somente nos três primeiros trimestres deste ano. O resultado é o mais recente capítulo de uma ampla crise financeira na estatal, que operou com resultado negativo nos últimos 13 trimestres consecutivos, em sequência iniciada ainda no final de 2022.
Este período de prejuízos chegou após a empresa operar cinco anos consecutivos com resultado anual positivo, entre 2017 e 2021. Nesse ano, a empresa obteve lucro de R$ 3,7 bilhões. Em meio à pandemia, houve um rápido crescimento do comércio eletrônico, e a demanda pela entrega de encomendas atingiu um grande volume, favorecendo a atuação da empresa.
Contudo, desde então, uma soma de motivos levou a estatal a acumular uma série de resultados negativos: a taxação de compras de sites estrangeiros, o crescimento da competição no mercado da entrega de encomendas e o pagamento de acordos judiciais.
— A empresa registrou piora progressiva em suas receitas e aumento em suas despesas, o que levou a uma piora em seu resultado primário. A receita líquida anual caiu cerca de R$ 2,4 bilhões entre 2021 e 2024, enquanto a despesa anual cresceu aproximadamente R$ 3,7 bilhões no mesmo período — destaca o economista Pedro Souza, analista da Instituição Fiscal Independente (IFI), ligada ao Senado.
Após um período de dois anos e sete meses de presidência do advogado Fabiano dos Santos, iniciado em fevereiro de 2023, o economista Emmanoel Rondon assumiu o mais alto cargo dos Correios há pouco mais de dois meses, em 26 de setembro.
Em sua primeira entrevista coletiva, realizada em 15 de outubro, Rondon confirmou que a empresa enfrentaria um plano de reestruturação nos próximos meses, com um novo programa de demissão voluntária (PDV).
— O que a gente está negociando para a operação é para ter reequilíbrio da empresa de 2025 e 2026. Ter tempo de adotar as medidas, que começam a impactar em 2026, para, em 2027, a gente conseguir iniciar um ciclo de balanço em azul. Então, a ideia é que em 2027 a empresa deve estar reequilibrada — afirmou Rondon na ocasião.
Contatados por Zero Hora, os Correios falaram que só comentariam detalhes de sua situação financeira da empresa após o lançamento oficial do plano de reestruturação.
Razões para a crise
No relatório de divulgação do balanço do primeiro semestre deste ano, quando os Correios já acumulavam prejuízo de R$ 4,3 bilhões, a empresa afirmou que "enfrenta restrições financeiras decorrentes de fatores conjunturais externos que impactaram diretamente a geração de receitas".
Diz ainda o comunicado que, entre os principais motivos, "destaca-se a retração significativa do segmento internacional, em razão de alterações regulatórias relevantes nas compras de produtos importados, que provocaram a queda do volume de postagens e o aumento da concorrência, resultando na redução das receitas vinculadas a esse segmento".
O trecho faz referência ao Programa Remessa Conforme (PRC), também chamado de "taxa das blusinhas", que entrou em vigor em agosto de 2024. Implementada pelo governo federal para deixar os produtos do varejo nacional mais competitivos e também na tentativa de aumentar a arrecadação do Planalto, a taxa imposta a compras internacionais de até US$ 50 também atingiu diretamente uma importante fonte de receita dos Correios, diminuindo o volume de movimentações.
A partir do estabelecimento do PRC, a legislação nacional ainda foi alterada para permitir que empresas particulares de transportes também pudessem operar os serviços de frete de mercadorias internacionais no território nacional, o que até aquele momento tinha distribuição obrigatória via Correios. Segundo o g1, um estudo produzido pela própria empresa estimou prejuízo de até R$ 2,2 bilhões em razão da alteração somente em 2024.
Em artigo publicado em agosto, o então presidente da empresa, Fabiano dos Santos, afirmou que "os Correios detinham 98% do mercado de postagens internacionais. Hoje, essa participação não chega a 40%. A mudança, demanda legítima do varejo nacional, aliada à nova dinâmica do mercado, afetou a produção de receita e a disponibilidade de recursos financeiros".
Valério Marçal, que ocupou os cargos de diretor financeiro (2019 a 2022) e de presidente interino dos Correios (2022 a 2023), aponta que "a concorrência de grandes marketplaces e operadores logísticos é uma realidade mundial", que faz exigir uma nova postura da estatal.
— Amazon, Mercado Livre e outros players atuam com escala global, tecnologia avançada, centros de distribuição automatizados e inteligência de dados, o que cria pressão competitiva sobre preço, prazo e nível de serviço. Para conviver com essa concorrência, é preciso operar com governança, disciplina de custos e visão estratégica.
Outro fator de impacto nas contas dos Correios nos últimos anos foi o aumento da necessidade de pagamentos de despesas judiciais, fruto de uma mudança de estratégia da direção da empresa, que começou a optar pela celebração de acordos nas ações para diminuir o volume de processos. Dessa forma, o pagamento de precatórios saltou de R$ 483 milhões em 2024 para R$ 2,1 bilhões até setembro. Apenas no terceiro trimestre, foram reconhecidos R$ 524 milhões.
Outro impacto nos resultados veio do juro sobre empréstimos contratados entre 2024 e 2025, somando R$ 157 milhões. A empresa tomou R$ 550 milhões no fim do ano passado e R$ 1,8 bilhão em junho deste ano. Em 2024, os Correios também fecharam acordo para direcionar, paulatinamente, R$ 7,6 bilhões de seu caixa para cobrir o rombo no fundo de previdência de seus funcionários, o Postalis.
— Operar em situação de déficit por diversos exercícios pode ser danoso porque, em algum momento, haveria a necessidade de recompor o caixa ou de tomar empréstimos para sanar a situação financeira da empresa, o que também acaba se refletindo nesse resultado — complementa Pedro Souza.
O novo plano de reestruturação
Ainda em outubro, o novo presidente dos Correios anunciou a intenção de captar R$ 20 bilhões para reforçar o caixa da empresa. O valor se somaria às outras medidas previstas em um novo plano de reestruturação, já aprovado pela nova gestão.
Este plano, que ainda será lançado de forma oficial, prevê uma série de ações que buscarão recuperação financeira, revisão do modelo de negócios e expansão estratégica. Entre as medidas incluídas, estão:
- programa de demissão voluntária (PDV)
- redução das unidades de atendimento
- venda de bens da empresa
— A gente precisa recuperar a liquidez da empresa para que a gente possa, por exemplo, ter capacidade de pagar o plano de demissão voluntária. Estamos fazendo uma operação com bancos para realizar uma tomada de recursos — afirmou Emmanoel Rondon da empresa durante o anúncio do plano.

Em maio deste ano, ainda sob a gestão anterior, os Correios já tinham proposto um pacote de medidas para tentar arrefecer a crise da empresa, que incluía medidas como redução da jornada de trabalho e outro programa de demissão voluntária. O PDV de maio teve adesão de aproximadamente 3,5 mil funcionários, o que, segundo a empresa, gerou uma economia anual de cerca de R$ 750 milhões.
A expectativa dos Correios é que se voluntariem no PDV do novo plano 10 mil do total de 83 mil funcionários da empresa, cerca de 12% das equipes. No Rio Grande do Sul, atuam aproximadamente 4,7 mil trabalhadores dos Correios.
Para Alexandre Nunes, secretário-geral do Sindicato dos Trabalhadores dos Correios no Rio Grande do Sul (Sintect-RS), o PDV não deve ter grande adesão.
— A adesão sempre depende das condições oferecidas, mas, a julgar pelos últimos programas, as condições não devem ser boas. A mão de obra já está precarizada, os equipamentos de trabalho estão ultrapassados e há concursados para trabalhar na empresa já aprovados e que não foram chamados. Os Correios precisam voltar a aumentar a receita, mas não dificultando ainda mais as condições de trabalho, e sim com mudanças na legislação, voltando a priorizar os Correios para as entregas de encomendas internacionais, por exemplo — afirma Nunes.
Outra medida prevista no plano de reestruturação dos Correios é o fechamento de até mil agências deficitárias. No país, o total de unidades em funcionamento é de 10,3 mil, sendo aproximadamente 500 no território gaúcho. Apenas cerca de 15% das agências dos Correios são superavitárias.
— Muitas são deficitárias porque estão em locais longínquos, sem operações que possam ser lucrativas, já que os Correios têm a obrigação de prestar o serviço em todo território nacional, atender todos os municípios, com a universalização estabelecida dos serviços postais. Toda essa estrutura, necessária, tem um custo que, no modelo brasileiro, é financiado com as receitas próprias dos Correios, que nos últimos anos estão em queda — ressalta Roberval Corrêa, presidente nacional da Associação dos Profissionais dos Correios (Adcap).
Com o novo PDV e o fechamento das agências, a direção dos Correios estima cortar custos de até R$ 2 bilhões. Outro R$ 1,5 bilhão é esperado pela venda de imóveis ociosos que sejam de propriedade da empresa. No plano de reestruturação, a estatal projeta também expansão no e-commerce e em parcerias estratégicas, além da possibilidade de operações de fusões, aquisições e outras reorganizações societárias para aumentar a competitividade no médio e longo prazo.
— Infelizmente, vejo a situação atual dos Correios como muito difícil, e acho que esse plano anunciado não oferecerá uma salvação definitiva, e sim um paliativo, para dar um fôlego à operação. Além dos cortes de gastos, é preciso uma mudança de visão estratégica, com busca por novas fontes de receitas e rigor técnico nas decisões e maior eficiência operacional — afirma Valério Marçal.

Novos capítulos
Aprovado pelo Conselho de Administração dos Correios em 29 de novembro, o empréstimo de R$ 20 bilhões para o plano de reestruturação da empresa, que seria feito por um conjunto de bancos, foi reprovado pelo Tesouro Nacional na quarta-feira (3). O Tesouro considerou excessivo o juro pedido pelos bancos que aceitaram fazer a operação. Com a reprovação, o Tesouro não poderá fornecer as garantias da União, que cobririam uma eventual inadimplência dos Correios e praticamente eliminariam o risco para as instituições financeiras.
"A Diretoria Executiva segue trabalhando, em conjunto com os ministérios, na avaliação de alternativas que reforcem a liquidez imediata dos Correios, assegurando o andamento das iniciativas necessárias para a recuperação financeira da estatal", diz um comunicado da empresa, enviado aos funcionários, após a reprovação do Tesouro.
O crescimento do prejuízo nos Correios impacta também o orçamento do governo federal como um todo. Para 2025, o Planalto estimava déficit de aproximadamente R$ 6 bilhões com as empresas estatais, valor que já foi ultrapassado.
O descontrole das contas nos Correios complica ainda mais a missão do governo federal de cumprir a meta fiscal e já tem impacto no manejo de recursos. Pelas regras estabelecidas, quando o déficit é superior ao limite estabelecido na meta, o governo deve compensar esse custo em outras áreas. Até agora, já foram contingenciados R$ 3 bilhões em gastos que seriam executados por outros ministérios.
— Assim, o governo, que poderia aumentar despesas discricionárias em razão de maior espaço na meta nessa última avaliação, precisou reduzir essa margem para comportar a piora do resultado das estatais, impulsionado pela crise nos Correios — explica o economista Pedro Souza.
No Senado, a Comissão de Transparência, Governança e Fiscalização apura possíveis irregularidades na gestão dos Correios. O requerimento para a apuração, aprovado no início de setembro, é de autoria da senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e teve, como relator, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Durante a presidência de Jair Bolsonaro, o governo federal planejava privatizar os Correios. Conforme o atual ministro da Fazenda, Fernando Haddad, essa ideia foi afastada pelo Planalto.
— Não vejo debate dentro do governo sobre privatizar os Correios. Não vejo nenhum ministro propondo isso. Até porque fizemos um levantamento recente sobre a situação dos serviços postais no mundo, é muito difícil o Estado abrir mão desses serviços, até porque parte deles é subsidiada para garantir a universalização — afirmou o ministro em entrevista à GloboNews em 26 de novembro.



