
Pela terceira reunião consecutiva, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central manteve a taxa básica de juros do país estacionada. Com isso, a Selic segue nos atuais 15% ao ano. A decisão do órgão tem como pano de fundo uma inflação que segue alta e fora da meta.
Mas por que a média dos preços segue em elevação no país mesmo em um cenário com juro ancorado em patamar histórico? Mercado de trabalho ainda aquecido, que favorece a demanda, e embaraços internacionais, estão no centro desse processo, segundo especialistas.
- O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulado em 12 meses fechados em setembro chegou a 5,17%.
- Além de mostrar elevação em relação ao período encerrado em agosto (era 5,13%), a inflação segue fora da meta.
- O alvo para 2025 é 3%, mas será formalmente alcançado se ficar em um intervalo entre 1,5% e 4,5%.
- Com isso, a autoridade monetária mantém juro básico inalterado. No entanto, tendência é de reversão desse cenário a partir de 2026.
Movimentos distintos
O economista André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), afirma que a inflação brasileira sofre impactos distintos.
De um lado, apresenta desaceleração em alguns grupos, como alimentos, com dólar mais baixo ajudando nesse processo. De outro, o mercado de trabalho segue aquecido, o que favorece a demanda, e incertezas internacionais seguram freio maior do IPCA. Além disso, os serviços livres (aqueles que não são regulados) seguem pressionando, com o dobro de variação da meta de inflação.
Por isso, com essas forças antagônicas, a inflação cede, mas em uma velocidade menor, segundo o economista:
— O mercado de trabalho está com uma taxa de desemprego abaixo de 6% e isso sustenta a demanda em patamar um pouco mais alto, fazendo com que serviços não desacelerem em direção à meta.
Ou seja, com renda garantida para um grupo ainda grande de pessoas, existe demanda por produtos e serviços. Diante desse apetite, os preços tendem a não ceder de maneira mais visível.
Incertezas internacionais
Incertezas externas também afetam a inflação. Com conflitos bélicos e guerras comerciais, algumas matérias-primas acabam ficando mais caras, respingando no país.
— O mundo também passa por vários tipos de incerteza. A todo momento surge uma guerra, um conflito geopolítico e isso mexe com preços de importantes commodities, como o petróleo, por exemplo — destaca o economista do FGV Ibre.
Desaceleração até o fim do ano
Braz afirma que, mesmo em patamar elevado, a inflação vem mostrando sinais de descompressão em itens e serviços menos sensíveis a mudanças pontuais, o que abre espaço para desaceleração dos preços até o fim do ano.
O relatório Focus, do Banco Central, mostrou que as instituições que fazem parte da pesquisa reduziram a expectativa de inflação pela sexta semana seguida, projetando agora IPCA em 4,55% no fim do ano.
Ou seja, o mercado financeiro aposta que a inflação vai seguir, mas com um patamar abaixo do registrado agora e bem próximo do teto da meta.
— Eles passaram a acreditar mais na meta porque estão revendo para baixo a inflação de 2025 e dos anos à frente. E era uma coisa que não estava acontecendo. Então, para consolidar esse momento, nada mais justo do que manter a Selic um pouco mais alta. Em 15% neste ano e começando a ver, se tudo der certo, alguma possibilidade de corte ainda no primeiro trimestre do ano que vem — afirma Braz.
Um dos pontos que mostram a desaceleração da economia é o próprio mercado de trabalho. Levantamentos recentes mostram, por exemplo, que o saldo de contratações formais segue no azul e em patamar elevado, mas em ritmo mais baixo do que num passado recente.
Outra pressão
- Além de demanda aquecida e problemas externos, desconfiança sobre a política fiscal do governo também pressiona a Selic.
- A autoridade monetária não olha com bons olhos políticas expansionistas, que flertam com descontrole das contas.
- Estimular o crescimento da atividade econômica de uma maneira que não seja sustentável pode provocar repiques de inflação e de aperto monetário no futuro.
Próximo ano
É quase um consenso entre analistas e integrantes do mercado que o ciclo de corte da Selic deve começar na primeira metade do próximo ano. Reforçam essa projeção alguns pontos como inflação e mercado de trabalho apresentando queda de ritmo. Isso passa o recado de que a política de aperto monetário causou o efeito necessário. No entanto, a inversão no ciclo do juro não significa queda brusca na taxa.
— Mesmo começando cedo o corte, em 2026, a Selic não deve encerrar o ano abaixo dos dois dígitos, ela deve encerrar em 12%, 11,75%, porque essa desaceleração tem que ser bem cautelosa e observando vários outros indicadores para que esse esforço todo de ancoragem das expectativas não seja perdido por uma antecipação além da hora — alerta Braz.





