
A Expo Favela RS de 2025 contabilizou 20 mil visitantes, 164 expositores, mais de 100 palestrantes, 800 empregos diretos gerados e R$ 20 milhões em negócios efetivados e prospectados, além da conexão entre 15 fundos de investimento e empreendedores da periferia de todo o Rio Grande do Sul.
Durante os dois dias do evento, sexta (7) e sábado (8), os corredores da Fábrica Guahyba, no Instituto Caldeira, em Porto Alegre, foram completamente tomados por famílias, jovens, profissionais, estudantes e lideranças comunitárias.
A proposta do evento, realizado pela Central Única das Favelas no Rio Grande do Sul (CUFA-RS) com financiamento do governo do Estado e apoio de diversas instituições, foi além da feira.
A programação reuniu painéis com grandes nomes do empreendedorismo nacional, apresentações artísticas, mentorias, rodadas de negócios e competições criativas, reforçando a mensagem que atravessa todo o evento: a periferia produz conhecimento, futuro e soluções.
Corpo ativo, mente sã
Entre os estandes, uma história chamou atenção pela força e pela delicadeza. Carla Silva, 48 anos, técnica de boxe e empreendedora de Esteio, na Região Metropolitana, comanda um centro de treinamento voltado exclusivamente para mulheres.

O projeto começou em 2013 e, desde então, tornou-se um espaço de fortalecimento físico, emocional e comunitário.
— Elas (mulheres) chegavam buscando estética, o emagrecimento. Mas começaram a me contar de outras mudanças: melhora no sono, menos estresse, menos ansiedade. Muitas conseguiram sair de relacionamentos abusivos porque passaram a reconhecer o próprio valor — explica Carla.
O trabalho vai além do treino. Ela concede bolsas para mulheres que não podem pagar, vende camisetas para custear o projeto e compartilha responsabilidades financeiras e afetivas com o grupo.
— É uma família. Uma ajuda a outra. Não é só boxe. É o espaço onde elas respiram, extravasam e descobrem que não precisam aceitar o que machuca — ressalta.
Atualmente, cerca de 30 alunas treinam com a educadora física. Muitas, há anos.
— Já vi adolescente que se machucava por conta da depressão virar uma mulher adulta forte. Já vi mulheres de 60 anos descobrirem coragem para recomeçar. Eu sei que o boxe transforma — reafirma Carla.
Beleza como afirmação e identidade

Em outro ponto da feira, a atmosfera era de trançar, conversar e reconstruir autoestima. Natural de Gravataí, Samantha Corrêa Santos, 34 anos, é trancista profissional e atua há duas décadas com técnicas afro.
O trabalho começou como brincadeira entre amigas, virou sustento em um momento de desemprego e hoje é base de renda para uma equipe de quatro mulheres.
— Valorizar o cabelo afro é valorizar quem nós somos. Por muito tempo, nos disseram que o certo era o cabelo liso. Hoje, quando eu tranço uma menina, eu vejo ela se reconhecer — explica Samantha.
"Ambiente que legitima e fortalece iniciativas"

Na avaliação de Júnior Torres, presidente da CUFA Rio Grande do Sul, o evento confirma a dimensão econômica das periferias e a urgência de políticas e investimentos contínuos nesses territórios.
Ele destaca que a Expo Favela não apenas aproxima empreendedores e investidores, como também cria um ambiente que legitima e fortalece iniciativas que já estão em movimento.
— É o maior evento de empreendedorismo para quem empreende na favela e na periferia no Estado. Foram mais de 6 mil inscritos, o que mostra o tamanho da vontade de gerar renda, mudar a vida da família e criar negócio. Aqui, reunimos investidores e apresentamos esses projetos, pensando no futuro e no desenvolvimento da economia nos territórios — afirma.
Nesta edição, o evento recebeu cerca de 20 mil pessoas, contou com mais de cem painelistas e movimentou, entre negócios fechados e prospectados, cerca de R$ 20 milhões. Para Torres, os números mostram que o debate sobre economia criativa e autonomia financeira nas periferias está em curso — e crescendo.
— As favelas no Rio Grande do Sul movimentam mais de R$ 12 bilhões por ano. Se reuníssemos toda a população de favela do Estado, formaríamos a segunda maior cidade. Conseguimos unir favela e asfalto numa casa que simboliza inovação, que é o Instituto Caldeira. Isso é papo de futuro, é demonstração de força — destaca.
Para os próximos anos, Torres projeta continuidade. A prioridade é consolidar uma agenda permanente de fomento a negócios nas periferias, com ampliação de acesso a fundos de investimento e programas públicos e privados.
— Não existe mudança social sem geração de renda nos territórios. Quem mora na favela quer empreender, quer dignidade, quer futuro. Ocupar espaços é o nosso plano de paz. Para 2026, esperamos fazer a maior edição já vista da Expo Favela no Estado. Nos próximos 30 dias, vamos lançar oficialmente a Expo Favela Rio Grande do Sul 2026 — completa.
Top 5 iniciativas em destaque

Entre os destaques desta edição, Torres aponta o Top 5 de projetos selecionados, que receberão acompanhamento técnico, capacitação ao longo de um ano e um aporte inicial de R$ 10 mil.
— O Top 5 deste ano carrega a mensagem da resiliência e da diversidade de quem vive na favela. Temos desde artesanato feito com rede de pesca até soluções com inteligência artificial. É a prova da potência criativa dos territórios — ressalta.
Confira a seguir o Top 5 da Expo Favela 2025:
PerifaTech

Funciona como um mentor de bolso para pequenos negócios. Pelo WhatsApp, em linguagem simples e acessível (inclusive com envio de áudios), a plataforma oferece orientações rápidas sobre vendas, marketing, crédito e organização financeira.
A proposta é fortalecer empreendedores que estão estruturando seus primeiros passos.
Território AfroSagrado
Projeto cultural que realiza exposições, oficinas, coberturas fotográficas, produção de catálogos e ações em parceria com instituições públicas e privadas.
A iniciativa valoriza religiões de matriz africana, documentando seus espaços sagrados com respeito e responsabilidade, além de transformar cultura em oportunidade de renda e circulação de conhecimento.
SDV (Semeando, Desenvolvendo e Vivendo)
Criado por mulheres da Vila dos Herdeiros, na zona leste de Porto Alegre, o projeto apresenta uma atuação comunitária que une educação ambiental, reaproveitamento de resíduos, geração de renda e segurança alimentar.
Formado majoritariamente por mães solo e recicladoras, o grupo encontrou na reciclagem um recomeço e um caminho de autonomia.
Beneficiadora de Vidros Orgânica
Trabalha com logística reversa de embalagens de vidro. A iniciativa compra garrafas de recicladores, realiza triagem e higienização para que possam ser reutilizadas.
O trabalho reduz o descarte inadequado e atende tanto empresas do setor de envase quanto artesãs que utilizam as embalagens em peças criativas.
Redeiras
Coletivo de artesãs da Colônia de Pescadores São Pedro (Z-3), no extremo sul do Estado. O grupo transforma resíduos como escamas, redes e couro de peixe em biojoias e peças autorais.
O trabalho preserva memória e território, ao mesmo tempo em que gera renda e promove sustentabilidade.


