
Uma realidade cada vez mais presente no país e no mundo, o trabalho por aplicativos segue em expansão no Brasil, mas mostra sinais de desaceleração nos ganhos. Os profissionais que trabalhavam por meio de plataformas em 2024 tiveram um rendimento médio mensal 4,2% acima da renda de trabalhadores que não atuavam por meio desse sistema, mas essa diferença já foi maior em um passado recente.
- Além disso, a quantidade de horas trabalhadas pelos trabalhadores por aplicativos está acima da média geral.
- Em 2024, as pessoas que trabalhavam por meio de aplicativos apresentaram uma renda média mensal de R$ 2.996 — valor 4,2% maior do que a renda de trabalhadores fora desse modelo (R$ 2.875).
- Em 2022, essa diferença era maior, com o rendimento dos profissionais por plataformas superando o dos demais ocupados em 9,4%.
- Esses fatores acendem um sinal de alerta, segundo especialistas e integrantes do setor.
A distância entre os dois rendimentos caiu pela metade. Os dados são do módulo sobre trabalhadores por aplicativos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, divulgado nesta sexta-feira (17) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A pesquisa considera plataformas digitais e aplicativos de serviços (transporte de pessoas, entrega de comida e produtos, serviços gerais ou profissionais).
Mais horas, menos rendimento
A pesquisa do IBGE aponta que, mesmo com rendimento maior, os trabalhadores por aplicativos trabalhavam mais horas e tinham uma média menor de rendimento por período de atividade.
- Os trabalhadores por aplicativo apresentaram jornada de 44,8 horas semanais.
- Já os não plataformizados, 39,3 horas, em 2024.
- Ou seja, os profissionais via plataformas recebiam R$ 15,4 por hora — 8,3% inferior aos que não estão nesta modalidade (R$ 16,8 por hora).
Gustavo Geaquinto, analista da pesquisa do IBGE, afirma que essa comparação entre plataformizados e pessoas com outras ocupações precisa ser ponderada, porque existem disparidades na composição desses dois grupos quanto ao nível de instrução e ocupações predominantemente exercidas.
Por exemplo, existe uma menor proporção, entre os que trabalham para plataformas digitais, de pessoas sem instrução ou com Ensino Fundamental incompleto ou exercendo ocupações mais "elementares", que pegam áreas como serviços gerais. Isso acaba influenciando também a diferença de rendimento, segundo o pesquisador.
Concorrência maior
O professor Moisés Waismann, coordenador do Observatório Unilasalle: Trabalho, Gestão e Políticas Públicas, afirma que a diminuição da distância de rendimentos entre os dois ramos ocorre na esteira de uma série de mudanças. Entre elas, estão o aumento da concorrência e a incorporação de inovações das plataformas pelo mercado convencional.
No início dos serviços por aplicativo no país, as plataformas tinham um protagonismo por serem uma alternativa mais exclusiva. Nos últimos anos, o avanço de outras empresas de plataforma e o trabalho tradicional incorporando algumas das diversidades introduzidas pelas plataformas também atuaram para esse achatamento:
— Como essas outras organizações que não são plataformizadas começaram a incorporar essas novidades, a concorrência começa a se aguçar. Então, há uma tendência de que empresas locais, agora, um pouco mais organizadas, tenham mais poder de concorrência.
Outro reflexo desse aumento de concorrência é um maior número de profissionais atuando via plataformas, segundo Waismann.
— Tem pessoas que estão aposentadas e fazem esse trabalho para poder se distrair. Tem também gente que está em deslocamento para o trabalho e aproveita para fazer alguma coisa nesse meio tempo. E até aqueles trabalhadores que, efetivamente, só encontraram ali uma forma de rendimento. É um público muito diverso, o que aumenta a concorrência — analisa Waismann.
Prós e contras

No dia a dia, os relatos de profissionais, principalmente no ramo de transporte de pessoas, corroboram os apontamentos do IBGE na linha de rendimentos menos vantajosos ante um passado recente.
A presidente do Sindicato dos Motoristas em Transportes Privados por Aplicativos do Estado do Rio Grande do Sul (Simtrapli-RS), Carina Trindade, afirma que muitos motoristas de aplicativo não conseguem atingir a renda necessária para arcar com os gastos, mesmo atuando com uma carga horária elevada. Com isso, acabam mudando de área ou abandonando o segmento, segundo a dirigente:
— O valor do quilômetro rodado está baixo. Muitos motoristas estão indo para outros trabalhos, como os de entrega, ou saindo das plataformas, porque não conseguem arcar com os custos: aluguel do veículo, combustível e manutenção, quando o carro é próprio.
O professor Moisés Waismann destaca que existem prós e contras tanto no serviço plataformizado quanto nos mais convencionais. Por exemplo, em empregos mais "tradicionais", o trabalhador pode ter mais acesso a benefícios, seguridade e estabilidade, mas menos flexibilidade. No trabalho via aplicativo, esse processo pode ser inverso.
Por isso, é importante estar atento às particularidades, segundo Waismann:
— Tem ganhos e perdas. Por exemplo, o plataformizado tem um pouco mais de liberdade, mas tem que correr um pouco mais atrás de alguns contratos, de alguns clientes. No outro, tu até tem um pouco mais peso, mas os clientes vêm até ti, vamos dizer assim.
O levantamento do IBGE também joga luzes sobre a questão da seguridade. O dado mostra que 43,8% dos não plataformizados estavam na informalidade. Já entre os trabalhadores de plataformas, esse percentual era de 71,1%. Além disso, os que atuam nessa modalidade contribuíam menos para a previdência (35,9%) ante os que trabalham fora desse meio (61,9%).



