
Grandes empresas ligadas à cadeia do agronegócio listadas na B3, a bolsa brasileira, não dão boas notícias quanto ao cenário que envolve o ambiente produtivo no país. Uma receita que mistura preços em queda, endividamento dos agricultores e custos elevados para produzir indicam que o momento — cíclico — sai do campo e chega às ações das companhias.
O indicador que acompanha o desempenho das empresas relacionadas ao setor na bolsa, o IAGRO, medido desde 2019, teve o pior desempenho entre os índices da B3 em 2025, com queda de 8,7% até outubro. O levantamento foi feito pela Elos Ayta Consultoria. Além dele, outros dois índices tiveram resultados negativos: o IMAT (Materiais Básicos), em -0,64%, e o IBOVB3 (Empresas Estatais), com recuo de 0,13%. No mesmo período, o Ibovespa, principal índice da bolsa, registrou alta de 21,52%.
— (O IAGRO) É um índice muito amplo, com empresas de vários segmentos diferentes, não só do agronegócio quando olhamos o subsetor primário. Ele corresponde à toda cadeia. Mas o setor como um todo é exposto a dólar. O dólar mais forte, como fechou no ano passado, é mais positivo ao setor, enquanto o dólar mais fraco reduz o desempenho das empresas e vemos isso ao longo deste ano. O segundo aspecto que impacta é o fato de as commodities agrícolas estarem com preço bastante baixo. Tanto o dólar quanto a commodity pressionam os resultados das empresas desse setor, o que contribui para uma queda do índice — avalia João Daronco, analista certificado da Suno Research.
O IAGRO indica a diferença entre os resultados das ações de empresas que compõem o índice. De acordo com o levantamento, das 30 companhias que formam a carteira do agro, 19 encerraram o período com rentabilidade negativa. Seis gaúchas de capital aberto fazem parte do índice. Veja o retorno das ações delas no ano:
- Irani: 36,34%
- 3tentos: 6,98%
- Camil: -2,0%
- SLC Agrícola: -6,43%
- Kepler Weber: -12,98%
- Randon Part: -39,28%
Empresas de segmentos como commodities agrícolas, papel e celulose, açúcar e álcool, e bens industriais ligados ao campo foram as que ficaram no vermelho.
Desde 2019, o índice teve três anos de desempenho negativo:
- 2022: -12,82%
- 2024: -11,35%
- 2025: -8,70% (até o momento)
Fonte: Elos Ayta
Apostar na baixa
Apesar da baixa no índice, o economista chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antônio da Luz, diz que o indicador precisa ser observado levando em conta as suas limitações. Alguns maus desempenhos decorrem de resultados ruins de determinada empresa, e não necessariamente do setor como um todo, observa.
Além disso, existe um comportamento cíclico de alta e queda que é inerente ao mercado de capitais. Por isso, ações em baixa também podem ser oportunas aos investimentos:
— O agronegócio é um setor cíclico, e momentos como esse são pontos de entrada dos investidores que visam o médio e o longo prazos. É evidente que estamos passando por um ciclo de maior dificuldade, mas ciclos de dificuldades e de euforia se intercalam em setores cíclicos, o que sugere ser um ótimo momento de entrada — diz o economista.
E completa:
— Agronegócio leva a sério aquela recomendação do banqueiro londrino Nathan Rothschild: "Invista ao som de canhões e venda ao som de violinos".
O analista da Suno também vê o contexto favorável a algumas ações.
— Existem segmentos específicos que apresentam grande assimetria e isso tende a trazer boa oportunidade de investimento. Olhando o índice como um todo, há empresas que estão bem precificadas e outras, menos. O setor como um todo é muito amplo, e acredito que seja o momento para investir em algumas empresas do setor — acrescenta Daronco.
Financiamento privado
Os instrumentos de financiamento do agro via mercado de capitais, como os Fiagros, as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e os Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), têm se consolidado como alternativas sólidas de investimento nos últimos anos. Segundo os especialistas, esta deve se tornar a principal alternativa de custeio do setor, dadas as restrições de créditos públicos como o Plano Safra. Este ano, no entanto, avalia Antônio da Luz, as aplicações privadas estão mais travadas em razão, principalmente, das recuperações judiciais envolvendo empresas ligadas ao setor.
Último levantamento do Monitor RGF de Recuperação Judicial revelou que a região sul do país teve o segundo maior avanço proporcional no número de empresas em recuperação judicial no segundo trimestre de 2025, atrás do Sudeste. No Rio Grande do Sul, foram 33 casos a mais (+7,7%), o maior salto entre os Estados. Parte significativa envolve companhias ligadas ao agronegócio. Foram 22 pedidos de recuperação judicial do setor em 2024 no RS, somando R$ 633 milhões em dívidas renegociadas.




