
Com a taxa básica de juro, a Selic, em patamar elevado (15%), os consórcios têm ganhado espaço e se tornado uma alternativa para quem busca crédito mais acessível.
Segundo a Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac), a modalidade atingiu 12 milhões de pessoas em agosto deste ano, 10,6% a mais do que no mesmo mês de 2024.
O crescimento é puxado por um público diversificado, que vai de agricultores e pequenos empreendedores até investidores.
Em comum, todos têm a possibilidade de adquirir bens, como imóveis ou automóveis, ou investir em seus negócios com menor custo e mais previsibilidade.
O modelo chama a atenção porque, diferentemente do financiamento — que tem liberação de crédito "imediata" e pagamento de juro composto, encargos e seguros —, o consórcio possibilita a compra programada sem juro. O contratante paga apenas uma taxa administrativa diluída nas parcelas.
— O consórcio vale mais em momentos de juro muito alto, quando o financiamento acaba ficando mais caro. Também é mais vantajoso para quem não tem urgência e pode esperar para adquirir um bem. É indicado para pessoas que têm certa disciplina financeira e planejam a longo prazo e para quem quer formar um patrimônio de forma gradual — detalha a professora da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Wendy Carraro.
Segmento em crescimento
De acordo com a Abac, o segmento de imóveis lidera o sistema de consórcios, tanto em volume de créditos comercializados quanto no tíquete médio.
No acumulado de janeiro a agosto de 2025, o setor quebrou recorde de vendas das últimas duas décadas, chegando a 2 milhões de cotas vendidas.
Conforme o mais recente Boletim do Sistema de Consórcios da entidade, em agosto de 2025 eram quase 2,5 milhões de participantes ativos no país no segmento de imóveis, alta de 10,6% na comparação com o mesmo período do ano passado.
O numero de contemplados também cresceu em relação a 2024 (32,7%), chegando a 13.769 no mês de agosto.

Na contratação de um consórcio imobiliário, a docente da UFRGS explica que a vantagem fica mais evidente quando observado o Custo Efetivo Total (CET), valor total que será pago pela operação de crédito, incluindo juro, tributos, encargos e outras despesas.
Se um imóvel de R$ 300 mil é financiado em 20 anos com uma taxa de juro de 10% ao ano, o custo final da propriedade pode chegar a R$ 600 mil ou mais, somando juro, seguros e taxas. No consórcio, esse mesmo imóvel pode ter um custo final próximo a R$ 330 e R$ 360 mil, considerando a taxa de administração entre 12% e 20% e eventuais encargos.
WENDY CARRARO
Professora da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS
O que é o consórcio e como funciona
O consórcio é uma espécie de autofinanciamento organizado por uma administradora autorizada pelo Banco Central do Brasil (BC), em que um grupo de pessoas com a mesma intenção de compra de bens ou serviços se reúne, paga parcelas mensais e participa de sorteios para receber uma carta de crédito e adquirir o bem.
Ainda há a possibilidade de dar lances para ser contemplado fora dos sorteios.
Taxa de administração
A administradora cobra uma taxa para gerir o grupo e cobrir os custos operacionais. Esse valor é diluído nas parcelas mensais, substituindo o juro cobrado em financiamentos tradicionais.
A taxa de administração é fixa, mas pode variar entre as administradoras e grupos. O valor exato da taxa de administração e a forma de cobrança estão no contrato.
Sorteio e lance
Além do sorteio, em que todos os consorciados ativos concorrem em igualdade de condições, há outras maneiras de ser contemplado no consórcio.
De acordo com a Abac, há duas formas de lance. A modalidade consiste no direito à contemplação mediante a antecipação de parcelas.
- Lance em espécie: ofertado com recurso próprio do consorciado, que receberá o crédito total correspondente ao valor do bem ou serviço. Pode ser ofertado em consórcios de todas as modalidades
- Lance embutido: ofertado com parte do crédito do próprio consorciado ou com recursos vinculados ao saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) na modalidade de imóveis
Desistência
Em caso de desistência, o participante pode resgatar o valor pago, mas geralmente precisa aguardar até o encerramento do grupo para receber o reembolso.
Estratégias e cuidados
Embora no consórcio o consumidor não saiba quando será contemplado, há estratégias para acelerar o acesso ao recurso.
Uma delas é comprar mais de uma carta, aumentando as chances no lance, ou comprar uma carta já contemplada, que consiste em adquirir uma cota de um participante que já tenha sido contemplado, permitindo a aquisição imediata do bem.
Embora a tática seja tentadora, comprar múltiplas cartas ou adquirir uma contemplada requer atenção. De acordo com a professora da UFRGS, é preciso estar atento ao risco de comprometimento elevado da renda.
Usar uma carta como lance em outra também pode depender da permissão da administradora e pode exigir garantias adicionais. Há também o perigo de inadimplência quando o consumidor assume parcelas de diversas cartas.
— O consumidor ainda precisa estar atento a possíveis fraudes ou golpes. Existem vendedores oferecendo cartas falsas ou com cláusulas ocultas. Então, é importante sempre saber a origem dessa oferta. Também é preciso prestar atenção nas taxas embutidas. Algumas cartas contempladas à venda já estão com lances embutidos, o que encarece o valor efetivo — finaliza Wendy Carraro.
Diferenças entre consórcio e financiamento
A principal diferença entre consórcio imobiliário e financiamento é o momento da aquisição e o tipo de custo envolvido.
No financiamento, o comprador tem acesso imediato ao imóvel, mas paga juro sobre o valor total, o que encarece bastante o custo final.
Já o consórcio não cobra juro, apenas uma taxa de administração, mas a compra do bem só ocorre após a contemplação, que pode demorar, pois depende de sorteio ou lance.
Veja ponto a ponto as diferenças
- Aquisição do bem: no consórcio, só acontece após a contemplação; no financiamento, é imediata após aprovação do crédito
- Custo: o consórcio não tem juro, mas há taxa de administração; o financiamento envolve juro e encargos mais altos
- Entrada: o consórcio geralmente não exige entrada; o financiamento costuma pedir uma parcela inicial, o que pode exigir maior capital de início
- Planejamento: o consórcio é ideal para quem quer planejar a compra e não tem pressa; o financiamento atende quem precisa do imóvel rapidamente
- Flexibilidade: o consórcio permite escolher outro bem da mesma categoria após a contemplação; o financiamento define o imóvel desde o começo
- Riscos: no consórcio, há incerteza quanto ao prazo de contemplação e atualização do crédito por índices inflacionários; no financiamento, o juro pode pesar até o fim do contrato
- Prazo: consórcios costumam durar de 10 a 15 anos; financiamentos podem se estender por 30 anos ou mais
- Perfil indicado: o consórcio favorece quem tem disciplina financeira e pode esperar; o financiamento é voltado a quem precisa do bem de imediato e consegue arcar com o juro

