
Com o Banco Central (BC) mantendo a Selic em 15% ao ano e o Federal Reserve (Fed) — BC americano — cortando o juro básico dos Estados Unidos, o diferencial entre os dois países aumenta. Isso abre as portas para impactos na economia brasileira, mesmo que em um cenário complexo.
De um lado, o ambiente com juro mais baixo nos EUA e ainda em patamar alto no Brasil atrai mais investidores estrangeiros para o país. Isso tira pressão do câmbio — que pode ceder ou estabilizar, respingando sobre o preço de itens dolarizados, como alimentos.
De outro, mesmo com a descompressão em dólar e inflação, o fato de o juro estar estacionado nos 15% aqui ainda freia investimentos, atividade econômica e consumo.
Na prática, o intervalo maior entre o juro dos EUA e do Brasil tende a ter um efeito mais rápido e prático no dólar e no preço de alguns itens mais básicos. No consumo e no emprego, a relação é mais complexa, segundo especialistas.
Dólar

Talvez o efeito mais imediato e cheio seja no valor do dólar no país. Com juro mais baixo nos EUA e Selic ainda em patamar alto, existe uma tendência de fortalecimento do real frente à moeda americana. Com isso, o câmbio pode cair ou pelo menos ficar estável, o que também ajuda a economia.
Isso ocorre porque parte dos investidores deixa o mercado americano, que passa a oferecer uma taxa menor de retorno, e migra para os títulos brasileiros com mais força. Isso traz mais dólares para o país e tira pressão do câmbio.
— A gente já está vendo esse efeito no mercado financeiro. Teve uma valorização das moedas dos países emergentes, como o Brasil, nas últimas semanas e uma alta forte na bolsa de valores, porque tem uma expectativa de que, na medida em que o juro nos Estados Unidos cai, vai perdendo o interesse por títulos americanos. E, com isso, tenha uma entrada de recurso estrangeiro no mercado financeiro no Brasil — explica o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini.
Inflação

Dólar mais baixo também tem efeito na inflação. Como muitos produtos consumidos pelos brasileiros são afetados pelo dólar em alguma das cadeias de produção, um câmbio mais comportado pode diminuir o preço de alguns itens, explica o economista André Braz, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre):
— Tem muitas commodities cotadas em dólares, como milho, soja e trigo, por exemplo. A pessoa não come soja, mas o porco come soja, o frango come farelo de soja, bovinos comem. Se esses itens ficam mais baratos, a proteína fica mais barata, o ovo fica mais barato. Ter uma moeda mais valorizada, nesse sentido, ajuda a diminuir a pressão inflacionária sobre alimentos, que dependem de safra boa e de câmbio estável.
O professor Maurício Weiss, do Programa de Mestrado Profissional de Economia (PPECO) da UFRGS, também cita essa repercussão na inflação, mas faz um alerta de possível impacto nas exportações, caso o dólar caia acima do esperado:
— No médio e longo prazo, o efeito vai depender do patamar do dólar. Se ficar ali em R$ 5,35, ainda mantém as exportações competitivas. Mas, se a taxa de câmbio cair mais e o dólar se aproximar dos R$ 5, então, lógico, vai ajudar mais a inflação, mas pode começar a afetar a competitividade das nossas exportações, especialmente dos produtos manufaturados.
Consumo

Na questão do consumo, a dinâmica é um pouco mais complexa. O economista André Braz afirma que, em alguns itens mais básicos, como alimentos, o efeito do diferencial de juros no câmbio e na inflação pode respingar em maior demanda.
No entanto, produtos com maior valor agregado e que dependem de financiamento, como veículos, tendem a não ter um aumento de procura. Isso porque, apesar da descompressão via câmbio, o juro rodando em 15% ao ano ainda pesa no bolso e no planejamento de compra do consumidor.
Emprego

No emprego, o efeito tende a não ser tão direto diante do juro ainda muito alto no país, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem. Ou seja, mesmo que o dólar mais baixo crie cenário para menos inflação em alguns produtos e isso abra espaço para aquecimento no consumo, a Selic alta inibe avanços nas contratações.
Dados econômicos recentes mostram esse movimento. Em julho, o país abriu 129.775 vagas com carteira assinada, segundo dados do Novo Caged. Além de vir abaixo do esperado, a abertura de vagas formais é 32% menor do que o registrado no mesmo mês do ano passado. Também é o menor montante para julho desde 2020. Em 12 meses, a geração de postos retraiu 14% menor ante o mesmo período do ano passado.




