
Entrando em vigor nesta quarta-feira (6), o tarifaço do governo dos Estados Unidos contra produtos brasileiros tem impacto que se espraia por diversos segmentos da economia do país.
Esse efeito não fica restrito às empresas que exportam seus itens aos EUA, porque acaba interferindo na dinâmica de emprego, do consumo e de investimentos no mercado interno.
Um dos maiores temores, principalmente no caso do Rio Grande do Sul, é o aumento do desemprego em alguns setores com forte dependência do mercado americano.
Preços
Entre os produtos mais afetados pela sobretaxa de 50% estão café, frutas, carne e calçados.
Na prática, um dos primeiros efeitos estimados é a diminuição nos embarques desses produtos.
No entanto, ainda não está claro se essa barreira vai ampliar a presença de alguns desses itens nas prateleiras e como essa maior oferta vai afetar os preços.
De um lado, pode diminuir os preços diante da maior quantidade no mercado interno e necessidade de escoar a produção. De outro, pode provocar aumento no valor por causa da necessidade de absorver as perdas com a diminuição das exportações ou de problemas no orçamento e organização dos negócios. Essas consequências vão variar de acordo com cada segmento e dos efeitos práticos do tarifaço.
— De certa forma, os produtos que já estão ali prontos, que estavam preparados para embarcar e o destino era os Estados Unidos, podem acabar sobrando aqui no nosso mercado. É a lógica do mercado, né? Mas lembrando que boa parte dos produtos impactados são commodities, matérias primas. Então pode ter, no início, uma melhora nos preços, mas depois eles tendem a a voltar ao normal — complementa José Antônio Ribeiro de Moura, economista e professor da Universidade Feevale.
Emprego
A diminuição ou parada nas vendas para um parceiro importante como os Estados Unidos também tem impacto nos quadros das empresas, principalmente as que têm sua dinâmica de venda muito dependente do mercado americano. Com menos remessas, é necessário diminuir produção.
Com menos produção, a mão de obra pode ficar ociosa. Com isso, a suspensão de contratos, férias coletivas e até demissões entram no radar de alguns negócios. No Rio Grande o Sul, o setor calçadista é um dos mais afetados, com representantes do ramo estimando demissões em caso de não saída para escoamento de produtos. Ainda na indústria, segmentos como tabaco, couro, madeira e alguns produtos de metal também correm esse risco no emprego.
Câmbio
Quando o tarifaço foi anunciado, um dos tantos temores que surgiram foi de uma eventual desvalorização maior do real em relação ao dólar. Entre os fatores que contribuem para projeção de alta da moeda americana está o aumento da incerteza diante do abalo na relação comercial entre EUA e Brasil. Com esse embaraço, o mercado brasileiro tende a ser menos atrativo, o que pode abrir espaço para uma saída de investidores estrangeiros e de dólares.
Outro movimento que pode contribuir para isso é a entrada de menos dólares no país com arrefecimento nas vendas para o parceiro comercial diante de tarifa mais alta.
No entanto, nos últimos dias, principalmente diante da lista de exceções, a moeda americana mostrou certa estabilidade, com pequenos recuos. Isso ocorreu porque as isenções em alguns produtos parece ter diminuído o efeito do tarifaço, "acalmando o comportamento do câmbio".
A desordem na balança comercial entre Brasil e EUA, contudo, ainda pode voltar a elevar o câmbio no país, abrindo brecha para repiques na inflação.
Investimentos no mercado financeiro
O tarifaço tende a aumentar a prudência de investidores. Abalo na relação comercial entre Brasil e Estados Unidos gera incerteza, principalmente sobre o comportamento de empresas listadas na bolsa que são afetadas pelo tarifaço.
Por exemplo, o valor das ações de uma empresa com ligação direta ou indireta com os EUA pode flutuar com o tarifaço. Essa volatilidade tende a afetar os investimentos de quem aplica em renda variável, prejudicando os retornos e a organização.
Já a renda fixa deve seguir atrativa porque o juro básico ainda está elevado no Brasil, hoje, em 15% ao ano. Isso porque segue rendendo de uma forma mais estável, principalmente em ativos com taxas pós-fixadas — aqueles atrelados a algum índice.
— A nossa taxa Selic ainda está alta, nos dois dígitos. Então, há uma perspectiva de manutenção nesses investimentos em renda fixa. Já na bolsa, tem aquela questão do sobe e desce do elevador, com as ações de empresas que podem ser afetadas nesse curto prazo — avalia o economista e professor da Universidade Feevale.

