
A edição desta terça-feira (5) do Acerto de Contas, transmitido ao vivo no YouTube de GZH, teve como foco o sonho da casa própria e os desafios do planejamento financeiro.
Com apresentação da colunista Giane Guerra e do repórter Anderson Aires, a conversa reuniu a educadora financeira Wendy Carraro e a diretora de Assuntos Habitacionais do Sindicato dos Corretores de Imóveis do RS (Sindimóveis-RS), Simone Carvalho, que esclareceram dúvidas enviadas por leitores e espectadores.
Entre os temas abordados, estiveram consórcios, financiamento imobiliário, como sair do aluguel e estratégias para manter as contas no azul mesmo em tempos de aperto.
Qual é a melhor forma de abater o débito do financiamento imobiliário?
A resposta depende do perfil e da necessidade do mutuário, mas há caminhos que podem ser mais vantajosos no longo prazo. Simone explica que a escolha entre diminuir o valor da parcela mensal ou o saldo devedor deve ser pensada desde o momento da assinatura do contrato.
— Sempre o prazo é mais vantajoso, e dá para fazer essa conta bem antes. Não que a modalidade de abatimento no saldo devedor não seja boa também — afirma.
Ela cita o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) como exemplo de recurso que pode ser utilizado para amortização.
— Tem pessoas que, após três anos, podem usar o fundo. Se o imóvel foi comprado sem uso prévio do FGTS, é possível amortizar a qualquer tempo. A rentabilidade do fundo é muito baixa, então usar esse valor para abater o financiamento é uma boa estratégia — detalha.
Segundo Simone, optar por reduzir o prazo do financiamento, mantendo o valor da parcela, costuma ser mais eficiente financeiramente.
— A parcela vai ser a mesma, mas o prazo vai reduzindo. E tem cálculo que mostra que o financiamento pode ser quitado até cinco anos antes. Além disso, ao abater o saldo devedor, o valor amortizado não sofre incidência de juro, seguros ou taxas — emenda.
Wendy complementa o raciocínio lembrando que, em alguns casos, contudo, a redução da parcela mensal pode ser mais útil.
— Às vezes, a pessoa precisa ter um pouquinho mais de folga no mês, então ela opta por baixar a parcela. Entrou um tratamento de saúde, uma conta extra que não estava prevista... Pode ser ideal renegociar para manter o prazo, mas diminuir o valor mensal — ressalta.
É possível fazer financiamento imobiliário sem corretor?
Uma dúvida recorrente de quem está buscando o primeiro imóvel é se é necessário passar por corretor para realizar o financiamento. A resposta, segundo Simone, é que o financiamento direto entre cliente e banco não é mais a prática adotada hoje.
— O financiamento hoje não é feito mais diretamente com o cliente e o banco. O banco habilitou vários profissionais, que são os correspondentes bancários — explica.
Esses correspondentes atuam como representantes autorizados das instituições financeiras e são os responsáveis por conduzir todo o processo de financiamento — da aprovação do crédito até o registro no cartório. Em geral, o cliente não tem custo adicional por esse serviço, que é viabilizado pelo próprio banco.
— É um serviço que pode se usar com bastante firmeza. Ao invés de começar do zero e tentar entender todo o processo, que não é fácil, o correspondente tem o conhecimento técnico e acompanha o processo com mais agilidade — acrescenta.
Ela destaca ainda que o cliente pode solicitar ao banco a indicação de um correspondente, mas não precisa necessariamente fechar com o primeiro que lhe for indicado:
— Precisa ter uma química, vamos dizer assim. Vocês têm que se dar bem, ter confiança, porque o cliente vai passar seus documentos, informações pessoais. Mas são profissionais aptos para isso e confiáveis.
Simone ressalta também que não há obrigatoriedade de contar com corretor de imóveis na etapa da compra, mas ele pode oferecer segurança na negociação, especialmente quanto à análise documental do imóvel.
Como está a liberação de crédito para financiamento?
O cenário atual da liberação de crédito para financiamento imobiliário segue incerto em termos de orçamento, mas as liberações estão ocorrendo, ainda que com algum atraso.
— Nós sabemos que tem verba, que há subsídios para as faixas 1 e 2. Mas não sabemos quanto tem, quanto já foi, quanto ainda sobrou. Isso não é palpável — afirma Simone.
Segundo ela, historicamente, no fim do ano — especialmente a partir de novembro —, costuma haver escassez de orçamento para novas contratações. Em 2024, houve uma tentativa de garantir mais acesso reduzindo o valor da cota de financiamento e incentivando uma entrada maior por parte dos compradores. A intenção foi permitir que mais pessoas conseguissem financiar seus imóveis com os recursos disponíveis.
— Aconteceu essa questão da entrada mesmo. Temos verba, mas não temos a demanda suficiente. Então, não sabemos se temos muita verba porque falta entrada ou se ainda não temos verba suficiente — pondera.
Apesar da indefinição, ela confirma que as assinaturas dos contratos seguem sendo realizadas, ainda que com mais lentidão.
Qual o prazo de garantia que a construtora oferece para reparos no imóvel?
A compra de um imóvel novo traz consigo direitos importantes para o consumidor. Entre eles, o prazo de garantia fornecido pela construtora para eventuais reparos. Segundo Wendy, o prazo geral de garantia é de cinco anos, mas é fundamental entender que cada item ou material utilizado no imóvel pode ter seu próprio prazo específico de garantia.
— Essa questão de água, de escoamento, por exemplo, é estrutural e está dentro da garantia. A pessoa pode procurar o setor jurídico da construtora para resolver ou, se não tiver sucesso, acionar judicialmente — explica.
Ela alerta para a importância de o comprador se apropriar de todo o processo da compra e do financiamento, evitando surpresas ao longo do tempo.
— Parece bobo, mas comprar um imóvel é como fazer um bolo: você precisa saber se tem os ingredientes, o forno, a receita certa. Principalmente, entender a ordem das etapas. Muitas pessoas se encantam com o sonho da casa própria, mas não estão preparadas para lidar com o que vem depois — afirma.
Por que é essencial ler o contrato com atenção?
Wendy chama atenção para a falta de cultura de leitura de contratos no Brasil. Segundo ela, muitos consumidores acabam sendo surpreendidos por cláusulas ou condições que não conheciam, justamente por não terem lido o documento com cuidado ou por não buscarem ajuda especializada para interpretá-lo.
— O contrato é a chave. Mesmo que seja difícil de interpretar, a pessoa precisa buscar alguém que a ajude. Seja para comparar instituições financeiras, simulações de financiamento ou analisar cláusulas de responsabilidade — destaca.
Ela recomenda também que o comprador pesquise a reputação da construtora ou instituição nos sites de reclamações e use os relatos de outras pessoas como parâmetro. E, caso haja algum problema posterior, o consumidor tem instrumentos para se defender — inclusive gratuitamente, em algumas situações.
— Se for necessário acionar o Juizado Especial Cível, o antigo Pequenas Causas, não precisa nem de advogado. Mas é importante que a pessoa saiba qual é o seu direito e como argumentar — lembrou Giane.
— Caso precise de apoio, pode recorrer aos balcões de atendimento ao consumidor das universidades, como os existentes na UFRGS ou na PUCRS, que oferecem orientação jurídica gratuita — complementou Wendy.
Vale a pena quitar um financiamento imobiliário antes do prazo?
A dúvida é comum entre quem já está pagando as prestações de um imóvel e, em algum momento, recebe uma quantia que poderia ser usada para abater a dívida. Conforme Wendy, a questão exige uma análise cuidadosa do perfil do comprador, do juro contratado e do rendimento potencial das aplicações financeiras disponíveis.
— O sonho de qualquer investidor é conseguir uma aplicação que renda mais do que os juros de uma dívida. Se você tem um financiamento com taxa de 9,98% ao ano e consegue investir esse dinheiro em algo que renda mais do que isso, pode valer a pena manter o financiamento e aplicar o valor extra — detalha.
No entanto, a decisão não deve ser apenas matemática. Wendy destaca que a tranquilidade de estar livre de dívidas também pesa para muitos consumidores.
— Tem gente que prefere quitar para dormir em paz, ou para liberar o nome e conseguir crédito para outras metas, como um carro. Então, essa escolha também envolve fatores emocionais e objetivos de vida — diz.
Para quem optar por manter o financiamento e investir, a educadora recomenda o uso de simuladores confiáveis, como o da B3 (bolsa de valores brasileira), e reforça a importância de resistir à tentação de gastar o dinheiro sem planejamento.
— Faça as contas com calma. Se o investimento render mais, pode ser vantajoso. Mas cuidado para não gastar esse valor em várias pequenas coisas, porque ele desaparece rápido — alerta.
Consórcio ou financiamento: qual a melhor opção para comprar um imóvel?
A escolha entre consórcio e financiamento depende do momento de vida, da pressa para se mudar e do planejamento financeiro de cada pessoa. Ambos os modelos têm vantagens e exigem análise cuidadosa dos custos totais, da taxa de juro (ou taxa administrativa, no caso do consórcio), além da convivência ou não com o pagamento do aluguel durante o processo.
Segundo a educadora financeira Wendy Carraro, o consórcio pode ser mais vantajoso em termos de custo total, pois não há juros, apenas a taxa administrativa. No entanto, é necessário considerar que o acesso ao imóvel não é imediato.
— O consórcio não tem juros como o financiamento, mas a pessoa depende de ser contemplada, e isso pode demorar. Se eu não tenho pressa para me mudar, ele pode ser uma boa. Mas, se eu tenho urgência, o financiamento permite acessar o imóvel a qualquer tempo, desde que eu tenha o valor da entrada e o crédito aprovado — explica.
Ela destaca ainda que, no caso do consórcio, quem não dispõe de um valor alto para dar um lance pode ter de esperar mais tempo. E esse tempo pode significar seguir pagando aluguel.
— Se eu for esperar ser contemplada, continuo pagando aluguel. Aí entra outro cálculo importante: por quanto tempo vou pagar parcelas e aluguel ao mesmo tempo? No financiamento, se o imóvel é entregue logo, já me livro do aluguel — diz.
Apesar dos juro envolvido no financiamento, Wendy ressalta que o planejamento financeiro pode ajudar a reduzir o impacto da dívida.
— O financiamento tem juros, sim, mas quando a gente põe tudo na ponta do lápis, muita coisa se ajusta. Nunca ouvi alguém dizer que fez esse exercício e não descobriu como reorganizar os gastos ou criar novas formas de renda — afirma.
A especialista Simone complementa que, dependendo do perfil da pessoa, é possível até combinar consórcio e financiamento como estratégia.
— Se você achou o imóvel e consegue pagar a parcela e ainda manter o aluguel por um tempo, pode fazer os dois. Você financia agora e entra no consórcio também. Quando for contemplada, quita o financiamento. Mas, claro, tem que estar bem educado financeiramente e organizado — orienta.
Estudante pode assumir financiamento imobiliário?
Muitos jovens que ainda estão na universidade sentem receio de assumir um compromisso financeiro de longo prazo, como o imobiliário. Wendy alerta para os riscos de se tentar acelerar conquistas sem que a base financeira esteja sólida.
— Antecipação de sonhos é um termo que usamos para explicar quando alguém quer alcançar metas antes do momento ideal. Eu trabalho muito com estudantes universitários e sempre peço que façam um planejamento realista para seis meses, um ano, cinco ou 10 anos — explica a educadora.
Ela reforça que, para quem está começando no mercado, é fundamental criar uma reserva financeira, mesmo que pequena, para que os objetivos sejam alcançados de forma segura.
— Mesmo que a renda seja uma bolsa ou estágio, o importante é reservar um percentual para esses planos. Vejo muitos estudantes que, ao ganhar um pouco mais, começam a gastar mais (com comida fora, lazer, entre outros) e acabam não poupando. É necessário criar “caixinhas” de limite para o que se gasta e o que se guarda — orienta.
Por fim, Wendy considera arriscado para um estudante ainda em estágio e com renda instável assumir um financiamento imobiliário.
— Acho muito arriscado que um estudante que ainda está inseguro financeiramente se comprometa com um financiamento. É melhor primeiro consolidar a renda, organizar o orçamento e só depois pensar nesse passo — conclui.
É assinante, mas ainda não recebe as newsletters com assuntos exclusivos? Clique aqui e inscreva-se para ficar sempre bem informado!

