
Do produtor de mel que exporta ao profissional que revisa detalhadamente cada par de calçado antes do embarque, o tarifaço aplicado pelos Estados Unidos a produtos brasileiros atinge os trabalhadores de diferentes formas. A depender do grau de exposição do setor produtivo, os efeitos desde que a taxação entrou em vigor, no início de agosto, vão de férias coletivas a estocagem de carga que ainda aguarda por novos destinos.
As medidas até aqui aplicadas, enquanto se espera pelo desenrolar das negociações entre os países e se articulam outros mercados, buscam resguardar os empregos e a produção. O receio é por quanto tempo as alternativas vão segurar estes postos de trabalho, dizem os empresários relacionados aos ramos atingidos.
Produzindo e estocando
No grupo entre os setores altamente expostos ao tarifaço, a apicultura gaúcha é uma das que mais envia produto aos Estados Unidos. Das 60 mil toneladas de mel produzidas anualmente no Brasil — concentradas no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, quase metade, entre 25 e 30 mil toneladas, vai para exportação. O restante fica no país para consumo individual ou para uso na indústria alimentícia.
A preocupação com o futuro da atividade já ronda os apiários. Sem ter para quem vender o mel, a produção na quantidade atual se torna inviável para os criadores de abelhas. A interrupção pode comprometer a renda de milhares de famílias que vivem do setor, alerta o presidente da Câmara Setorial de Apicultura do RS, Patric Lüderitz.
Apicultor e sócio da Honey Yards, empresa exportadora de mel com sede em Taquara, Sérgio Adams se diz aflito especialmente pelos pequenos apicultores. Além da produção própria, a firma conta com o mel produzido por 1,5 mil famílias associadas.
— Os pequenos são os que mais sentem. Temos expectativa de safra boa, mas a questão é o que vamos fazer com essa produção. Enquanto isso, o mel vai sendo guardado — diz Adams, que possui 1,6 mil colmeias na região de Cambará do Sul.

Oitenta por cento da produção total da Honey Yards é destinada à exportação. Deste percentual, 80% têm como destino os Estados Unidos. Desde agosto, os embarques ao país estão suspensos e a carga está estocada na sede da empresa. São tonéis de 300 quilos cada, em quantidade equivalente para preencher 10 contêineres.
— O sentimento é de frustração. Fazer o que com este produto agora? As contas chegando e o mel que já deveria estar no porto está aqui parado — diz o apicultor, observando os cilindros metálicos abarrotados do produto.
Os produtores correm contra o tempo para buscar outros mercados. A pressa é pela primavera que se avizinha, período de grande produção. A inclusão do mel na merenda escolar, via compra pública, é uma das alternativas buscadas pelo setor.
A apicultura só se tornou viável enquanto atividade comercial porque entrou a exportação. E foi assim que o Brasil despontou neste ramo. O desafio agora é manter o produtor na atividade sem este mercado relevante.
LUIZ SCHUH
Diretor comercial da Honey Yards
Em casa, à espera
Em setores de regime CLT, a principal alternativa adotada pelas empresas tem sido a concessão de férias coletivas. A medida busca driblar a ociosidade enquanto as compras norte-americanas estão travadas e é a primeira saída para evitar os desligamentos.
Recolhida em casa há uma semana, a revisora de qualidade Maribel Riboldi, 49 anos, diz que o período de espera pela retomada ao trabalho é de ansiedade e aflição. Outros seis colegas do seu setor na indústria calçadista foram mandados temporariamente para as férias. No tempo livre forçado, diz que aproveita para limpar a casa e pensar.
Prefiro entrar em férias do que ter demissão e espero que quando voltar esteja tudo bem. A gente fica preocupado, não tem como.
MARIBEL RIBOLDI
Trabalhadora da indústria calçadista

Na indústria, setor que movimenta massas expressivas de força laboral, os efeitos do tarifaço são proporcionais ao grau de exposição da empresa às exportações aos Estados Unidos. Por isso, os impactos têm se mostrado distintos.
Na Taurus, fabricante de armas de São Leopoldo, as férias coletivas foram concedidas a pelo menos 40 funcionários de empresa subsidiária e fornecedora de peças da operação principal. Já na Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC), de Montenegro, a medida atinge cerca de 130 trabalhadores de linha de montagem relacionada a produtos de exportação.
Companhias de outros ramos, como a Calçados Killana, de Três Coroas, também anteciparam o benefício aos trabalhadores.
— É um momento de espera. Conceder férias é a primeira alternativa e estamos aguardando o desenrolar das negociações. Tem uma pressão enorme para reduzir o preço, o que afeta nossas margens — comenta o CEO da Killana, Marcos Huff.
Rearranjo
Representantes de sindicatos relataram à reportagem que as companhias diretamente afetadas têm abordado o tema do tarifaço com seus funcionários. A avaliação é de que a opção pelas férias é uma medida importante para evitar demissões lá na frente.
— O pessoal está bem apreensivo, mas é melhor tirar férias de última hora do que perder o emprego. O medo maior são as demissões — diz o presidente do sindicato dos metalúrgicos de Montenegro, Francisco Kuhn da Costa.
— Também estamos apreensivos e queremos que se negocie logo com o Brasil. Tudo é possível de acontecer, mas evitar demissões é o principal — completa o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Leopoldo e Região, Valmir Lodi.
Ainda que se esperem efeitos econômicos em cadeia no longo prazo, como queda no PIB e diminuição de renda em outros setores indiretamente relacionados, os reflexos do tarifaço, neste momento, são pontuais às empresas que mais exportam ao EUA.
Empresas de ramos expostos, mas com foco em outros mercados, como a Europa, por exemplo, estão, inclusive, contratando. É o que relata a presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Indústria de Calçados de Campo Bom, Regina Knevitz. O desligamento de funcionários em fábrica da Usaflex, por motivos anteriores ao tarifaço, gerou disputa pelos trabalhadores em concorrentes do mesmo segmento.
João Nadir Pires, presidente da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias do Calçado e do Vestuário do Estado do RS (FETICVERGS), diz que a preocupação, por enquanto, é maior que os seus efeitos:
— No geral, é até surpreendente o comportamento porque dependendo da cidade há empresas contratando.




